3/24/2010
3/05/2010
Alice in wonderland
Antes do pequeno-almoço acredito em pelo menos seis coisas impossíveis:
A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.
A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.
3/03/2010
2/19/2010
2/16/2010
a menina no banco de trás
Vejo pelo vidro, o cirurgião demora a lavar as mãos, as suas mãos não tocam nada, nada mais, aguardam no ar, alguém traz as luvas, o cirurgião aguarda a sua entrada em palco e no fim pousa a faca e sai, agradece ao público e sai, o cirurgião não toca em nada. Eu não toco em nada, eu aguardo o acender das luzes, a última música para sair da sala sem tocar em nada, o ar quente repetitivo dentro da máscara. Eu corro eu tropeço eu sento-me e respiro fundo eu erro às vezes não me engano, eu sorrio eu engulo vontade de chorar, eu toco mãos àsperas e ouço o ar encher de folhagem um peito desapertado para mim, eu ouço o sangue correr, eu ouço o coração bater, bater, um tamborzinho longínquo. Eu ouço o primeiro choro de um bebé no frio de estar vivo. Eu chego cedo de livro na mão, sento-me num sofá, lá fora chove, demasiado cedo só os loucos deambulam entre as cadeiras e o miúdo que enche de água a máquina dos cafés. Escondo-me num canto e aqueço as pernas com o casaco, os loucos pedem uma borla no café e arrastam-se de volta ao quarto, no hospital todos os pijamas são iguais, todos os cabelos são iguais, sujos e amachucados, todas as caras são iguais, pequeninas e amachucadas. Terríveis os corpos cheios das suas velhices, cheios dos seus enganos, cheios de vergonha e eu, e nós invasores de todos os segredos bem guardados, as nossas mãos que desnudam tudo, as mãos do cirurgião que não tocam em nada, que despedaçam um corpo inteiro. Os olhos de todos os velhos são passarinhos molhados, eu engulo vontade de chorar e ouço-os respirar, encher o peito de folhagem sibilante, ouço o coração bater, tamborzinho longínquo, longínquo, perdido... E eu quero afundar-me no mais sujo de um homem e encontrar-lhe os olhos suplicantes, e apertar-lhe as mãos, e ouvir-lhe a vida desmoronada, escavar fundo o belo de um corpo apodrecido, senão como seríamos poetas.
1/26/2010
1/22/2010
Eu tenho de estudar.
Eu tenho de sair para jantar numa sala cheia de cigarros.
Demoro-me num copo de cerveja e numa risada sem importância.
Demoro-me mais.
Eu tenho de estudar.
Eu encontrei quem me faz rir e demoro-me mais numa garfada de bolo.
Eu tenho de estudar.
Mas encosto o corpo na cadeira e conto histórias mirabolantes a uma plateia de olhos esquecidos de terem de estudar. Eu tenho de estudar.
Mas a música tão bonita.
Mas o novelo de lã caido junto da cama.
Mas os livros cheiram a estórias.
Mas maçãs na prateleira da cozinha.
Mas vestidos para amanhã no armário, tantos.
Mas homens e gatos em janelas lá fora.
Mas ainda é tão cedo.
Mas o tempo é tão rápido que nem chego a percebê-lo.
Mas eu tenho de estudar.
E agora?
Eu tenho de sair para jantar numa sala cheia de cigarros.
Demoro-me num copo de cerveja e numa risada sem importância.
Demoro-me mais.
Eu tenho de estudar.
Eu encontrei quem me faz rir e demoro-me mais numa garfada de bolo.
Eu tenho de estudar.
Mas encosto o corpo na cadeira e conto histórias mirabolantes a uma plateia de olhos esquecidos de terem de estudar. Eu tenho de estudar.
Mas a música tão bonita.
Mas o novelo de lã caido junto da cama.
Mas os livros cheiram a estórias.
Mas maçãs na prateleira da cozinha.
Mas vestidos para amanhã no armário, tantos.
Mas homens e gatos em janelas lá fora.
Mas ainda é tão cedo.
Mas o tempo é tão rápido que nem chego a percebê-lo.
Mas eu tenho de estudar.
E agora?
1/21/2010
parabéns
Hoje reencontrei o postal. Dentro da cabine ninguém telefona para Paris, a Dona Marta diz que está farta, Outubrodedoismilequatro.
Hoje toquei o meu velho amigo, cordas roucas velhas. Qualquer coisa remexe-se dentro dos meus olhos, um inverno um ramo seco torcido, um sorriso de velho nú envergonhado, umas bochechas de menina pintadas com um coto de baton.
