5/30/2007

Eu tinha saias eu tinha saias à roda eu tinha pés sem sapatos ou sapatinhos pretos brancos de pó eu tinha sedas que se misturavam com a minha pele e o meu suor quando dançava eu tinha cabelos que me cravavam a cara de preto quando estavam molhados eu tinha terra no corpo eu tinha acordeãos no corpo eu tinha noite no corpo e garrafas cheias de álcool puro que cheirava a jasmins e amêndoas eu tinha um saco para me esconder das estrelas quando o corpo morria eu tinha pés de gato em cada mão e sapatilhas de pontas nos dedos e podia andar de pernas para o ar e aguentar-me num fio estreito fio de navalha eu tinha cordas de estendal para tocar violino com voz de meias de renda rota e baton vermelho a desenhar aguarelas esborratadas na água que pingava eu tinha uma bengala onde enfiei um sapato roxo de verniz e meti o outro sapato roxo no meu pé e embrulhei-me num trapo e fui um herói de guerra em palco um dia, de cabelos longos a cravar a cara de navalhas e olhos como dois aquários vazios, sem lâmpadas partidas a lembrar candeeiros antigos por ali passados, poderia ser um herói, um homem, um bocadinho deus, um herói de saias e sem perna se a perna tivesse ficado lá escondida, a entranhar-se na terra, a fazer crescer qualquer coisa bela?...
Não sei se volto lá.

4/28/2007

paris je t'aime

Ele senta-se numa mesa de Paris e pede dois copos de vinho. Ela traz um lenço vermelho preso com um alfinete em volta do pescoço. Ele diz que a russa está grávida de três meses, nervosa, antes dos 30 é assim com o primeiro filho... Ela fala lá de casa, da cesta da roupa cheia dos calções de lycra do ciclista. Riem-se. Amanhã trarão o advogado.
Ela levanta-se sem acabar o vinho. Na porta pisca-lhe o olho e penteia os cabelos todos brancos com os dedos. Ele sorri, apoiado na bengala. Fica a vê-la desaparecer na rua, ela nunca tinha ido embora antes. Ele também não...

4/19/2007

Lá fora atiram-se cervejas vazias para dentro do vidrão.
Cá dentro atiro-me vazia para uma cama de lençóis de flanela cheios de penas de pássaros que nunca conheci, escorregam entre suspiros de almofada quando aterro a cabeça pesada. Cheira demasiado a mim o colchão, deixo-me suar os dias nele, quieta como um bichinho-de-conta enrolado, na minha cabeça toco concertina e escrevo fotografias que ninguém esquecerá, aperto um corpete e entro em palco com os saltos a roçar o chão, o chão agradece-me tocar-lhe a pele com mãos de mulher, amacia-se, arranha-me os pés para não me esquecer de voltar, escorrega-me nas pernas como uma nódoa de perfume caída de uma janela. Deixo-me suar nos lençois, dentro deles a rua é muito maior cheia de gente feita no alfaiate, assenta-me como uma luva.

Nada como a sala, eles gargalham e crescem-lhes os dentes mais aguçados, olhos vermelhos e dedos pegajosos cheios de fumo que nunca pára no cinzeiro, riem-se de mim, pensam que estou enrolada no lençol, falta-lhes serem uma luva para entrarem à medida na cidade que empilhei com as penas da almofada...

4/18/2007

por causa do teu nome

Deus morreu.
Costumava pensar que deus era qualquer coisa como uma almofada onde podia cair vezes sem conta, ou uma corda à janela onde pendurasse os olhos a secar, a pingar choros gordos, ou o vestido da miuda, que voa para trás quando ela corre para a frente.
Deus morreu... tens a certeza?

4/17/2007

Comprei a flor a uma velha de unhas pretas no mercado. Uma flor branca como uma saia de tule. Como a velha parecia uma bruxa entalei a flor na água de uma garrafa de plástico e meti-a debaixo de um candeeiro. Fico à espera que cresça, que dela saia algo maravilhoso, uma polgarzinha, de saia de tule...

