No teu sofá não serei mais. Uma criança, não serei mais. Sentar-me-ei, as nossas cabeças à mesma altura, as nossas mãos trazidas à tona do mesmo lodo. Terei café e mágoas para ti. No teu sofá serei uma mulher, uma mulher no meu canto antigo de criança e gatos curvada de joelhos demasiado grandes. Tenho a certeza que te entenderei menos, eras tão simples nos teus versos, pianos, rosas, na minha distracção sem altura sem anos...
5/18/2012
3/09/2012
12/19/2011
12/16/2011
11/05/2011
uma ousadia
Parece-me que voltei a encontrar-te, que má pontaria, logo agora, estou atrasada e não sei onde deixei a minha bondade, tenho a certeza que te usarei sem dó que te esgotarei de recortes e asperezas. Mas agora que me cruzei contigo agarro-te o pulso antes que vires costas, espera só um segundo, vou pôr um chapéu de homem e uma blusa encalorada para que fiques confuso e sugiras procurar-me, entender-me. Trago na carteira a fotografia de um palhaço velho preto e branco e olhos azuis, triste, vamos olhá-la, anda, eu gosto de palhaços e tu gostas de lágrimas, cruzamos os pés debaixo da mesa e, espera, encontrei-te. Não quero que me pagues o café e corras para o comboio, levas os meus pés ainda na bainha das calças, tu nem te apercebeste estavas com pressa e era só um café, e como é que eu vou sair daqui agora...
9/23/2011
Biblioteca
Um palhaço pintado, botões dourados nas mangas olhos grandes de peixe azul, sinto-me um palhaço pintado quando deixo a porta em roupas de Domingo e tento encenar que tropeço por acaso em ti na rua.
9/15/2011
nós
Eu e tu existimos só no suor de um bar apinhado de gente, no suor doente de demasiados copos de vinho, no suor do teu braço em volta de mim a ensinar-me a dançar. A voz treme-me por isso existes em mim, e a rua quando passas é uma noite embriagada para onde me atraso... Os teus dentes riem quando me descobres do outro lado da porta por isso existo em ti, nem que só por um instante à noite ou na noite que criamos para podermos dançar e depois amanhece e passamos só na rua e é só rua a rua.
7/05/2011
No Verão a terra ardia e as galinhas procuravam bichos de areia. O sol era uma bochecha cheia de vergonha escondida ao entardecer atrás da casa, ao lado da casa. A casa era a pequena das duas, pedra sem candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos e a fazer de todas as paredes uma noite cerrada. A casa cheirava a fumo e restos de almoço num balde, a casa cheirava a ela que depenava uma galinha cheia de bichos de areia, o cabelo branco que foi sempre assim para mim apanhado num rolinho, uns brincos de ouro?... A casa era escura porque não tinha candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos ou então era eu ser pequena e os meus olhos não perderem tempo com nenhuma escuridão, eu dormia na casa que era a grande das duas, que tinha escadas, que tinha quartos e camas de ferro, que tinha silêncios de sesta, eu dormia na casa que era branca enquanto as galinhas brincavam sem mim e eu sonhava com elas, com afugentá-las de asas abertas em frente aos meus sapatos, assustadas só o tempo suficiente para um pulo e depois a mesma moleza de penas a bicar o chão vazio. A minha mãe era pequena só um pouco menos que eu e calava-se de calor numa cadeira à porta da casa que era pequena que era de pedra que não tinha luz por dentro que tinha sol por fora. O meu pai... não me lembro. Dizia-me para não arreliar o cão. Os cães, o cão era o grande dos dois. O meu pai guardava-nos a todos para sempre numa cassete. O meu pai talvez voltasse com ele, magro corpo de boina mãos sujas cheias de amendoeiras poços fundos cordeirinhos brancos, sorriso bondoso malandro, eu era pequena não sei se sei o que seria a bondade.
As casas todas tinham portas com fitas de plástico para que não entrassem as moscas. As fitas de plástico também não deixavam entrar o calor...
6/21/2011
Vinte anos
A porta onde fomos engolidos pela lente, assustados como se tivesse dentes, agarrámos-nos as mãos e juntámos as cabeças, não me deixes não me deixes, e sorrimos como se isso nos salvasse da morte certa.
5/14/2011
4/26/2011
4/19/2011
Se não posso amar-te encherei então de pão a mesa, de uvas de café de vinho, de copos mais bonitos de nocturnos de Chopin, dobrarei direitas as toalhas, esticarei nas tuas pernas uma manta quente. Serei silenciosa enquanto escreves, bailarina quando me olhares, entre o cheiro do café, da cadeira de baloiço junto à janela. Se não posso amar-te pagarei o jantar e o taxi e tantas diversões quantas queiras até satisfazeres a tua curiosidade do mundo. Se não posso amar-te então esperarei pacientemente que voltes para fazer-te a cama de lavado, um copo de água à cabeceira, as cortinas abertas para que o outono entre sobre ti numa luz que terei planeado, pequeno palco onde te observo da demasiada distância de ser espectadora, nada mais que isso. Se não posso amar-te farei outra coisa qualquer, um interminável trabalho que me ocupe as mãos tão assustadas, se não posso amar-te então amarei o lugar onde és tu, a almofada ou o prato onde descanses.