Hoje reencontrei o postal, às vezes tudo muda e nós ainda distraidos dentro de postais antigos.
Hoje toquei o meu velho amigo, cordas roucas velhas. Qualquer coisa remexe-se dentro dos meus olhos, um inverno um ramo seco torcido, um sorriso de velho nú envergonhado, umas bochechas de menina pintadas com um coto de baton.
Hoje reencontrei o postal, às vezes tudo muda e nós ainda distraidos dentro de postais antigos.
12/13/2009
Hypatia
Deixa-me ser como ela, doce mulher de acreditar em estrelas, voz tranquila, pensar irrequieto medroso de cair em armadilhas, deixa-me crer apenas nas estrelas e no seu lento passeio de carrousel, deixa-me duvidar de tudo o resto mas procurar, procurar, acreditar no que ainda não sei!
Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.
Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.
11/30/2009
Eu era tão feliz, tão feliz que nem sabia que era feliz, não precisava de saber não precisava de pensar, cabia-me no corpo sem folga ou beliscão.
Os dias agora mordem-me, enchem-me o agasalho de nódoas negras.
Quem inventou que não se pode voltar ao que já acabou? Que depois de hoje vem amanhã e que ontem só existe no pó das fotografias?
Será que todos eles, deitados nas suas camas e no seu respirar ofegante, sentem este miúdo que eu sinto dentro, trancado à força num quarto escuro de castigo sem entender porquê, quem inventou que temos de ser grandes, e quem nos ensinou a caber num corpo tão humilde de coisas magníficas, tão envergonhado de sonhos que nos esmagam quem foi que eu levo comigo de mão dada, tapo-lhe os olhos e tiro-lhe as meias, debaixo dos pés ramos aguçados, folhas que crepitam, um riachinho frio uma joaninha esmagada...
Sentes? Sentes?...
Os dias agora mordem-me, enchem-me o agasalho de nódoas negras.
Quem inventou que não se pode voltar ao que já acabou? Que depois de hoje vem amanhã e que ontem só existe no pó das fotografias?
Será que todos eles, deitados nas suas camas e no seu respirar ofegante, sentem este miúdo que eu sinto dentro, trancado à força num quarto escuro de castigo sem entender porquê, quem inventou que temos de ser grandes, e quem nos ensinou a caber num corpo tão humilde de coisas magníficas, tão envergonhado de sonhos que nos esmagam quem foi que eu levo comigo de mão dada, tapo-lhe os olhos e tiro-lhe as meias, debaixo dos pés ramos aguçados, folhas que crepitam, um riachinho frio uma joaninha esmagada...
Sentes? Sentes?...
Lisboa tem uma luz. Lisboa cheira a cafés apressados e bacalhau empilhado em caixotes, alperces secos, retrosarias de veludos empalidecidos, lisboa tem chão que escorrega de chuva. Lisboa tem os velhos que apregoam lotaria e mulheres que cantam imaginando uma voz que já perderam. Lisboa tem homens que dormem fora das montras, tem negros em longas cores, tem marinheiros com pernas de pau, com acordeãos, com silêncios compridos como ecos. Lisboa tem as pedras ao pé do rio molhadas de lodo, tem poemas velhos ainda cuspidos em algumas sombras. Lisboa... Os últimos sabedores de todas as estórias, engraxadores de sapatos vendedores de castanhas, loucos em mantas mulheres carregadas de ouros de plástico. Lisboa traquina...
11/23/2009
3 quilos e 180 gramas
Hoje vi nascer um bebé. Pela primeira vez...
E não importa o que dizem, não importa que a barriga seja cortada, não importam os sacos de soro pendurados, não importa que à volta todos tenham máscaras e toucas verdes, não importa nada, nada tira a maravilha a um bebé pequenino que sai para o ar frio do dia e grita, nada tira a maravilha do choro da mãe ao ouvir o grito do seu bebé, nada nunca foi tão bonito como ver nascer um bebé.
E não importa o que dizem, não importa que a barriga seja cortada, não importam os sacos de soro pendurados, não importa que à volta todos tenham máscaras e toucas verdes, não importa nada, nada tira a maravilha a um bebé pequenino que sai para o ar frio do dia e grita, nada tira a maravilha do choro da mãe ao ouvir o grito do seu bebé, nada nunca foi tão bonito como ver nascer um bebé.
