6/18/2008
Pedem-me que chore para a última fotografia e desfaz-se a blusa recortada em cartolina azul, um lago de tinta no meio do lençol.
1/16/2008
há cinco anos
Aos 15 anos quis ser grande. E ser grande eram umas calças aos quadrados e uns sapatos de camurça com atacadores… e andar sozinha quando chovia, e acabar a tarde numa casinha de chá, mesa para duas pessoas na varanda pequenina, chá de jasmim com flores a boiar e vapor.
Aos 15 anos era grande. Acordava num parapeito ao pé do mar e ouvia os pardais, ouvia as ondas, ouvia a panela cheia de aveia e maçã, ouvia a viola dela, ouvia Jorge Palma e Bach, ouvia folhas de papel de poemas grandes de poetas grandes. Acordava e a casa não era minha, era dela e do mar, portanto eu era grande, 15 anos que não interessavam mas só aquele dia, só aquela manhã, só aquela manhã eram os outros anos todos que eu precisava...
1/13/2008
teatro
Shakespeare chegou e eu estava de pijama.
Não faz mal. Ele vinha em papel...
Era uma vez um lugar com chão de madeira e pó em pedaços, cadeiras vazias, paredes pretas com circulos de lâmpadas, e não fazia mal se eu estivesse de pijama, Shakespeare chegava sempre e para ele eu tinha o cabelo ondulado a cair nos ombros, pestanas compridas e lábios vermelhos. E saltos altos, e gravata, podia ser mulher ou podia ser principe de uma ilha com deuses de flores e sal. Podia tentar...
Ele senta-se à minha frente e ri-se de mim. Eu sei, eu sei que não era sobre mim, nenhuma letra era sobre mim... Naquele tempo não haviam mulheres, haviam corpos de vestidos longos onde o vento se perdia a fazer saias de balão, corpos de cabelos longos onde o vento se amainava a romper flores amarelas, corpos de pés pequenos onde o vento se enterrava para florir em jasmins. Corpos que dormiam só com a pele, com as unhas, com um respirar baixinho... Ele ri-se da minha voz que não sabe cantar, o que ele escreveu era sobre uma criança de quinze anos e ela nunca teria a minha voz se alguma vez lesse como ele a desenhou no papel...
Shakespeare chegou e riu-se e eu gaguejei, atrapalhada.
1/04/2008
12/18/2007
pedaços
A roupa saída do estendal em Coimbra cheira a frio e detergente. Cheira mais a frio. Acho que cheira a frio que fica nas minhas mãos frias quando apertam a roupa na corda. Fica a agitar ao vento, às estrelas, ao frio...
11/09/2007
segunda porta à direita
Quando tinhas o cabelo grande eu tinha um casaco vermelho a perder a cor ao pé das costuras. Tinha uns sapatinhos vermelhos para dançar na praia, com uma mancha de alcatrão esfarelado. Tinha o cabelo cheio de terra e olhos pequeninos de sono, e os lábios tão sem dizer nada de quem via nascer o sol pela primeira vez, com as núvens a engolirem-me vindas do mar. Tinha os dedos apertados por outros dedos que não tinha apertado nunca, tinha todo o corpo caído no chão enquanto falavas de gente que se levanta e sabe voar, voar e cortar as sombras como luvas brancas, pés como gatos pequenos entre chávenas de colecção.
Quando tens o cabelo rasteiro como caruma eu tenho um sofá azul, um sofá azul e uma garrafa verde numa mesa, falamos baixo e às vezes rimos, vamos pintando os lábios sem espelho até serem quase doentes, até serem quase azuis e o sol nascer neles, nascer neles e um de nós se levantar para ir sacudir a luz das mangas e poder ir para a cama às escuras, levantamo-nos e cortamos as sombras, como luvas brancas, até se ouvir a porta a fechar e a porcelana das chávenas tilitar de frio...
10/29/2007
noobai
Nesse dia voltámos para casa já era dia, num taxi molengão...
10/25/2007
10/04/2007
La Phare
8/25/2007
5/30/2007
4/28/2007
paris je t'aime
4/19/2007
Cá dentro atiro-me vazia para uma cama de lençóis de flanela cheios de penas de pássaros que nunca conheci, escorregam entre suspiros de almofada quando aterro a cabeça pesada. Cheira demasiado a mim o colchão, deixo-me suar os dias nele, quieta como um bichinho-de-conta enrolado, na minha cabeça toco concertina e escrevo fotografias que ninguém esquecerá, aperto um corpete e entro em palco com os saltos a roçar o chão, o chão agradece-me tocar-lhe a pele com mãos de mulher, amacia-se, arranha-me os pés para não me esquecer de voltar, escorrega-me nas pernas como uma nódoa de perfume caída de uma janela. Deixo-me suar nos lençois, dentro deles a rua é muito maior cheia de gente feita no alfaiate, assenta-me como uma luva.
Nada como a sala, eles gargalham e crescem-lhes os dentes mais aguçados, olhos vermelhos e dedos pegajosos cheios de fumo que nunca pára no cinzeiro, riem-se de mim, pensam que estou enrolada no lençol, falta-lhes serem uma luva para entrarem à medida na cidade que empilhei com as penas da almofada...
4/18/2007
por causa do teu nome
Costumava pensar que deus era qualquer coisa como uma almofada onde podia cair vezes sem conta, ou uma corda à janela onde pendurasse os olhos a secar, a pingar choros gordos, ou o vestido da miuda, que voa para trás quando ela corre para a frente.
Deus morreu... tens a certeza?
4/17/2007
3/06/2007
2/28/2007
Muita merda
No dia a seguir já não encontro a mesma coisa. Parece-me demasiado maravilhoso para ser verdade, ponho a música só para confirmar, pirilampos o riachinho de molhar o dedo grande do pé os batons vermelhos a derreter o olhar sereno antes de atravessar o pano, as mãos que então eram capazes de passarinhar entre as tiras de luz amarela a fazer sombras nos ossos da cara...
Olha, muita merda, e pode ser que o resto ainda apareça.
2/15/2007
Sou uma menina não sou mais nada, sou uma menina sentada num comboio de papel e lápis na mão, maravilho-me com este lugarzinho feio, junto à plataforma há uma risca amarela, não podes passar o traço não podes passar o traço mas eu escorrego sempre para o lado de lá numa gula de entrar primeiro, um dia destes caio na linha e atropela-me uma carruagem de flores a correr. Sou só uma menina, entendes? Queria ter já velhice para contar que às vezes vejo um velho sentado num banco de metal da estação e penso que à frente dos olhos dele deve passar um filme diferente, anos a preto e branco em que os prédios e as mulheres pretas de vestidos garridos com bebés atados às costas ainda não tinham chegado a fazer deste lugar um pedaço de uma terra muito longe, que imagino cheirar a lápis de cera castanhos e vermelhos e amarelos e... vento cheio de areia. Um dia destes morre, sozinho, e não deixa mais ninguém ver esta linha de comboio no tempo em que as mulheres tinham cabelos diferentes e mandavam para a escola miudos de suspensórios. Aquele velho que só por ser velho é um aquário onde boiam coisas que nunca vi e que vejo com ele sentado ali. Como se compreende um velho sem nunca ter sido velho também? Acho que lhe dou cor a mais às memórias, sou só uma menina a pintar livros de desenhos...