3/06/2007

Vocês dançam. Têm dentro de vocês um rebento ainda muito pouco verde, ainda muito pouco rebento, um caroço preto de maçã cortado ao meio por uma faca quando dançam, tão branco no meio. Ainda nem são rebentos, vocês, são uns novelos uns tambores, um molho de papelinhos de carnaval atirados ao ar, parados em câmara lenta, de braços levantados, de bocas abertas, de olhos fechados... Quando caem fazem barulho, atiram-se ao chão, ou então deixam-se cair, carocinhos de maçã e só então serão rebentos, a crescer em tiras de espaço onde ainda não há nada, vão crescer, um pé para o ar , um braço para o ar, um grito para o ar. Crescem de pernas para o ar.

2/28/2007

Muita merda

Desejo sempre muita merda. Foi o que me ficou das nossas fotografias. Só isso. O resto, a velocidade com que trocávamos de roupa atrás dos panos para entrar de cara serena, a caixa das pinturas com batons amolecidos, o cheiro das toalhinhas de bebé para limpar a cara... já lá vai. Não me lembro, lembro-me de como era, não me lembro de como se sentia. Só às vezes a música, se quero à força sentir tudo outra vez salva-me a música a pôr lagos entre as pestanas. É mentira, é um bocadinho mentira, se está escuro e me deito no chão ouço a voz dele que desde logo loguinho me pareceu teatro em forma de gente, lindeza em forma de gente. E depois da voz dele vem o cheiro dos gelados de máquina, morango e baunilha, o muro, aquela alegria grande como um avião de papel que só voa um bocadinho, mas voou, de eu ter um gelado em hora de aula, tão longe da escola. E o tronco curvo da árvore onde nos sentávamos sem sapatos, o nevoeiro do mato, os pirilampos, nesse dia bebemos chá de camomila, o cheiro faz-me sempre sentir como se tivesse perdido qualquer coisa por ali. Olho para o chão, tiro do bolso os óculos, não vejo nada.
No dia a seguir já não encontro a mesma coisa. Parece-me demasiado maravilhoso para ser verdade, ponho a música só para confirmar, pirilampos o riachinho de molhar o dedo grande do pé os batons vermelhos a derreter o olhar sereno antes de atravessar o pano, as mãos que então eram capazes de passarinhar entre as tiras de luz amarela a fazer sombras nos ossos da cara...
Olha, muita merda, e pode ser que o resto ainda apareça.

2/15/2007

Aqui os comboios têm flores.
Sou uma menina não sou mais nada, sou uma menina sentada num comboio de papel e lápis na mão, maravilho-me com este lugarzinho feio, junto à plataforma há uma risca amarela, não podes passar o traço não podes passar o traço mas eu escorrego sempre para o lado de lá numa gula de entrar primeiro, um dia destes caio na linha e atropela-me uma carruagem de flores a correr. Sou só uma menina, entendes? Queria ter já velhice para contar que às vezes vejo um velho sentado num banco de metal da estação e penso que à frente dos olhos dele deve passar um filme diferente, anos a preto e branco em que os prédios e as mulheres pretas de vestidos garridos com bebés atados às costas ainda não tinham chegado a fazer deste lugar um pedaço de uma terra muito longe, que imagino cheirar a lápis de cera castanhos e vermelhos e amarelos e... vento cheio de areia. Um dia destes morre, sozinho, e não deixa mais ninguém ver esta linha de comboio no tempo em que as mulheres tinham cabelos diferentes e mandavam para a escola miudos de suspensórios. Aquele velho que só por ser velho é um aquário onde boiam coisas que nunca vi e que vejo com ele sentado ali. Como se compreende um velho sem nunca ter sido velho também? Acho que lhe dou cor a mais às memórias, sou só uma menina a pintar livros de desenhos...
Deixo-me ficar sentada com o frio a mordiscar-me o pescoço, não me apetece voltar para casa, apetece-me qualquer coisa extraordinária, tento ser uma mulher grande, uma mulher alta, uma mulher bela, uma mulher velha com coisas demais para contar, aqui os comboios têm flores, flores ou letras de spray, e entrar no comboio é como entrar dentro da minha cabeça, lá dentro tanta gente bancos verdes mulheres a ler revistas homens baixinhos com o nó da gravata torto mulheres que fumam cigarros onde ficam lábios vermelhos marcados o revisor cansado de andar sempre na mesma linha e ninguém que lhe dê um sorriso para picar com o bilhete... tanta coisa e cá fora... quando saio esqueço-me do que ia a dizer.

