A porta onde fomos engolidos pela lente, assustados como se tivesse dentes, agarrámos-nos as mãos e juntámos as cabeças, não me deixes não me deixes, e sorrimos como se isso nos salvasse da morte certa.
6/21/2011
5/14/2011
4/26/2011
4/19/2011
Se não posso amar-te encherei então de pão a mesa, de uvas de café de vinho, de copos mais bonitos de nocturnos de Chopin, dobrarei direitas as toalhas, esticarei nas tuas pernas uma manta quente. Serei silenciosa enquanto escreves, bailarina quando me olhares, entre o cheiro do café, da cadeira de baloiço junto à janela. Se não posso amar-te pagarei o jantar e o taxi e tantas diversões quantas queiras até satisfazeres a tua curiosidade do mundo. Se não posso amar-te então esperarei pacientemente que voltes para fazer-te a cama de lavado, um copo de água à cabeceira, as cortinas abertas para que o outono entre sobre ti numa luz que terei planeado, pequeno palco onde te observo da demasiada distância de ser espectadora, nada mais que isso. Se não posso amar-te farei outra coisa qualquer, um interminável trabalho que me ocupe as mãos tão assustadas, se não posso amar-te então amarei o lugar onde és tu, a almofada ou o prato onde descanses.
4/04/2011
João e Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
Chico Buarque
3/29/2011
Vê lá não acredites em mim, a noite está cheia de vinho e nuns lábios roxos não se confia, uma boca de aguarela canta desvairada e não sabe das palavras que diz, não acredites em mim mãos bonitas, não me apertes os pés com a manta com as meias com a roupa que vai escorregando que eu sou capaz de te segredar uma cantiga e levar-te para o fundo do mar numa concha de mãos, sereia que encanta um barquinho pequeno. Não acredites em mim que a noite quer tirar-me a blusa que a noite toca contrabaixo e entre o fumo dos cigarros que imagino pousados na mesa da cozinha eu danço como se em volta de uma seda e escondo de ti o que não quero que descubras ainda, encosta-te na cadeira e fuma que eu venho já.
1/31/2011
Disse o professor
"Antigamente morria-se em casas grandes com jardins, com criadas e tias solteiras. Agora morre-se voltado para a parede como um cão".
Palavras bonitas onde menos se espera.
Vontade de derrubar as paredes...
Vontade de derrubar as paredes...
1/19/2011
1/15/2011
Bonito homem na mesa.
Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver. Bonito homem na mesa, a rir e a derrubar copos de vinho, dentes brancos que não tingem com o passar das horas. Ela pousou o queixo na mão fechada e ficou a olhar para ele como se os gestos fossem mármores trabalhados, macios debaixo do frio de todas as coisas de pedra. Ela tentou sorrir de volta como fazem as mulheres, tentou acreditar nuns lábios vermelhos que não trazia na bolsa. Ela é baixa como as coisas pequenas que enfeitam os sítios pequenos, pequenina e curva, ela caminha nas pontas dos pés para quase não tocar no chão para quase ser como uma coisa que se sopra e se aninha noutro canto qualquer. Mas ontem ela desejou ser enorme, fazer barulho ao andar, rir alto como os demónios e ter uma boca grande e escancarada que engolisse o homem e o guardasse quieto dentro do peito junto às outras coisas preciosas. O bonito homem na mesa nem a viu nem soube que ela dança, às vezes, quando algum homem lhe oferece a mão ou a palavra. Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver e ninguém viu.
