1/31/2009

A boleia

Se a levares no carro, ela vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja, vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai ajeitar-te o cabelo e depois hesitar os dedos dela nos teus dedos. Vai ficar séria, depois, e olhar sozinha pela janela a pensar em coisas que não sabes. Vai encostar o nariz no vidro e fazer figurinhas de vapor com o dedo e não vais poder ver-lhe a cara, não vais poder ver os pingos a escorrer do queixo. Depois vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja e vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai trocar o CD, ela que costumava zangar-se quando pedias para escolher a música, e vai deixar ficar os óculos de sol a disfarçar os olhos vermelhos. Tu vais conduzir o carro e olhar para o relógio para saber quanto tempo falta até que tudo se desfaça como uma estória de jornal na água de um alguidar, ela não precisa do relógio porque a estrada arranha-a como se ela fosse a roda sempre a girar, quando sentir a curva a chegar vai pousar os óculos e esconder as mãos entre as pernas e morder o lábio de baixo para não chorar. Ela conhece-te... Sabe que não voltará a ver-se, no espelhinho, com os óculos de sol cor-de-laranja.
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.

O vento desvairado lá fora.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...

O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...

1/30/2009

o reclame

A televisão fala alto e não consigo encontrar o fio à meada do que me vai pela cabeça. Tenho esta urgência de falar de um assunto que não consigo ouvir qual é, a televisão fala tão alto, homens que se culpam e se desculpam dos pontapés que vão dando uns nos outros pelo caminho, a musiquinha que volta e meia anuncia a estória triste de alguma família que só será contada no fim do telejornal. A televisão fala alto, não consigo escrever.
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.

1/27/2009

1/24/2009

dançar...




Cresci com os pés sujos e cortados da madeira. Cresci enrolada em trapos e gaitas de foles, cresci molhada de suor e com a cara escondida em cabelos compridos e envergonhados, cresci debruçada no balcão da comida onde vinhas encontrar-me sempre a cheirar a maçãs e açúcar, cresci a adormecer de madrugada com o coração a bombear danças furiosas nas minhas pernas, a lavar as mãos numa poça de água e a ver estrelas cadentes sob o carvalhal. Cresci entre saias rodadas e sonhos ansiosos de pés mais magoados por danças e caminhadas, e cabelos mais compridos para esconder a minha cara envergonhada e dedos mais cheirosos de maçãs e açucar. Cresci e um dia entrei nua na água gelada e vi duas libelinhas azuis, com o coração a bombear-lhe danças furiosas nas asas, e quis ser como elas...

1/21/2009

Sigur Rós. E estórias antigas a pesarem-me nos olhos.

Luzes nas paredes e nas cadeiras, a rodar, a rodar... O meu corpo nú polvilhado de botões. Eu um alfinete pequenino pendurado num aeroporto, à espera, à espera...

Ponho a ponta da lígua de fora e lambo as estórias que me vão pesando nos olhos.

1/20/2009

Em coimbra...


Amor, as magnólias estão em flor!...

1/15/2009

caril

Como estava sozinha em casa deixei-me ficar a ouvir música alto. Música turca, cheia de ruas estreitas e lenços pendurados. E cozinhei caril. Antes de cozinhar alinho na pedra a manteiga, a carne, o pimento, a tábua de madeira, as duas facas, as natas e os coentros, a cebola, um copo de água. Depois, só depois começo. E a primeira coisa é o cheiro do refogado, doce e quente, e começo a sorrir para a música e sinto nas mãos a carne fria e as sementes do pimento e o áspero da faca na tábua. A panela borbulha e aquece-me as mãos, deixo escorregar o caril entre as pontas dos dedos e o ar cheira de repente a amarelo.
Quando cozinho as minhas mãos cheiram a índias e aipos cortados, e a lume. Quando cozinho as minhas mãos cheiram a vozes em volta da mesa, cheiram a crianças aconchegadas à noite na cama, cheiram a um copo de vinho contigo antes de a manhã chegar. Quando cozinho aproximo as mãos das narinas e inspiro o aconchego da comida, e sei-me velha junto à minha pedra, com a cebola e o azeite alinhados, e aproximo as minhas mãos do teu rosto e tu sabes que sou eu, cheiras o aconchego em mim.

