12/18/2007

pedaços

A roupa saída do estendal em Coimbra cheira a frio e detergente. Cheira mais a frio. Acho que cheira a frio que fica nas minhas mãos frias quando apertam a roupa na corda. Fica a agitar ao vento, às estrelas, ao frio...


Um homem do campo vem à cidade. Vê-se que é do campo, tem terra nas unhas e muita roupa para assustar o frio, roupa pequena tricotada pela mulher. Um homem do campo vem à cidade e anda de autocarro. Olha pela janela e repara: nêsperas num quintal, um bom portão, pinhas grandes para o fogo.


Beijar uns lábios novos. Explica-me como é. Vou ter frio nas costas?...

11/09/2007

segunda porta à direita

Quando tinhas o cabelo grande eu tinha um casaco vermelho a perder a cor ao pé das costuras. Tinha uns sapatinhos vermelhos para dançar na praia, com uma mancha de alcatrão esfarelado. Tinha o cabelo cheio de terra e olhos pequeninos de sono, e os lábios tão sem dizer nada de quem via nascer o sol pela primeira vez, com as núvens a engolirem-me vindas do mar. Tinha os dedos apertados por outros dedos que não tinha apertado nunca, tinha todo o corpo caído no chão enquanto falavas de gente que se levanta e sabe voar, voar e cortar as sombras como luvas brancas, pés como gatos pequenos entre chávenas de colecção.
Quando tens o cabelo rasteiro como caruma eu tenho um sofá azul, um sofá azul e uma garrafa verde numa mesa, falamos baixo e às vezes rimos, vamos pintando os lábios sem espelho até serem quase doentes, até serem quase azuis e o sol nascer neles, nascer neles e um de nós se levantar para ir sacudir a luz das mangas e poder ir para a cama às escuras, levantamo-nos e cortamos as sombras, como luvas brancas, até se ouvir a porta a fechar e a porcelana das chávenas tilitar de frio...

10/29/2007

noobai

Ainda falta para o teatro. Olho para ti pelo vidro do copo. Estás distraido a ver os candeeiros na água, a pensar quantos homens irão cair ao rio com as próprias mãos a empurrar-lhes as costas. Num buraquinho do chão está um girassol de pano que estremece como um candeeiro no rio, um candeeiro na água a bater os dentes de frio.
Queria colar-te no olho da máquina, girá-la devagarinho nas pontas dos dedos, esperar até a luz do candeeiro se voltar para acender palhinhas nas tuas mãos e aí carregar no botão, deixar-te ficar preso, preso assim distraído a escrever mais ou menos poemas dentro da cabeça, poemas sobre a água irrequieta, sobre os telhados cheios de musgo, sobre as janelas que se acendem ainda que já se faça tarde...

Nesse dia voltámos para casa já era dia, num taxi molengão...

10/25/2007

Hei-de embrenhar-me na noite, já daqui a pouco, embrenhar-me até não saber mais de mim, até ser uma garrafa verde ou um cão preto que abre portas com um uivo, a andar sozinho a ver as pessoas passar, a olhar para elas com o focinho torto para a direita, a continuar a andar com o rabo entre as pernas, não saber de nada não saber de mim, encolher os ombros e esquecer como tudo é tão lindamente triste. Um homem de jardineiras vermelhas e careca no topo da cabeça anda no meio das mesas do café e oferece caricaturas... Quero ser um cão preto de nariz torto para a direita e passar com o rabo entre as pernas, não saber de dizer que não, não saber falar lígua de homens, ser um cão preto que abre portas com um uivo e adormece enroscado no tapete a sonhar com ossos, não sentir rios embrutecidos a querer romper-me as pálpebras, não ter de embrenhar-me na noite, a noite acaba sempre com o céu a azular-se, sempre, e eu aguento os olhos para ver tudo e então deixo sair os rios e os peixes e os seixinhos polidos por tanta água e adormeço enroscada no tapete...

10/04/2007

La Phare

A música aperta-me o pescoço com cinco dedos bem esticados, grita aos meus ouvidos, só aos meus ouvidos, o resto da casa dorme ou ainda não chegou a casa, é uma valsa em bicos de pés e eu danço num quadradinho de chão com um domador de leões, sinto-lhe o veludo vermelho do casaco a descoser-se, o cheiro do cabelo sinto a areia a entrar nos sapatos para dentro das meias para entre os dedos, danço com um palhaço já sem tinta, danço com uma mala cheia de penas que me vestem de pomba quando numa roda se abre ao meio e se derrama no chão, é uma valsa em bicos de pés dançada com outra mulher, só outra mulher saberia rodar assim abraçada a mim, uma mulher com braços de homem com força para me segurar as costas, para me fechar os olhos, uma mulher com cabelo a cheirar a domador e leões com ombros de veludo largos para cravar as unhas para enterrar o queixo enquanto a música se põe mais em bicos de pés, tenho a cara pintada de branco como um mimo não preciso de pés para dançar, não preciso de música, invento tudo e alguém me aperta contra os botões do casaco e rodo rodo rodo o meu corpo pede dançar, pede desfazer-se em água, água cheia de música de regar jacintos e poças onde pássaros de papel vão beber...