1/06/2011
Minha querida, quando o pó sussurrava e mulheres sem tecto guardavam borboletas no cabelo, quando a tua mãe era jovem como as margaridas e no teu chão nos sentávamos todos em volta de um espaço vazio de um fogo imaginado, quando punhas flores no teu cabelo para que a primavera nunca desaparecesse, quando os homens eram peixes que traziam no seu próprio corpo o brilho de todas as lâmpadas de todos os charcos debaixo de lua cheia, lembro a tua casa onde nos escondíamos do passar das horas ouvíamos repetida sempre a mesma música esperando que se tornasse verdade, enfeitávamos os nossos rostos de restos de coisas de restos de viagens de paisagens de cheiros de sujo, minha querida lembro a tua casa como se hoje fosse muito velha e a tua casa qualquer coisa impossível que aconteceu há muito tempo, guardada entre uma pilha de cartas apertadas num laço de cetim. O que é triste é belo, dizia ele, o que é triste é belo e hoje sou com certeza muito bela. E lembro-te, dezanove anos, todos os animais se empilharam muito alto para roubar um pedacinho da lua e o peixe no lago pensou se não a veriam mesmo ali a boiar na água...
1/03/2011
1 de Janeiro, 2011
Na casa quieta ouço nos vizinhos de cima o virar das horas, feliz ano novo engulo as passas de um trago. Peço que desapareça a caixa do armário com o seu cotão tão gentil, peço que me perdoem que batam à minha porta com um ano passado nos braços que eu prometo não o esbofetear não chorar no seu corpo magoado.
Homem, há muito tempo que não sou mais que uma diva encarquilhada em fotografias velhas, eu pensei que caberias num cubículo mas fui eu quem minguou até não ser mais que um vestígio de olhos enxaguados. Silêncio, só silêncio... e esta música velha de quando o mundo mudava só por existirmos nele, arrogantes criaturas cheias de versos. Eu não sou arrogante, que lembro eu de como pássaro rima com piano, búzio com papagaio de papel. Eu eu eu que anedota eu que roubo dos outros os risos que sorvo deles o começar de uma nova dança, eu que engulo de um trago as passas sem nada desejar, que desejar, risada seca como um caroço, eu que nunca irei salvar o mundo nem sequer deixar nele um lume que permaneça até o mundo acabar.
12/21/2010
11/25/2010
Gonçalo
Estás tão quieto, aí na mesa entre o que te atarefa, eu olho para ti e levo tempo, demoro-me em ti. Partiremos... Partiremos em breve e esta mesa não será mais a nossa casa, colheres e chávenas de onde se desenha fumo e traços de café até à toalha, partiremos tão já a seguir quem nem terei tempo de olhar para ti e, naquele sorriso que se estica apenas no imaginar do meu rosto, saber que houve instantes em que, distraídos, pensámos as tardes iguais, agarrámos o copo com qualquer coisa mais entre os dedos, tivemos saudades nossas sem sequer saber o que isso é.
11/10/2010
11/09/2010
intervalo
Gosto de ver-te fumar, pelo vidro do alpendre, a mão esticada no ar o fumo fino como os teus dedos, o teu cabelo sem medo do vento. Encostas as costas no corrimão e fumas e eu fecho os olhos, gosto de ver-te fumar.
10/30/2010
Flash
O velhote vende línguas da sogra nos repuxos das rodas dos carros, entalado entre o alcatrão e o chapéu torto de chuva. Parece que faz sol nos olhos dele.
10/05/2010
O frio
Música com pássaros.
Quando o vento se impacienta lá fora e sacode para os meus ombros a cortina lembro-me das chávenas penduradas na cozinha todos os dias e de como de manhã os pardais se aventuravam nas migalhas do jantar. Fugiam ao ouvir-me, pesada de sapatos, pela janela amarela nunca fechada.
E a chuva lembra-me os peixes à porta da tua casa.
9/07/2010
feira da ladra
Longe quando caminhávamos juntas, subíamos ruas escorregadias de areia e carris, um pão uma pêra, montras fechadas de sapatos cheios de pó e aranhas adormecidas, os teus cabelos eram tão compridos e havia uma nódoa no meu vestido, o tempo não tinha tamanho nenhum. Longe quando coleccionávamos a vida dos outros, postais e grafonolas, e eu não sabia ser triste ou natural, eu e tu éramos uma extravagância, nada mais que isso.
Sonhamos as estradas nesta manhã parecida, eu sou silenciosa e agradeço as esmolas, tu chegas carregada dos mesmos sacos e de outra igual a ti. Sorrimos. Eu deixei cair uma nódoa na saia. E porque não...
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