2/08/2007

Hoje está a chover

Chove, e a chuva traz fotografias velhas a boiar até mim, o som dos pneus na chuva lembra-me a escola e aqui nunca mais choveu na escola, chove sempre na rua...

1/24/2007

poema com um só verso gigante

A varanda dá para a beira da estrada. Às vezes sentamos lá uma cadeirinha baixa de madeira e cortamos os nossos cabelos com uma tesoura de papel, voam como pedaços de alcatifa até ao vidro do carro que vai lá em baixo, "que folha estranha de árvore..." deve pensar o homem ao volante, olha para cima e só vê duas flores, uma que cresce em cima de uma cadeira, a outra ergue-se ao lado. As duas de pétalas muito bem aparadas, a reluzir contra a janela...

1/21/2007

mulherzinha

As mulheres não dormem enquanto eles não vêm para a cama, inquietam-se na almofada que o cabelo vai aquecendo e transpiram das bochechas para a flanela, deixam os lençóis mornos até eles chegarem, quando a porta abre levantam a cabeça para confirmar se trazem todos os botões da camisa e depois escondem-se num sono mudo de cara mascarada de bochechas coradas, não se mexem mas enfiam-se nos cantos deles, entre as dobras do pijama.
Am mulheres têm unhas que são conchas bem polidas, brancas, têm pés que se mexem a dançar entre secadores de cabelo e molas de roupa, em saltos altos envernizados e vestidos justos, em lençóis desmanchados até encontrarem outro par de pés, mais frios e toscos...
As mulheres espreitam montras mas não vêem vestidos, vêem estórias de príncipes e princesas, elas as princesas de cabelos mais longos, mãos mais brancas, lábios mais... As mulheres pasam horas a sonhar, fazem fantoches com o pano do pó, fazem amor só com dois braços em volta do teu pescoço, mais nada, só assim, só abraçar...

1/15/2007















As magnólias em coimbra...
Ainda não, mas daqui a pouco. Estas são do ano passado...

1/14/2007

quero ser uma velhota de chapéu com rosas vermelhas!

Às vezes quando toda a gente já foi dormir apetece-me esgueirar-me até ao armário das bebidas e esvaziar o vidro. E depois escrever, ver o que jorraria da caneta se eu estivesse assim, de mãos tão trapeças e olhar tão aguçado.
Às vezes à noite quando já toda a gente está a dormir solto o cabelo sobre o pijama e vejo-me. E sou bonita. Tenho as costas fininhas como uma fita de cetim laranja, tenho os pés pequenos, tenho a cara corada como uma fotografia, fico a ver maravilhada como o meu cabelo ja toca as costas, as costas como uma fita de cetim ansiosa por apertar o cabelo num laço aconchegado...
Quando à noite já toda a gente está a dormir tenho medo de ir também, toco sempre um CD qualquer para não adormecer sem uma estória, um bocadinho de medo de amanhã ter ficado mais velha (já pareço ele a falar...), por dentro, acho eu, carregada da minha tralha de todos os meus anos, dezanove, tralha que não volta a brilhar da mesma maneira, lustres sem lâmpadas, sabes? Grafonolas que caem ao chão em duas metades, uma barulheira, eu sei que tu sabes... É tudo tão bonito, quando há muito tempo escolhemos pela primeira vez os ténis de marca, quando cheirámos pela primeira vez o ar da meia-noite, tão bonitas as primeiras vezes e esta tristezazinha de haver tantas primeiras vezes que já passaram. Aquele olhar que merece ser escrito no caderninho em branco, olhar sabe-se lá de quê mas no fundo sabe-se, sabe-se, tão no fundo que o escrevemos para olhar pare ele como se lhe passássemos ao lado na rua, olhamos melhor, mais atentos como se olha para uma puta encostada na esquina como quem lhe quer saber a vida. Para olhar para ele quando for preciso lembrar que afinal passámos por ali. Às vezes sonho com uma plateia de cadeiras vermelhas...
Mas volto ao cabelo solto, aos óculos vermelhos, às costas finas de cetim, ao pijama com um buraco debaixo do braço, às pantufas já tortas do uso. Continuo a usar vestidos e sapatos de fivela durante o dia, deambulo com os livros às costas e um chocolate no bolso (imagino que é o bolso do bibe) e sento-me num banco de jardim, abano os joelhos porque as pernas já não conseguem, agora os pés já chegam ao chão. À noite sou uma mulherzinha de cabelos ao ombro.
SEm tristezas, sem tristezas. Um riso maroto de quem sabe o que fez...

