7/18/2009

Song of Childhood

When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.

When the child was a child,
it didn’t know that it was a child,
everything was soulful,
and all souls were one.

When the child was a child,
it had no opinion about anything,
had no habits,
it often sat cross-legged,
took off running,
had a cowlick in its hair,
and made no faces when photographed.

When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?

When the child was a child,
It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
and on steamed cauliflower,
and eats all of those now, and not just because it has to.

When the child was a child,
it awoke once in a strange bed,
and now does so again and again.
Many people, then, seemed beautiful,
and now only a few do, by sheer luck.

It had visualized a clear image of Paradise,
and now can at most guess,
could not conceive of nothingness,
and shudders today at the thought.

When the child was a child,
It played with enthusiasm,
and, now, has just as much excitement as then,
but only when it concerns its work.

When the child was a child,
It was enough for it to eat an apple, … bread,
And so it is even now.

When the child was a child,
Berries filled its hand as only berries do,
and do even now,
Fresh walnuts made its tongue raw,
and do even now,
it had, on every mountaintop,
the longing for a higher mountain yet,
and in every city,
the longing for an even greater city,
and that is still so,
It reached for cherries in topmost branches of trees
with an elation it still has today,
has a shyness in front of strangers,
and has that even now.
It awaited the first snow,
And waits that way even now.

When the child was a child,
It threw a stick like a lance against a tree,
And it quivers there still today.

7/15/2009

A vida é certamente bela.
A vida é certamente muito bela. Vejo-o.
Cada mendigo é belo como aquário abandonado ao musgo e às sementes.
Cada jarro de louça é belo como o silêncio das coisas que existem há muito tempo quietas num armário branco.
Cada pano de renda, ensopa-se de ar, fino como um brinquedo de pó, é belo, tão belo...
A louça suja, abandonada ao sol e ao tremor dos guardanapos amachucados, é bela como uma multidão barulhenta que molha o pés no mar.
A vida é certamente muito bela.
Vejo-o hoje.

7/08/2009

7/07/2009

Ser pequena agarra-se a mim como um laço do vestido, segue-me, espreita-me por cima do ombro. Passos mais pequenos. Mãos mais cheias de rebuçados, um buraquinho nas meias ninguém vê... Eu tenho uma fotografia das minhas costas. As minhas costas ossudas entre botões desapertados. As minhas costas cheias de sombras e sulcos de costelas, encaracoladas numa vergonha de lençóis. Lembro-me... Era assustada como um bambu. Segurava a chávena numa concha de mãos que fervia. E a manhã era o meu dia inteiro.
Eu sabia-me. Sabia-me bem. As minhas costas nunca foram ossudas. Eram naquela fotografia. Eu era ossuda, assustada como um bambu...
Tu brincas com as minhas costas, as minhas costas cheias de sombras, são só papel agora, fotografia transformada em avião de folha que lanças sem medo de perder.

6/26/2009

O meu corpo é um lugar estranho.

Enfeito-me com folhos e flores, pinto-me olhos e bochechas, calço sapatos altos da minha mãe. A minha mãe há-de sempre calçar sapatos maiores que eu e o meu pé há-de escorregar neles até caber só num cantinho de atacadores. A minha mãe há-de ter sempre brincos e anéis numa caixa de madeira para eu encher os meus dedos de brincar, a minha mãe há-de sempre assustar todos os monstros debaixo da cama. Um dia a minha cara será antiga como a da minha mãe mas eu hei-de ser sempre infinitamente pequena e ela há-de infinitamente cuidar de mim e passar-me a mão no cabelo quando eu cair e esfolar os joelhos, um dia juntarei e minha mão à dela, sobre a dela, e serão igualmente carcomidas e manchadas de rascunhar a vida, mas a minha mão caberá sempre dentro da dela, enrolada, da mesma forma que cabia há muito tempo, quando ainda não era eu para mim e era apenas eu para ela.

O meu corpo esmigalhar-se-á.
Mas há um lugar onde serei sempre intacta.

mapa

Conheço a minha casa numa linha estreita. A minha casa é um carril que vai de Coimbra até abaixo, até ao mar. Sei como os eucaliptos e as casas pintadas de azulejo se tornam campos de arroz, cheios de nuvens a boiar neles, e como os campos de arroz se tornam ovelhas embrulhadas em lã, quentes debaixo do sol, lentas, e milho alto, verde, não amarelo, e trigo que brinca no vento como um cardume de peixes. E como o campo desaparece em janelas, tantas janelas altas janelas baixas, estradas, candeeiros acesos à noite que enchem as janelas de olhinhos abertos, olhinhos amarelos de gato. E como as janelas se vão abeirando do chão até sobrar só a minha janela do comboio cheia de terra ondulada, seca, onde imagino umbigos… e árvores, corcundas, antigas, a guardar ar mais fresco…

6/20/2009

Deixo caramelizar o choro no cabelo e apanho do chão os destroços de asas, pássaros de seda, a minha voz escorrida ao teu ouvido.
Nele, ela via poucos anos, brincadeiras de berlindes, mãos sujas de areia, urtigas, bichinhos-de-conta. Ela pintou-se para ele. Ela sabia que mascarar-se acabaria assim, o som de uma fivela, uma colher para dois, um botão descosido na blusa.
Antes, quando dançava em pontas de pés... foi há muito tempo. Como se nunca.
Afiar facas na minha pele. Anda. Eu deixo-te.