8/25/2007

Ele sabia assobiar como todos os pássaros. Um jeitinho dos lábios para ser cotovia, outro jeitinho e voava-lhe um pintassilgo. Depois ria-se. Um riso cheio de rugas, cheio de vergonha de ter aquelas roupas de velho no seu riso de miúdo, há tanto tempo com aquelas pernas que não se podia esperar que não tivessem já uns buraquinhos comidos pelas traças, não é?...
Hoje, com um jeitinho de lábios deve ser vento a bater nas asas de passarinhos a sério. Como os outros todos, naquele lugar onde os homens vão caindo aos poucos, achamo-los velhos mas é só o casaco, só o casaco demasiado cheio de nódoas negras, nós não conseguimos ver-lhes o corpo mas eles sabem que, com um jeitinho de lábios, se assobiarem ainda podem ser pássaros...


7/05/2007




O nosso ano foi um quarto redondo, um quarto redondo onde adormeciam quatro pés...

5/30/2007

Eu tinha saias eu tinha saias à roda eu tinha pés sem sapatos ou sapatinhos pretos brancos de pó eu tinha sedas que se misturavam com a minha pele e o meu suor quando dançava eu tinha cabelos que me cravavam a cara de preto quando estavam molhados eu tinha terra no corpo eu tinha acordeãos no corpo eu tinha noite no corpo e garrafas cheias de álcool puro que cheirava a jasmins e amêndoas eu tinha um saco para me esconder das estrelas quando o corpo morria eu tinha pés de gato em cada mão e sapatilhas de pontas nos dedos e podia andar de pernas para o ar e aguentar-me num fio estreito fio de navalha eu tinha cordas de estendal para tocar violino com voz de meias de renda rota e baton vermelho a desenhar aguarelas esborratadas na água que pingava eu tinha uma bengala onde enfiei um sapato roxo de verniz e meti o outro sapato roxo no meu pé e embrulhei-me num trapo e fui um herói de guerra em palco um dia, de cabelos longos a cravar a cara de navalhas e olhos como dois aquários vazios, sem lâmpadas partidas a lembrar candeeiros antigos por ali passados, poderia ser um herói, um homem, um bocadinho deus, um herói de saias e sem perna se a perna tivesse ficado lá escondida, a entranhar-se na terra, a fazer crescer qualquer coisa bela?...
Não sei se volto lá.

4/28/2007

paris je t'aime

Ele senta-se numa mesa de Paris e pede dois copos de vinho. Ela traz um lenço vermelho preso com um alfinete em volta do pescoço. Ele diz que a russa está grávida de três meses, nervosa, antes dos 30 é assim com o primeiro filho... Ela fala lá de casa, da cesta da roupa cheia dos calções de lycra do ciclista. Riem-se. Amanhã trarão o advogado.
Ela levanta-se sem acabar o vinho. Na porta pisca-lhe o olho e penteia os cabelos todos brancos com os dedos. Ele sorri, apoiado na bengala. Fica a vê-la desaparecer na rua, ela nunca tinha ido embora antes. Ele também não...

4/19/2007

Lá fora atiram-se cervejas vazias para dentro do vidrão.
Cá dentro atiro-me vazia para uma cama de lençóis de flanela cheios de penas de pássaros que nunca conheci, escorregam entre suspiros de almofada quando aterro a cabeça pesada. Cheira demasiado a mim o colchão, deixo-me suar os dias nele, quieta como um bichinho-de-conta enrolado, na minha cabeça toco concertina e escrevo fotografias que ninguém esquecerá, aperto um corpete e entro em palco com os saltos a roçar o chão, o chão agradece-me tocar-lhe a pele com mãos de mulher, amacia-se, arranha-me os pés para não me esquecer de voltar, escorrega-me nas pernas como uma nódoa de perfume caída de uma janela. Deixo-me suar nos lençois, dentro deles a rua é muito maior cheia de gente feita no alfaiate, assenta-me como uma luva.

Nada como a sala, eles gargalham e crescem-lhes os dentes mais aguçados, olhos vermelhos e dedos pegajosos cheios de fumo que nunca pára no cinzeiro, riem-se de mim, pensam que estou enrolada no lençol, falta-lhes serem uma luva para entrarem à medida na cidade que empilhei com as penas da almofada...