4/04/2011
João e Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Chico Buarque
3/29/2011
Vê lá não acredites em mim, a noite está cheia de vinho e nuns lábios roxos não se confia, uma boca de aguarela canta desvairada e não sabe das palavras que diz, não acredites em mim mãos bonitas, não me apertes os pés com a manta com as meias com a roupa que vai escorregando que eu sou capaz de te segredar uma cantiga e levar-te para o fundo do mar numa concha de mãos, sereia que encanta um barquinho pequeno. Não acredites em mim que a noite quer tirar-me a blusa que a noite toca contrabaixo e entre o fumo dos cigarros que imagino pousados na mesa da cozinha eu danço como se em volta de uma seda e escondo de ti o que não quero que descubras ainda, encosta-te na cadeira e fuma que eu venho já.
1/31/2011
Disse o professor
"Antigamente morria-se em casas grandes com jardins, com criadas e tias solteiras. Agora morre-se voltado para a parede como um cão".
Palavras bonitas onde menos se espera.
Vontade de derrubar as paredes...
Vontade de derrubar as paredes...
1/19/2011
1/15/2011
Bonito homem na mesa.
Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver. Bonito homem na mesa, a rir e a derrubar copos de vinho, dentes brancos que não tingem com o passar das horas. Ela pousou o queixo na mão fechada e ficou a olhar para ele como se os gestos fossem mármores trabalhados, macios debaixo do frio de todas as coisas de pedra. Ela tentou sorrir de volta como fazem as mulheres, tentou acreditar nuns lábios vermelhos que não trazia na bolsa. Ela é baixa como as coisas pequenas que enfeitam os sítios pequenos, pequenina e curva, ela caminha nas pontas dos pés para quase não tocar no chão para quase ser como uma coisa que se sopra e se aninha noutro canto qualquer. Mas ontem ela desejou ser enorme, fazer barulho ao andar, rir alto como os demónios e ter uma boca grande e escancarada que engolisse o homem e o guardasse quieto dentro do peito junto às outras coisas preciosas. O bonito homem na mesa nem a viu nem soube que ela dança, às vezes, quando algum homem lhe oferece a mão ou a palavra. Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver e ninguém viu.
1/06/2011
Minha querida, quando o pó sussurrava e mulheres sem tecto guardavam borboletas no cabelo, quando a tua mãe era jovem como as margaridas e no teu chão nos sentávamos todos em volta de um espaço vazio de um fogo imaginado, quando punhas flores no teu cabelo para que a primavera nunca desaparecesse, quando os homens eram peixes que traziam no seu próprio corpo o brilho de todas as lâmpadas de todos os charcos debaixo de lua cheia, lembro a tua casa onde nos escondíamos do passar das horas ouvíamos repetida sempre a mesma música esperando que se tornasse verdade, enfeitávamos os nossos rostos de restos de coisas de restos de viagens de paisagens de cheiros de sujo, minha querida lembro a tua casa como se hoje fosse muito velha e a tua casa qualquer coisa impossível que aconteceu há muito tempo, guardada entre uma pilha de cartas apertadas num laço de cetim. O que é triste é belo, dizia ele, o que é triste é belo e hoje sou com certeza muito bela. E lembro-te, dezanove anos, todos os animais se empilharam muito alto para roubar um pedacinho da lua e o peixe no lago pensou se não a veriam mesmo ali a boiar na água...
1/03/2011
1 de Janeiro, 2011
Na casa quieta ouço nos vizinhos de cima o virar das horas, feliz ano novo engulo as passas de um trago. Peço que desapareça a caixa do armário com o seu cotão tão gentil, peço que me perdoem que batam à minha porta com um ano passado nos braços que eu prometo não o esbofetear não chorar no seu corpo magoado.
Homem, há muito tempo que não sou mais que uma diva encarquilhada em fotografias velhas, eu pensei que caberias num cubículo mas fui eu quem minguou até não ser mais que um vestígio de olhos enxaguados. Silêncio, só silêncio... e esta música velha de quando o mundo mudava só por existirmos nele, arrogantes criaturas cheias de versos. Eu não sou arrogante, que lembro eu de como pássaro rima com piano, búzio com papagaio de papel. Eu eu eu que anedota eu que roubo dos outros os risos que sorvo deles o começar de uma nova dança, eu que engulo de um trago as passas sem nada desejar, que desejar, risada seca como um caroço, eu que nunca irei salvar o mundo nem sequer deixar nele um lume que permaneça até o mundo acabar.
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