6/03/2009

À noite é quando fica frio. Fica quieto. Sobra a roupa na cesta e a outra estendida, nariz a pingar, adormecida na corda à espera da manhã. Os livros amontoam-se na mesinha pequena sem olhos a contar as páginas.
À noite fica ela. Ela alinha as chávenas que o dia inteiro foi perdendo na mesa, amacia as unhas com uma lima de cartão, descasca amendoins para uma folha de papel escrita e sobre o escrito riscada. Ela pensa no dia em que a cama ficou pequena para as suas pernas e passaram sorrir-lhe ou a chorar quando falava, a demorar-se à porta de casa quando falava. Ela pensa no dia em que se sentou no comboio e tocou pela primeira vez no chão com a ponta do sapato. Nunca antes tinha chegado com os pés ao fundo do banco... Nesse dia tinha uma roupa feia, uns sapatos de corda e uma camisa branca, e o pé caiu-lhe ao chão distraído. Nessa noite dobrou bem o corpo para caber na cama.
À noite ela deixou de escrever. Ela tem um lápis preto com que há muito tempo pintava os olhos de manhã, e à noite ela escreve-se uma cara antiga, ela lembra-se de quando aprendeu a andar com os pés no chão, as bochechas a testa atiraram-se também, numa paciência de linhas fundas, pele abaixo. À noite ela pinta-se, risca todas as linhas que antes não estavam lá para não se esquecer como era quando os seus olhos assentavam em quase nada. Quase nada.

6/01/2009

casa

Cada momento é um previlégio. Ser um monstro ou um beijo na cara. Arranhar-vos, envelhecer-vos, desdenhar-vos, vocês apanham do chão cacos das vossas mãos acolhedoras eu atiro-vos pedras e pontilho-vos o vidro dos olhos, nem por um momento duvidam da flor dentro de mim, do balão colorido que vos sopra asas quando me agarram os tornozelos, nem por um momento o prato desapareceu da mesa nem por um momento desejaram a noite mais longa para sonharem outra que não eu. Nem por um momento as minhas pedras foram mais rudes que espuma branca e vocês aplaudiram de pé a minha magia, a minha magia de aconchegar-vos com alfinetes o corpo.

5/24/2009

professores

Sou de lágrima fácil.
Escrevi um abraço apertado a todos os que um dia me ensinaram na escola, bichos letras números, e devagarinho chegam-me as respostas, abraços apertados saídos de um tempo há muito tempo a lembrarem-me coisas que não esqueço. Era uma vez professores que sabiam o nosso nome, o som dos nossos sapatos a nossa letra num monte de folhas. E lá se pendura no meu olho a lágrima fácil...
A noite acaba, os carros acendem-se e aceleram, os olhos não são mais uma pintura minuciosa, agora apenas rascunhos para uma outra vez, amanhã. A noite acaba para mim, o palco ficou só dela e ela é uma caninha em pontas de pés, ela dança em volta da mesa de olhos fechados e parece encontrar as esquinas onde o corpo ficaria negro, foge delas, roda, balouça as mãos cavalo marinho, ri... Eu largo-me numa cadeira vermelha, luzes um bocadinho sombra mas eles encontram-se sempre rodam batem um no outro fundem-se levam-se um no outro para casa, escondidos no bolso, um puxará o outro como um lencinho bordado e junta-lo-à ao rosto, na almofada. A noite acaba para mim, aconchego-me no casaco, as pernas açoitadas de música o vestido molhado de calor, fui louca hoje, abandonei-me à sofreguidão de serpentear nas fitas de luz rosa para me ver quase voar, a água espalha-se o bolo esfarela-se nas tábuas e os pés devoram todos os farrapos e dançam mais, mais, mais e enlouquecem e sapateiam sozinhos, sem corpo, sem a minha cabeça que os sentaria quietos em pantufas de lã, a minha cabeça mãe cansada e impaciente de silêncio e sono sossegado...
Os pássaros cantam. O céu ainda escuro mas eles sabem, eles sabem, em breve será manhã. Os pássaros cantam-me boa noite, boa noite...