Hoje cozinhei para ti.

1/14/2009

o belo e a monstra

Hei-de conhecer-te quando te deixar. Quando te deixar hás-de chorar-me como se tivesse fechado a porta para nunca mais a abrir. Hás-de pintar-me em cantos de guardanapo, hás-de escrever-me poemas de mim e hei-de saber quem sou nas tuas palavras. Quando te deixar hás-de ver-me, hás-de sentir nas costas o frio do meu corpo desencostado de ti a dormir. Quando te deixar hás-de querer apertar-me e ver-me dançar suada e sem sapatos, de mãos pousadas no ar e sorriso de quem se despe em frente ao espelho, em frente a ti, com vergonha e orgulho de estar nua. Hás-de lembrar-te de mim suada e suja e hei-de ser bela para ti e as minhas costas hão-de ser um tear nas tuas mãos e o meu cabelo há-de encaixar no recanto do teu pescoço, e o meu umbigo há-de ser uma poça de água com flores de lago. E havemos de ser felizes para sempre. Quando eu te deixar.

1/09/2009

Não


Não, nunca nos teus pés encontrei mau feitio.
É preciso deixar o amor chegar . É preciso esperar por ele, tricotá-lo como uma luva quente, o amor demora-se, faz-se difícil, primeiro olho para ti e gosto-te, memorizo-te o macio dos cabelos e os gestos das mãos, entalo-me em ti para dormir, falamos de poemas e rimos na relva junto ao rio. E quando voltas para casa, eu volto para casa.
Mas se esperar, hei-de fazer-te chá quando ficares doente, hei-de sentar-me na cama até que adormeças e hei-de tirar-te as dores do corpo, e hei-de encontrar flores no inverno, para ti. Porque te amo.

1/08/2009

primeiro envelope


Voas. E depois, será que pousas bem?...

1/07/2009

EXTRAVAGÂNCIAS

Puxo o livro para dentro da mala e preparo-me para sair.
Não saio sem escolher bem os sapatos, têm de ser os sapatos perfeitos, bem vincados e com atacadores, um bocadinho sujos, um bocadinho tortos da idade, um bocadinho idiotas. Não podem ser uns sapatos tirados do cesto ao acaso, não, têm de ser cuidadosamente feios e fora de moda, cuidadosamente fora de prazo para os olhos, cuidadosamente deliciosos, para, quando cruzar a perna no sofá do café com o meu livro aberto e a caneta empinada a riscar página atrás de página, o rapaz barbudo e com óculinhos redondos, que aproveitou das velharias do pai, olhar para mim uns segundos e pensar quem será aquela que lê tão quieta, com uns sapatos tão estudiosamente extravagantes...

1/05/2009

für dich

Eu bati à porta e tu olhaste-me como se eu fosse um trapinho com graça. Eu olhei-te como se fosses um sorriso grande e trocista, como se o teu chepéu fosse um ninho de cotovias e o teu cotovelo pousado ao acaso na mesa ou nas costas da cadeira fosse o braço de um violoncelo. Tu olhaste-me e nem sabias falar comigo e o teu mundo era já grande demais, cheio demais, cheio de gente, mas olhaste-me como se fosse um trapinho com graça e sorriste divertido, e eu vi pássaros no teu chapéu, e tu dobraste-me com cuidado e guardaste-me no bolso do casaco como se no meu corpo houvesse algum perfume que não querias perder, e de vez em quando pegavas em mim e rodavas-me no ar e voltavas a apertar-me com força na mão como se eu fosse voar, como se eu fosse um trapinho num estendal ventoso, sempre quase a fugir-te dos dedos.