1/11/2007

11:15 da manhã

Esta é a música dos anjos. E um poemário. Tento escrever de manhã mas parece que o escuro é mais confortável para deixar sair as ideias, um pouco loucas como fumo bem-cheiroso e chato de fogueira, sim, ouço a música dos anjos porque já me ia esquecendo que existia, fui esquecendo devagarinho que há anjos, que há brinquedos, que há livros de poemas que há jardins (embora as magnólias teimem em crescer, pequeninas e loucas de gola branca, lá fora do outro lado da estrada, entram pela janela do refeitório dentro e eu tenho de vê-las, não faz mal digo-me que são como os desenhos de deus, não significam nada ninguém sabe como ele é, ninguém sabe como é uma flor por dentro,pode ser uma criança pode ser um berlinde de vidro verde que se rompe por aquele risco colorido que tem no meio, só um estúpido desenho...)... Não esqueço nada, é só de vez em quando para fingir que a cadeira me chega, é manhã bem cedo e as flores empurram dentro de mim com uma força ridícula, sei que elas estão lá fora, sei que posso ir vê-las, sei que posso imprimi-las em papel, sei que há livros tantos livros e parapeitos com sol para lê-los, sei que há brinquedos e começa a crescer-me uma gula de saltar pela porta e ir engolir tudo, ir engolir os dezoito graus de hoje, hoje que é inverno, ir engolir o cheiro dos autocarros e o cheiro da sopa da cantina as vozes dos erasmus, mas esta preguiça nas pernas e na pele, preguiça de sentir frio, preguiça de ver que há anjos, há anjos de botas amarelas e barrigas grávidas... mas aqui para este lado já só há a música, música de anjos. E claro as flores, os livros, os autocarros isso tudo...

12/31/2006

isto porque às vezes também não escrevias muitas vezes

Fiquem sabendo que ontem vos esperei até tarde, roí as unhas e entrancei o cabelo, acendi um cigarro e deixei o cinzeiro fumá-lo e mastiguei aquelas pelezinhas dos dedos convencida que haviam de chegar, logo ontem que estava decidida a não me deitar, a ver o sol nascer com o nariz espetado numa vela de eucalipto (para se parecer mais com as noites no mato) e um olho no ecrã... e nada! Nem tu com os teus textos malucos a horas que eu costumo não conseguir ver, desta vez estava decidida a esperar...
Acabei por desistir, vim sentar-me na beira da cama mais cedo mais cedo que o amanhecer, roí mais as unhas e escarafunchei as lágrimas, tão bonitos os ténis de pano no chão e no espelho, ainda com a terra da última vez e o vestido caido no chão sem um corpo lá dentro, cor-de-rosa...

12/14/2006

venho do cinema

Num instante conhecem-se as ruas todas. Ouço os meus sapatos no chão, saltitam as falhas das pedras mas não hesitam, sei o caminho, um bocadinho mais espaçado o som do chapéu de chuva comprado há umas horas, o som dos sapatos mais rápido e entre ele, como uma palma fora do tempo, o som do chapéu de chuva comprado há umas horas de plástico transparente para se alguém me cumprimentar de alguma janela eu conseguir ver, conseguir ver se alguma andorinha voltar agora a fugir às outras todas para sentir o frio nas penas brancas da barriga mesmo que morra logo depois. É inverno, ainda não mas para mim já é, enrosco o lenço no pescoço dentro das golas do casaco e desço a rua, passam dois pretos por mim junto ao muro da prisão e riem-se, tremo de frio mas sei qual das três ruas lá ao fundo é a minha, venho do cinema e vou adormecer num quarto redondo, ligo o computador para escrever do meu primeiro fim-de-semana e descubro que sou boa com a espátula das obras a pôr vidrinhos nas janelas, no quarto ao lado vêem um filme francês, na janela ao lado uma velhota deve dormir com a luz apagada num pano de renda, na rua passa o último bêbado, o último de hoje e eu ouço leonard cohen. Ele está lá em cima. Eu estou calma.

