Quarto frio. Candeeiro de pé alto, abat-jour grande, luz mole na manta de lã. Lá fora anoitece e esfria, as minhas mãos frias e a bossa nova. Hoje não quero escrever, hoje quero contar, tenho um quarto redondo feito de janelas onde o dia se apaga e a cidade se acende debaixo dos meus sapatos, muitas luzes em muitas escadas e janelas, a minha luz de pé alto junto à cabeceira da cama as minhas meias de casa, azuis com riscas vermelhas, o meu xaile que me encontrou e me pediu neve, um dia, há tanto tempo. A minha janela são muitas é um postal. As pernas no quente da manta, a caneca de leite bebido, os óculos o pijama, é quinta-feira quase de noite, silêncio, tanto silencio em casa a cozinha sem tilitar de colheres, conforto da casa só minha, sonhos de tigelas todas diferentes, novelos de lã pelo chão, gatos, choros trapos molas de roupa açúcar e farinha, música baixinho, hoje é quase assim, feliz dia quase-feliz, quieto e morno, um cantinho de janelas a minha casa o meu quente num quarto frio.
Paz que não sei descrever.