4/18/2007

por causa do teu nome

Deus morreu.
Costumava pensar que deus era qualquer coisa como uma almofada onde podia cair vezes sem conta, ou uma corda à janela onde pendurasse os olhos a secar, a pingar choros gordos, ou o vestido da miuda, que voa para trás quando ela corre para a frente.
Deus morreu... tens a certeza?

4/17/2007

Comprei a flor a uma velha de unhas pretas no mercado. Uma flor branca como uma saia de tule. Como a velha parecia uma bruxa entalei a flor na água de uma garrafa de plástico e meti-a debaixo de um candeeiro. Fico à espera que cresça, que dela saia algo maravilhoso, uma polgarzinha, de saia de tule...

3/06/2007

Vocês dançam. Têm dentro de vocês um rebento ainda muito pouco verde, ainda muito pouco rebento, um caroço preto de maçã cortado ao meio por uma faca quando dançam, tão branco no meio. Ainda nem são rebentos, vocês, são uns novelos uns tambores, um molho de papelinhos de carnaval atirados ao ar, parados em câmara lenta, de braços levantados, de bocas abertas, de olhos fechados... Quando caem fazem barulho, atiram-se ao chão, ou então deixam-se cair, carocinhos de maçã e só então serão rebentos, a crescer em tiras de espaço onde ainda não há nada, vão crescer, um pé para o ar , um braço para o ar, um grito para o ar. Crescem de pernas para o ar.

2/28/2007

Muita merda

Desejo sempre muita merda. Foi o que me ficou das nossas fotografias. Só isso. O resto, a velocidade com que trocávamos de roupa atrás dos panos para entrar de cara serena, a caixa das pinturas com batons amolecidos, o cheiro das toalhinhas de bebé para limpar a cara... já lá vai. Não me lembro, lembro-me de como era, não me lembro de como se sentia. Só às vezes a música, se quero à força sentir tudo outra vez salva-me a música a pôr lagos entre as pestanas. É mentira, é um bocadinho mentira, se está escuro e me deito no chão ouço a voz dele que desde logo loguinho me pareceu teatro em forma de gente, lindeza em forma de gente. E depois da voz dele vem o cheiro dos gelados de máquina, morango e baunilha, o muro, aquela alegria grande como um avião de papel que só voa um bocadinho, mas voou, de eu ter um gelado em hora de aula, tão longe da escola. E o tronco curvo da árvore onde nos sentávamos sem sapatos, o nevoeiro do mato, os pirilampos, nesse dia bebemos chá de camomila, o cheiro faz-me sempre sentir como se tivesse perdido qualquer coisa por ali. Olho para o chão, tiro do bolso os óculos, não vejo nada.
No dia a seguir já não encontro a mesma coisa. Parece-me demasiado maravilhoso para ser verdade, ponho a música só para confirmar, pirilampos o riachinho de molhar o dedo grande do pé os batons vermelhos a derreter o olhar sereno antes de atravessar o pano, as mãos que então eram capazes de passarinhar entre as tiras de luz amarela a fazer sombras nos ossos da cara...
Olha, muita merda, e pode ser que o resto ainda apareça.

2/15/2007

Aqui os comboios têm flores.
Sou uma menina não sou mais nada, sou uma menina sentada num comboio de papel e lápis na mão, maravilho-me com este lugarzinho feio, junto à plataforma há uma risca amarela, não podes passar o traço não podes passar o traço mas eu escorrego sempre para o lado de lá numa gula de entrar primeiro, um dia destes caio na linha e atropela-me uma carruagem de flores a correr. Sou só uma menina, entendes? Queria ter já velhice para contar que às vezes vejo um velho sentado num banco de metal da estação e penso que à frente dos olhos dele deve passar um filme diferente, anos a preto e branco em que os prédios e as mulheres pretas de vestidos garridos com bebés atados às costas ainda não tinham chegado a fazer deste lugar um pedaço de uma terra muito longe, que imagino cheirar a lápis de cera castanhos e vermelhos e amarelos e... vento cheio de areia. Um dia destes morre, sozinho, e não deixa mais ninguém ver esta linha de comboio no tempo em que as mulheres tinham cabelos diferentes e mandavam para a escola miudos de suspensórios. Aquele velho que só por ser velho é um aquário onde boiam coisas que nunca vi e que vejo com ele sentado ali. Como se compreende um velho sem nunca ter sido velho também? Acho que lhe dou cor a mais às memórias, sou só uma menina a pintar livros de desenhos...
Deixo-me ficar sentada com o frio a mordiscar-me o pescoço, não me apetece voltar para casa, apetece-me qualquer coisa extraordinária, tento ser uma mulher grande, uma mulher alta, uma mulher bela, uma mulher velha com coisas demais para contar, aqui os comboios têm flores, flores ou letras de spray, e entrar no comboio é como entrar dentro da minha cabeça, lá dentro tanta gente bancos verdes mulheres a ler revistas homens baixinhos com o nó da gravata torto mulheres que fumam cigarros onde ficam lábios vermelhos marcados o revisor cansado de andar sempre na mesma linha e ninguém que lhe dê um sorriso para picar com o bilhete... tanta coisa e cá fora... quando saio esqueço-me do que ia a dizer.

