5/24/2009

professores

Sou de lágrima fácil.
Escrevi um abraço apertado a todos os que um dia me ensinaram na escola, bichos letras números, e devagarinho chegam-me as respostas, abraços apertados saídos de um tempo há muito tempo a lembrarem-me coisas que não esqueço. Era uma vez professores que sabiam o nosso nome, o som dos nossos sapatos a nossa letra num monte de folhas. E lá se pendura no meu olho a lágrima fácil...
A noite acaba, os carros acendem-se e aceleram, os olhos não são mais uma pintura minuciosa, agora apenas rascunhos para uma outra vez, amanhã. A noite acaba para mim, o palco ficou só dela e ela é uma caninha em pontas de pés, ela dança em volta da mesa de olhos fechados e parece encontrar as esquinas onde o corpo ficaria negro, foge delas, roda, balouça as mãos cavalo marinho, ri... Eu largo-me numa cadeira vermelha, luzes um bocadinho sombra mas eles encontram-se sempre rodam batem um no outro fundem-se levam-se um no outro para casa, escondidos no bolso, um puxará o outro como um lencinho bordado e junta-lo-à ao rosto, na almofada. A noite acaba para mim, aconchego-me no casaco, as pernas açoitadas de música o vestido molhado de calor, fui louca hoje, abandonei-me à sofreguidão de serpentear nas fitas de luz rosa para me ver quase voar, a água espalha-se o bolo esfarela-se nas tábuas e os pés devoram todos os farrapos e dançam mais, mais, mais e enlouquecem e sapateiam sozinhos, sem corpo, sem a minha cabeça que os sentaria quietos em pantufas de lã, a minha cabeça mãe cansada e impaciente de silêncio e sono sossegado...
Os pássaros cantam. O céu ainda escuro mas eles sabem, eles sabem, em breve será manhã. Os pássaros cantam-me boa noite, boa noite...

5/23/2009

abat-jour

Ponho o chapéu. Um chapéu macio de homem, um chapéu de côco preto, um chapéu descaído sobre o cabelo sujo e fino, tapa-me as sobrancelhas e as pestanas, tapa-me o que vou fazer-te a seguir, não adivinhas... as minhas meias abandonam-me a meio das pernas e a saia está vazia...
Roubo-te o som que fazes quando libertas o perfume dos meus tornozelos, quando descobres o precipício das minhas meias.
Gosto de vestidos que deslizam pelas costas pela cintura pelas mãos, escorregadios, ásperos, pesados, vestidos que caem aos meus pés a correr quando decido sussurrar-te junto ao pescoço o que não adivinhas.

5/09/2009

pirilampos

Às vezes preciso de abrir as gavetas. Tirar tudo para fora, montar o castelo de cartas que no fim hei-de soprar de volta ao chão, e outra vez esquecer. Mas às vezes preciso de abrir as gavetas, calçar sapatilhas de ballet pequeninas e saias de tule com peixes que já foram de verdade e rodar pelo quarto espartilhada numa pele que sufoque o meu corpo crescido e desgracioso. Matar bichos velhos que sobreviveram a todas as vezes que tentei cortar-lhes a cabeça com a maldade de uma criança curiosa armada de mãos sem lembrança. Tiro tudo para fora com a paciência meiga de um embalo, apalpo os envelopes para confirmar que continuam todos lá dentro, a dormir nos vincos do papel, reconheço os ganchos de cabelo e os lenços desengomados, e prometo que os acordarei quando for hora. Mas ainda não... Faço-os prisioneiros das minhas sombras enquanto me tremerem os joelhos com medo do escuro.
Serão os meus pirilampos.

5/06/2009

Hoje não escrevo nada, lanço só palavras como se lançam dados de olhos fechados à espera de sorte, já larguei as pernas e os braços e a cabeça na cama, os sons lembram-me gente diferente noutra ponta do quarto noutra ponta da cidade noutra ponta do mundo.
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.

Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...

5/03/2009

Coimbra, queima das fitas 2009

A capa preta significa que vou encontrá-las à porta, à minha espera de sorriso bem aprumado, impacientes com a minha demora e com a minha gravata torta. É o dia em que as guitarras farão alguém encolher o corpo e fechar os olhos doídos, atrás deles corre a fita de um filme rápido tão rápido, já passou, o primeiro dia em que chegámos com as malas cheias de agasalhos e papéis e migalhas de um tempo que então era o passado, as guitarras não eram mais que uma hora curiosa de pestanas diluidas que nunca chegaria para nós e que ouvíamos distraidas de sorrisos. Quando os meus olhos se apertarem com medo de abrir-se e o último acorde tiver parado de vibrar no chão vê-las-ei à minha porta, de sorriso bem aprumado e impacientes com a minha demora e a minha gravata torta, verei as costas orgulhosas de capa comprida, verei os sapatos altos atirados sem querer contra a parede enquanto cozinhávamos descalças e bebíamos vinho barato, as mãos contidas, medo que o carinho voasse de repente dos dedos, cansado de se esconder sempre nos sorrisos bem aprumados e na impaciencia das gravatas tortas.

4/28/2009

É diferente. Há o que se sente entre a roupa, aninhado entre as lãs e o linho do corpo, junto à pele como um hálito quente e aguçado que arranha as costas, que contorce as pernas e os dedos das mãos e que entreabre os lábios como uma fresta por onde se escuta um segredo só de ar.
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.

4/27/2009

O amor, pela Rita

Dás por ti a ter saudades de algo que nunca foi...

"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."

