Tenho de pintar a janela, penso. O cão encosta-se no tapete muito sujo, consigo ver-lhe a boiar nos olhos uma lagrimita de saudade da mulher que partiu e que costumava mimar-lhe o corpo com mãos ternas. Eu sento-me direita na cadeira. Aperta-me a garganta uma maldade que não me conhecia. Quero livrar-me de tudo. Desejo-vos longe, a todos. A todos. Quero não vos conhecer nunca mais. Quero não vos ver a dançar quando apago a lâmpada do tecto, dançam nas sombras dos chapéus e das chávenas deixadas abandonadas na mesa e cada colher caída é uma mão vossa, uma mão pequenina vossa, cheia de pássaros de papel. Não vos quero ver, nunca mais. Não vos quero ver nunca mais, assim em peúgas e cabelos suados, sentados na cabeceira da minha cama enquanto adormeço. Não vos quero ver caminhar, não vos quero ver sapatear nas calçadas molhadas, devagar, a rir para mim, Carolina despacha-te, o comboio, não tires bilhete corre.
Arranco-vos da parede. Outros cabelos. As mãos pequeninas. Outras asas. Arranco as asas, e as rochas junto ao mar, os teus braços à minha volta dentro de água, o teu queixo metido com vergonha no meu pescoço, só mar à nossa volta, já nem te lembras e eu também não quero lembrar-me. Não quero lembrar-me de nada. Quero arrancar este pedaço como se arranca uma crosta do joelho, fica um buraco, um buraquinho, um sangue. Um botão vermelho. Um botão por cada dia. Acabaram-se-nos os dias, tu sabes não sabes?, desabotoo-vos da parede, digo-te até logo, até logo tu-tantos-nomes, consigo ver-me boiar nos olhos uma lagrimita de saudade do homem que partiu e que costumava mimar-me o corpo com mãos ternas, despreocupadas, vagabundas. És tu, sim, tu sabes... tu-tantos-nomes. Tu e os outros todos que eu sento como figurinhas de pau no meu parapeito, a vossa figura rígida que eu moldo, viro o vosso olhar para o meu corpo amolecido nesta cadeira, olhem para mim. Uma garrafa de vinho à minha frente. Uma não, duas. Não bebo, espero alguém para brindar comigo num copo gorduroso da cozinha, bebemos ao que vem aí e, com uma fisga, atiramos as figurinhas janela abaixo e eu desfaço-me numa gargalhada, uma gargalhada colossal! Desaparecem todos, ninguém saberá o que faço às escuras com a cara enterrada no colchão que se encharca. É que eu saber que estão aí é como um espinho de rosa encravado num qualquer lugar incómodo do corpo, vai furando mais a carne até ser parte dela, até não ser possível voltar a descobri-lo e arrancá-lo para sempre. É que eu saber que não estão aí encrava-se-me na garganta e faz-me engolir uma desilusão, um desamor...
Quando vos atirar lá para baixo pinto a janela. Para não encontrar, por acaso, nalguma manhã mais tranquila, alguma pegada vossa, empoada, bailarina, trocista.
(é que gosto tanto de vocês, é que estou em guerra só com as minhas memórias)