2/08/2007

Hoje está a chover

Chove, e a chuva traz fotografias velhas a boiar até mim, o som dos pneus na chuva lembra-me a escola e aqui nunca mais choveu na escola, chove sempre na rua...

1/24/2007

poema com um só verso gigante

A varanda dá para a beira da estrada. Às vezes sentamos lá uma cadeirinha baixa de madeira e cortamos os nossos cabelos com uma tesoura de papel, voam como pedaços de alcatifa até ao vidro do carro que vai lá em baixo, "que folha estranha de árvore..." deve pensar o homem ao volante, olha para cima e só vê duas flores, uma que cresce em cima de uma cadeira, a outra ergue-se ao lado. As duas de pétalas muito bem aparadas, a reluzir contra a janela...

1/21/2007

mulherzinha

As mulheres não dormem enquanto eles não vêm para a cama, inquietam-se na almofada que o cabelo vai aquecendo e transpiram das bochechas para a flanela, deixam os lençóis mornos até eles chegarem, quando a porta abre levantam a cabeça para confirmar se trazem todos os botões da camisa e depois escondem-se num sono mudo de cara mascarada de bochechas coradas, não se mexem mas enfiam-se nos cantos deles, entre as dobras do pijama.
Am mulheres têm unhas que são conchas bem polidas, brancas, têm pés que se mexem a dançar entre secadores de cabelo e molas de roupa, em saltos altos envernizados e vestidos justos, em lençóis desmanchados até encontrarem outro par de pés, mais frios e toscos...
As mulheres espreitam montras mas não vêem vestidos, vêem estórias de príncipes e princesas, elas as princesas de cabelos mais longos, mãos mais brancas, lábios mais... As mulheres pasam horas a sonhar, fazem fantoches com o pano do pó, fazem amor só com dois braços em volta do teu pescoço, mais nada, só assim, só abraçar...

1/15/2007















As magnólias em coimbra...
Ainda não, mas daqui a pouco. Estas são do ano passado...

1/14/2007

quero ser uma velhota de chapéu com rosas vermelhas!

Às vezes quando toda a gente já foi dormir apetece-me esgueirar-me até ao armário das bebidas e esvaziar o vidro. E depois escrever, ver o que jorraria da caneta se eu estivesse assim, de mãos tão trapeças e olhar tão aguçado.
Às vezes à noite quando já toda a gente está a dormir solto o cabelo sobre o pijama e vejo-me. E sou bonita. Tenho as costas fininhas como uma fita de cetim laranja, tenho os pés pequenos, tenho a cara corada como uma fotografia, fico a ver maravilhada como o meu cabelo ja toca as costas, as costas como uma fita de cetim ansiosa por apertar o cabelo num laço aconchegado...
Quando à noite já toda a gente está a dormir tenho medo de ir também, toco sempre um CD qualquer para não adormecer sem uma estória, um bocadinho de medo de amanhã ter ficado mais velha (já pareço ele a falar...), por dentro, acho eu, carregada da minha tralha de todos os meus anos, dezanove, tralha que não volta a brilhar da mesma maneira, lustres sem lâmpadas, sabes? Grafonolas que caem ao chão em duas metades, uma barulheira, eu sei que tu sabes... É tudo tão bonito, quando há muito tempo escolhemos pela primeira vez os ténis de marca, quando cheirámos pela primeira vez o ar da meia-noite, tão bonitas as primeiras vezes e esta tristezazinha de haver tantas primeiras vezes que já passaram. Aquele olhar que merece ser escrito no caderninho em branco, olhar sabe-se lá de quê mas no fundo sabe-se, sabe-se, tão no fundo que o escrevemos para olhar pare ele como se lhe passássemos ao lado na rua, olhamos melhor, mais atentos como se olha para uma puta encostada na esquina como quem lhe quer saber a vida. Para olhar para ele quando for preciso lembrar que afinal passámos por ali. Às vezes sonho com uma plateia de cadeiras vermelhas...
Mas volto ao cabelo solto, aos óculos vermelhos, às costas finas de cetim, ao pijama com um buraco debaixo do braço, às pantufas já tortas do uso. Continuo a usar vestidos e sapatos de fivela durante o dia, deambulo com os livros às costas e um chocolate no bolso (imagino que é o bolso do bibe) e sento-me num banco de jardim, abano os joelhos porque as pernas já não conseguem, agora os pés já chegam ao chão. À noite sou uma mulherzinha de cabelos ao ombro.
SEm tristezas, sem tristezas. Um riso maroto de quem sabe o que fez...