"Your skin is something that i'd stir into my tea"

4/25/2009

Ouço o piano, o vento lá fora não magoa os telhados nem as chaminés, nada mexe, a camisa de noite ficou pendurada, quieta, na cadeira. Apodera-se de mim uma lânguidez, um arrepiar de pele silencioso, talvez agora nenhum pássaro bata asas para voar, flutue apenas...

4/16/2009

Caminha, caminha, caminha sem direcção como se o teu corpo fosse apenas memória de liberdade, liberdade que rebenta as cores do segredo pintado, tanta coisa por dizer, caminhas, caminhas sem direcção, electro, e também petróleo, e até de pé, de pé e caminhas tu, o mistério, o mistério esse, como diz a canção, será que o persegues, há brisa de verão agora e tu? Terás o mistério? Tanto por dizer, por dizer um tanto mais, caminha, caminha, caminha sem direcção, caminha sem direcção, tanto por dizer e tu, e tu caminhas, caminhas sem direcção, a luz mistura-se, é luz ou não-luz, a luz mistura-se e passas, sim, sereno, passas tanto, passas tanto, tu caminhas, caminhas sem direcção, passas tanto, passas tanto, caminha, caminha sem direcção, passas tanto, e tu, tu na gaiola...


Suburbia Playtime, Maio 2005

4/13/2009

valsa de monstros

Quando acendi a luz o teu quarto tinha escurecido e tinha a textura de uma rosa vermelha e tínhamos todos os olhos a ver-nos os dedos das mãos e dos pés.

4/12/2009

a vida devia ser assim!...

páscoa

Terra pequena de rendas e barro, mulheres velhas, de cabelos compridos em ninhos cinzentos e de brincos de ouro, onde tento desenterrar os meus vinte e um anos e as minhas pernas capazes de saltar papoilas e pedras e as minhas bochechas capazes de corar de vergonha, casas escuras cheias de pratos com rosas de esmalte e cheiro de guisado e café com leite e de lume antigo, adormeço tranquila ao colo destes lugares que pouco mais durarão, quando todas as mulheres vestidas de preto desaparecerem e levarem com elas as mezinhas, os cochichos espiatórios, as linhas de bordar, as mãos tortas e coxas capazes de acariciar pétalas.

4/06/2009


Quando me deito já todos dormem às escuras.

A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.

Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.

Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…

Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.

3/31/2009


Nas minhas mãos guardo memórias de acenos, tecidos, cascas de árvore, alfazema, do teu cabelo que adormeci.

3/30/2009

rituais

O roupão tem flores roxas e outras amarelas. É velho e pálido. Tem um bolso onde ela guarda a esponja depois de bem espremida. Ela aperta o roupão com um laço de lado e abre a porta. No quarto fecha-se. O quarto tem segredos, tem linhos e sapatos vermelhos. Ela aperta o cabelo com uma fita castanha e põe-lhe laca com os olhos fechados, passa os dedos nos fios que ficam soltos, alisa-o para dentro de ganchos pretos finos. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Traça os olhos, só os cantos das pálpebras, só as últimas pestanas, um risco pequeno, quase invisível não fora os olhos parecerem afundados de repente, lápis cinzento, não preto. Dilui a cor com um gesto da ponta do dedo. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Veste-se de preto, deixa escorregar o vestido pelas costas até ao fundo das pernas, o vestido tem um botão no pescoço e as costas abertas, as sabrinas são de cetim bem engomado. Vê o perfil no espelho, costas direitas, queixo para cima, vê-se de frente no espelho, os dois olhos alinhavados de escuro como quem não dormiu, os lábios secos mal cuidados, brancos, morde o lábio de baixo até ter um rasgo vermelho. Duas pérolas pequenas ao longo do pescoço. Ela aperta as mãos uma na outra, ouve os dedos estalar, ela tem medo e sai.

Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.

3/27/2009

escrevo-te a ti

Às vezes deitas-te e acordas na outra ponta da cidade, perguntas-te que mãos te pousaram em tão maus lençóis. Tens duas caras, lua-cara, Lua-nova-olhos-cegos, somos os da noite os que não dormem os que se afogam os que cantam os que choram o corpo nú, tão desgraçado, brindemos à embriaguez desta primavera saturada de perfume e deixemo-nos cair, na outra ponta da cidade, sem orgulho, sem desamor, toma o meu corpo se queres hoje sou transparente amanhã serei de novo um deus. Tantas asas pousam numa flor... a minha vergonha um pouco poema...

pensatempos

O miúdo do acordeão cresceu comigo. Eu era pequena e ele era pequeno, sentado na calçada com um caozinho cantor. Ele era pequeno e eu, então pequena, pensava que todos os pequenos aprendiam a ler na escola até às cinco da tarde, e tinha-lhe uma pena invejosa pelas tardes soalheiras entre azulejos e frontarias caiadas. Hoje tenho um metro e sessenta e ele é maior que eu, eu deambulo na tarde soalheira de lisboa e ele continua parado no passeio, enche a rua de convites para dançar que imagino aceitar desde criança (desde criança, soa estranho, o que sou agora então?). Mudaram as cores atrás dos vidros que espreito para arranjar o cabelo entre os passos, lisboa continua velha, desmanchada entre árvores retorcidas nas escadarias, varandas cheias de pombos, lisboa continua bonita... o garoto toca acordeão, sempre a mesma música, e eu, garota, fecho os olhos, e lisboa roda, com as suas calçadas e os carrinhos de gelados, como uma caixinha de música cheia de pó. Invejo-lhe as cantigas, bilhete tão fácil para a minha pequenice.

O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.