5/23/2009

abat-jour

Ponho o chapéu. Um chapéu macio de homem, um chapéu de côco preto, um chapéu descaído sobre o cabelo sujo e fino, tapa-me as sobrancelhas e as pestanas, tapa-me o que vou fazer-te a seguir, não adivinhas... as minhas meias abandonam-me a meio das pernas e a saia está vazia...
Roubo-te o som que fazes quando libertas o perfume dos meus tornozelos, quando descobres o precipício das minhas meias.
Gosto de vestidos que deslizam pelas costas pela cintura pelas mãos, escorregadios, ásperos, pesados, vestidos que caem aos meus pés a correr quando decido sussurrar-te junto ao pescoço o que não adivinhas.

5/09/2009

pirilampos

Às vezes preciso de abrir as gavetas. Tirar tudo para fora, montar o castelo de cartas que no fim hei-de soprar de volta ao chão, e outra vez esquecer. Mas às vezes preciso de abrir as gavetas, calçar sapatilhas de ballet pequeninas e saias de tule com peixes que já foram de verdade e rodar pelo quarto espartilhada numa pele que sufoque o meu corpo crescido e desgracioso. Matar bichos velhos que sobreviveram a todas as vezes que tentei cortar-lhes a cabeça com a maldade de uma criança curiosa armada de mãos sem lembrança. Tiro tudo para fora com a paciência meiga de um embalo, apalpo os envelopes para confirmar que continuam todos lá dentro, a dormir nos vincos do papel, reconheço os ganchos de cabelo e os lenços desengomados, e prometo que os acordarei quando for hora. Mas ainda não... Faço-os prisioneiros das minhas sombras enquanto me tremerem os joelhos com medo do escuro.
Serão os meus pirilampos.

5/06/2009

Hoje não escrevo nada, lanço só palavras como se lançam dados de olhos fechados à espera de sorte, já larguei as pernas e os braços e a cabeça na cama, os sons lembram-me gente diferente noutra ponta do quarto noutra ponta da cidade noutra ponta do mundo.
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.

Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...

5/03/2009

Coimbra, queima das fitas 2009

A capa preta significa que vou encontrá-las à porta, à minha espera de sorriso bem aprumado, impacientes com a minha demora e com a minha gravata torta. É o dia em que as guitarras farão alguém encolher o corpo e fechar os olhos doídos, atrás deles corre a fita de um filme rápido tão rápido, já passou, o primeiro dia em que chegámos com as malas cheias de agasalhos e papéis e migalhas de um tempo que então era o passado, as guitarras não eram mais que uma hora curiosa de pestanas diluidas que nunca chegaria para nós e que ouvíamos distraidas de sorrisos. Quando os meus olhos se apertarem com medo de abrir-se e o último acorde tiver parado de vibrar no chão vê-las-ei à minha porta, de sorriso bem aprumado e impacientes com a minha demora e a minha gravata torta, verei as costas orgulhosas de capa comprida, verei os sapatos altos atirados sem querer contra a parede enquanto cozinhávamos descalças e bebíamos vinho barato, as mãos contidas, medo que o carinho voasse de repente dos dedos, cansado de se esconder sempre nos sorrisos bem aprumados e na impaciencia das gravatas tortas.

4/28/2009

É diferente. Há o que se sente entre a roupa, aninhado entre as lãs e o linho do corpo, junto à pele como um hálito quente e aguçado que arranha as costas, que contorce as pernas e os dedos das mãos e que entreabre os lábios como uma fresta por onde se escuta um segredo só de ar.
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.

4/27/2009

O amor, pela Rita

Dás por ti a ter saudades de algo que nunca foi...

"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."

"Your skin is something that i'd stir into my tea"

4/25/2009

Ouço o piano, o vento lá fora não magoa os telhados nem as chaminés, nada mexe, a camisa de noite ficou pendurada, quieta, na cadeira. Apodera-se de mim uma lânguidez, um arrepiar de pele silencioso, talvez agora nenhum pássaro bata asas para voar, flutue apenas...

4/16/2009

Caminha, caminha, caminha sem direcção como se o teu corpo fosse apenas memória de liberdade, liberdade que rebenta as cores do segredo pintado, tanta coisa por dizer, caminhas, caminhas sem direcção, electro, e também petróleo, e até de pé, de pé e caminhas tu, o mistério, o mistério esse, como diz a canção, será que o persegues, há brisa de verão agora e tu? Terás o mistério? Tanto por dizer, por dizer um tanto mais, caminha, caminha, caminha sem direcção, caminha sem direcção, tanto por dizer e tu, e tu caminhas, caminhas sem direcção, a luz mistura-se, é luz ou não-luz, a luz mistura-se e passas, sim, sereno, passas tanto, passas tanto, tu caminhas, caminhas sem direcção, passas tanto, passas tanto, caminha, caminha sem direcção, passas tanto, e tu, tu na gaiola...


Suburbia Playtime, Maio 2005