1/02/2009

Vou fechar os olhos e deixar o novo ano chegar. Ver como é. Não espero nada. De manhã lavo o cabelo e ponho as botas do costume e a mala às costas e nem me lembro que é janeiro, hei-de continuar a não ter para quem escrever tenho é este buraco dentro, que nem é preto é só um buraco como se este ano não tivesse sido meu, um buraco que quero espalhar por uma pilha de folhas de papel mas não consigo porque este ano não foi meu, não sei o que dizer. Como se tivesse a boca presa com adesivo, chove agora, chove muito mas há sol e os vidros ficam pingados e as casas de lisboa têm jardins na parte de trás e escadas musguentas e se me despir no quarto todos podem ver-me por isso desço a cortina antes de mudar de sapatos, não quero que me vejam os dedos dos pés, são um segredo bem guardado, não quero que saibas por onde andei, não quero que vejas que ontem não dormi em casa, ias agarrar-me nos pés e lamber o resto de chá que bebi em segredo numa rua de casas podres e depois havias de cuspi-lo e deixar-me sozinha na cama e eu não quero dormir sozinha, fica comigo mesmo que não consiga lembrar-me das noites, nem da tua cara, e acordo e passo dias a devorar-te as expressões e o cabelo e o teu cheiro e nunca me lembro, não consigo ver-te e não me lembro do que me disseste ontem antes de fechar os olhos. Não sei como te conheci, sei que me enlouqueceste e que fugi de casa contigo, prometi-me uma varanda cheia de vasos e as tuas mãos a cortar-me o bife à mesa, prometi-me os teus olhos sempre cheios de açúcar e cachos de uvas para a sobremesa e agora não gosto do escuro porque me esqueço de ti assim que as luzes se apagam. Minto. Gosto do escuro porque não tenho de viver contigo…

12/31/2008

feliz ano novo


Bebo o nosso café sozinha, não pude abrir a porta, sabes que não, mas fiquei na cozinha e fervi a água no fogão, não pus a chávena no microondas, isso não, o café no lume sabe diferente, é o que dizem, demora mais tempo, sim, mas eu acendi o gás e esperei, esperei e deixei o cheiro espalhar-se pelo corredor, fechei os olhos e deixei-me aquecer pelo borbulhar da cafeteira, na verdade o fogão foi só uma desculpa para ficares mais tempo, percebes?

Santa Apolónia

Quando o comboio chega há sempre um velho de casaca e chapéu, sério, costas direitas um bocadinho descaídas como todas as costas dos velhos. Arrasta um carrinho ferrugento e vai de porta em porta para carregar as malas de senhoras cheias de pó de arrôz e laca no cabelo.
Restos de tempos em que as malas não tinham rodas...

11/29/2008

antes da estreia...

A mesa é só uma mesa. Até vir o homem da luz. Aí uma mesa pode ser um envelope bem vincado, um coração partido, uma mulher deitada com os braços abertos, com a cara escondida na penumbra do cotovelo.

Ninguém mexeu em nada, garanto-lhe, a mesa está onde sempre esteve, sim, foi o homem da luz que veio, sim, fica logo tudo diferente, não é?

11/28/2008

Coimbra, 27 de Novembro de 2008

Chegámos tarde.
Três batas brancas a correr pelos corredores pelas escadas pelo quarto, chegámos tarde.
Ele já dormia, num repouso sem ar de máscara quente, e eu olhava sempre para a luzinha que tentava acordar-lhe os olhos, nunca para os olhos, nem para a boca seca, nem para as memórias que lhe imaginei. Não lhe quis guardar a cara.
E o filho tinha uma súbita água a escorrer pelos lábios e pelo pescoço, e começou a andar mais devagar. É que tinha acabado de chegar e também chegou tarde.



(e guardei-lhe a cara, claro que sim...)

11/12/2008

Falamos de coisas banais.



Equanto isso, aproximo-me sorrateira por trás de ti, sem me veres, e enquanto falas
aspiro o perfume do teu pescoço.