12/11/2006

O beijo

Estudo e à minha frente tenho um poster do beijo. O beijo. Klimt.
Será que fico assim tão dourada, assim tão colorida, tão ondulada como se não tivesse ossos e as minhas pernas cedessem como se nadasse entre fios de algas num rio lento, com os olhos assim tão fechados tão levezinho, assim tão misturada com o dourado de alguém... quando alguém me agarra no queixo para me dar um beijo?...

12/10/2006

japão, século IX

"Agora, sentindo o cheiro
das laranjeiras
que esperam até junho para florir,
recordo o perfume das mangas
de alguém há muito tempo"

11/06/2006

carta ao buscardini

Há muito muito tempo era eu uma criança que brincava alegremente no jardim...Isso foi há muito tempo. Agora sofro de saudade crónica de coisas que nunca mais hão-de ser minhas, a não ser nas fotografias e num brilhozinho ocasional de olhos enquanto arrumo bilhetes de comboio antigos (sei-os a todos de cor, em que dia sairam a crepitar da máquina para me levarem na mais inacreditável viagem) na portinha branca da mesa de cabeceira. Cabem lá todos, cada um com o seu diazinho impresso, entalados entre os laços de embrulho e recortes de vestidos que sonhava meus para o baile de finalistas. Cheios de brilhantes e cetins, as meninas são tão tontas nestas coisas!... Saudade crónica de sair da cantina com a roupa a cheirar a guisado e correr para a janelinha da casinha de chá contigo, tu pedias um néctar e eu insistia para te afogares em chá, chá de cheirinhos a amêndoa e baunilha, mas depois esqueciamo-nos disso tudo e tagarelávamos, acho que até houve um dia em que levei os meus sapatos de verniz amarelos, estava a chover um bocadinho, sintra tinha aquele cheirinho a água de inverno e a nevoeiro, um cheirinho que sei de cor quando o vejo chegar e que até com os olhos fechados consigo apanhar entre os dedos, cheiro a frio como quando fomos à floresta encantada, cheiro a frio como quando ouvimos antony pela primeira vez no parque da pena, cheiro a frio de quando os ensaios acabavam à noitinha... Porque raio é que te escrevo isto é que não sei. Estou a escrever-te a ti porque tenho saudades crónicas de ti, e ainda não me escreveste um mail em francês. Onde andas? Vou vendo toda a gente, uns mais que outros, mas a ti nunca te encontro, da ultima vez rimos de umas tonterias e disseste que eu parecia mais crescida. (acho que crescer é perceber que não muda grande coisa... só nos tornamos mais sozinhos, acho eu.) Quando é que vamos beber chá outra vez? Eu levo os meus sapatos amarelos e se chover e tudo como dantes, até o cheirinho a água do ar... Afogamos as mágoas, não as de agora mas as de antes que eram mais pequeninas, as de agora não cabem numa chávena de chá. Vamos? Convida-me para dançar em francês, debaixo do lustre e com uma grafonola, naquela altura não sabíamos ainda o que eram as saudades e como é bom voltar ao salão de baile. Agora crescemos, e já percebemos... Anda, convida-me...

10/24/2006

eu sou um bonequinho corda

Bonequinho de corda na prateleira... Os meninos admiram-lhe os pom-pons na gola do vestido, os sapatinhos de verniz, o sorrisinho de louça vermelho... Têm os dedos medrosos, como se o bonequinho se importasse que lhe rodassem a manivela debaixo da saia. Depois... Ah! O bonequinho tem voz de caixinha de música! Tin tin tin tintin!... Música que tem umas mãos tranquilas a aconchegar-lhes os cobertores à noite, a pentear-lhe os cabelos... Vasculham a carteira, "não importa quanto, não importa quanto senhora-da-loja, quero levá-lo, vou levá-lo não importa quanto!" . Levam-no na mão, não deixaram embrulhar o bonequinho em papel, é tão bonito! Não querem despentear-lhe o cabelo. Ficará em cima da mesa de cabeceira, para cantar antes de adormecerem, para sorrir antes de os meninos adormecerem. Um dia, dois dias, dois anos... Parte-se. Não importa, não importa. Hoje os meninos querem gomas. Qualquer coisa que se coma! Já não vão em cantigas...