11/17/2009
A estória dela
Em nova, ela sonhava com os filhos a engordarem-lhe a barriga, sonhava com o marido a pedir o jantar na mesa, um copo de vinho e uma côdea de pão, sonhava com os linhos engomados e pão de ló a cheirar no forno, uma cadeira de baloiço onde embalar os pequenos, sonhava com o cansaço de um dia inteiro no corpo, dorido como uma porta que range. Em nova, ela tinha os cabelos longos numa trança ao fundo das costas, penteava-se antes de todos acordarem, lavava-se numa bacia e vestia a camisa deixada nas costas da cadeira, cortava o pão na cozinha e depois esperava encostada na porta aberta da rua, via a noite amanhecer e o nevoeiro esconder-se nos ninhos e nas ervas, via os filhos lambuzados de doce e bigodes de leite, e despreocupava-se de outros dias que não aquele, tão aconchegado de vozes na casa.
Em velha, ela sentava o neto no colo e tacteava-o no escuro, no seu escuro. E esperando, encostada na porta, ela não via nada.
Em velha, ela sentava o neto no colo e tacteava-o no escuro, no seu escuro. E esperando, encostada na porta, ela não via nada.
11/13/2009
simples
Derreter chocolate em banho maria.
Passar o dedo no fundo da panela e ser outra vez um miúdo lambuzado.
Aquecer os pés debaixo do aquecedor de óleo.
Enrolar o xaile no pescoço, apagar a luz e sair.
Passar o dedo no fundo da panela e ser outra vez um miúdo lambuzado.
Aquecer os pés debaixo do aquecedor de óleo.
Enrolar o xaile no pescoço, apagar a luz e sair.
11/12/2009
Experimento as minhas mil caras. Hoje escolho esta. Todos parecem ter encontrado o seu cubículo, no colchão na mesa do café, eu dobro a roupa com paciência e arrumo-a direita na gaveta, as horas são mais lentas para mim, não duvido, passam como um comboio a vapor embaciam os vidros, o velho aquecedor de óleo é o corpo quente na minha sala. Imagino as vozes e os aplausos, a mão a pentear-me o cabelo junto ao pescoço, mas as olheiras crescem-me ácidas e as mãos impacientes de esbofetear, dobro a roupa lenta, rego os cactos, páro de pé em frente à janela e confirmo que chove na luz riscada do candeeiro, sento-me e espero o cuco do relógio no seu assobio de embalar, peço permissão para acabar o dia, peço por favor. Ninguém me conheceria, corcunda e amarelecida agora, experimento as minhas mil caras e hoje esta escolhe-me, escolheu-me já há muito, recordo agora... e entranha-se podre na minha pele até nada mais restar dos meus vinte anos.
11/08/2009
Ana
Ana foi o que sobrou de mim. Ana foi a nódoa que ficou quando te esfreguei dos meus olhos, quando a última roupa cheirou a primavera na corda, quando os envelopes envelheceram debaixo da porta. Sobrou Ana, em todas as letras que me arranham as mãos. Serei Ana, sabes que sim. Foi o que sobrou de mim, não de ti.
11/07/2009
Alongo-me como um bocejo. Não sei o que dizer, era simples antes, lágrima ou riso, meninas imaginadas de cabelo de papel, marinheirinhos na água ensaboada da banheira. Hoje enrugo-me na flanela da cama e penso toda uma vida que não consigo lembrar ou sonhar, hoje sou eu só, incapaz de amanhã. Eu tenho palavras, entendes? Mas montá-las ao acaso? Esperar que não se despenhem de manhã se o vento for demasiado desleixado?... Eu tenho uma máscara de rir que uso quando não sei que cara vestir. Descobrem-me a careca quando procuro as palavras, engasgo-me e coro. Eu não consigo escrever, eu queria ser mais que este nevoeiro de cabelos e rouquidão, queria ser mais que um livro de selos colados tortos, corpo torto que me sirva.
11/06/2009
Cresce-me um sonho dentro da barriga, aperta-me com muitos dedos faz-me cócegas, é muito de noite quero sair, quero nadar quero fugir, quero molhar o papel de uma garrafa quero boiar para a outra ponta do mar quero um papagaio, quero abraçar-te, quero sapatinhos para pés pequenos, quero trancar-me com um estranho quero entornar vinho na blusa e rir-me com dentes lilás, quero sentar-me num banquinho na varanda e esperar, esperar que uma tempestade me encharque e me adormeça de frio, quero rir até me engasgar até chorar, quero pousar a cabeça no mosaico fresco e amainar a febre, quero quero oh eu quero tanto!... Quero um nó na garganta, quero ser descarada, descaradamente cheia de rir!
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