Serão os meus pirilampos.
5/09/2009
pirilampos
Serão os meus pirilampos.
5/06/2009
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.
Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...
5/03/2009
Coimbra, queima das fitas 2009
4/28/2009
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.
4/27/2009
O amor, pela Rita
"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."
"Your skin is something that i'd stir into my tea"
4/25/2009
4/19/2009
4/16/2009
Suburbia Playtime, Maio 2005
4/13/2009
valsa de monstros
4/12/2009
páscoa
4/06/2009
Quando me deito já todos dormem às escuras.
A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.
Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.
Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…
Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.
3/31/2009
3/30/2009
rituais
Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.
3/27/2009
escrevo-te a ti
pensatempos
O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.
3/17/2009
Aceito o desafio: o que me faz feliz
O sol no inverno, os primeiros dias de sol. Sento-me na beira da estrada do hospital antes de entrar para a aula e deixo o sol amolecer-me a agilidade. Enterro a cabeça nos joelhos e deixo queimar as costas por baixo da roupa de lã, e adormeço numa terça-feira, feira da ladra, qualquer.
Ir ao supermercado, fim de tarde, escolher com minúcia tudo o que gosto: Iogurte natural, bolachas de canela, broa de milho, amêndoas com casca, pimento vermelho, chocolates Regina.
Vestir a roupa de trabalho.
Sentir o cabelo crescer até um dia a franja não precisar mais de gancho.
Deixar a bicicleta descer a estrada sem pedalar, fazer curvas, com medo, deixar a neve cair na língua, chegar a casa com a boina cheiinha de branco. Ou abraçar-te as costas enquanto nos pedalas, aos dois, numa bicicleta só.
Camisas de linho bordadas. Saias que rodam quando danço. Sapatos que deixam sentir o chão.
Um quadradinho de chocolate que não devia comer.
Lembrar-me. Voltar.
O meu jardim e as minhas socas vermelhas. Lavar as flores, aparar-lhes o cabelo...
Quando o meu corpo cabe sem defeito no corpo de alguém.
Dançar. Ou imaginar que danço, quando ouço músicas velhas...
Chegar a uma cidade que nunca vi e imaginar-lhe varandas, azulejos, pedintes, livrarias a cheirar a pó, montras cheias de chapéus.
3/16/2009
3/10/2009
O velho
A 10 de Março de 2009
Folha branca. 1 hora.Bata branca. Bata branca. Bata branca. 3 horas.
Folha branca sobre mesmo assunto que a bata branca. 1 hora.
Empadão de atum. 20 minutos.
Bata branca e homem enfezado. 30 minutos.
Bata branca e mulher com um furo. 1 hora.
Bata branca e sorrisinhos para o professor, tentativa de suturar uma esponja. 30 minutos.
Filme. 2 horas. Ahhhhhhhhhhhhhh...
Tomates cherry com parmesão. 5 minutinhos.
Sopa da mãe. O tempo que demorou a soprar a fervura de cada colher.
E o sol lá fora!...
3/07/2009
2/26/2009
walking with the bike
2/25/2009
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.
apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.
adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...
2/24/2009
2/10/2009
Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.
2/05/2009
1/31/2009
A boleia
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...
O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...
1/30/2009
o reclame
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.
1/27/2009
1/24/2009
dançar...
1/21/2009
1/20/2009
1/15/2009
caril
Quando cozinho as minhas mãos cheiram a índias e aipos cortados, e a lume. Quando cozinho as minhas mãos cheiram a vozes em volta da mesa, cheiram a crianças aconchegadas à noite na cama, cheiram a um copo de vinho contigo antes de a manhã chegar. Quando cozinho aproximo as mãos das narinas e inspiro o aconchego da comida, e sei-me velha junto à minha pedra, com a cebola e o azeite alinhados, e aproximo as minhas mãos do teu rosto e tu sabes que sou eu, cheiras o aconchego em mim.
Hoje cozinhei para ti.
1/14/2009
o belo e a monstra
1/09/2009
Mas se esperar, hei-de fazer-te chá quando ficares doente, hei-de sentar-me na cama até que adormeças e hei-de tirar-te as dores do corpo, e hei-de encontrar flores no inverno, para ti. Porque te amo.
1/08/2009
1/07/2009
EXTRAVAGÂNCIAS
Não saio sem escolher bem os sapatos, têm de ser os sapatos perfeitos, bem vincados e com atacadores, um bocadinho sujos, um bocadinho tortos da idade, um bocadinho idiotas. Não podem ser uns sapatos tirados do cesto ao acaso, não, têm de ser cuidadosamente feios e fora de moda, cuidadosamente fora de prazo para os olhos, cuidadosamente deliciosos, para, quando cruzar a perna no sofá do café com o meu livro aberto e a caneta empinada a riscar página atrás de página, o rapaz barbudo e com óculinhos redondos, que aproveitou das velharias do pai, olhar para mim uns segundos e pensar quem será aquela que lê tão quieta, com uns sapatos tão estudiosamente extravagantes...
1/05/2009
für dich
1/02/2009
Vou fechar os olhos e deixar o novo ano chegar. Ver como é. Não espero nada. De manhã lavo o cabelo e ponho as botas do costume e a mala às costas e nem me lembro que é janeiro, hei-de continuar a não ter para quem escrever tenho é este buraco dentro, que nem é preto é só um buraco como se este ano não tivesse sido meu, um buraco que quero espalhar por uma pilha de folhas de papel mas não consigo porque este ano não foi meu, não sei o que dizer. Como se tivesse a boca presa com adesivo, chove agora, chove muito mas há sol e os vidros ficam pingados e as casas de lisboa têm jardins na parte de trás e escadas musguentas e se me despir no quarto todos podem ver-me por isso desço a cortina antes de mudar de sapatos, não quero que me vejam os dedos dos pés, são um segredo bem guardado, não quero que saibas por onde andei, não quero que vejas que ontem não dormi em casa, ias agarrar-me nos pés e lamber o resto de chá que bebi em segredo numa rua de casas podres e depois havias de cuspi-lo e deixar-me sozinha na cama e eu não quero dormir sozinha, fica comigo mesmo que não consiga lembrar-me das noites, nem da tua cara, e acordo e passo dias a devorar-te as expressões e o cabelo e o teu cheiro e nunca me lembro, não consigo ver-te e não me lembro do que me disseste ontem antes de fechar os olhos. Não sei como te conheci, sei que me enlouqueceste e que fugi de casa contigo, prometi-me uma varanda cheia de vasos e as tuas mãos a cortar-me o bife à mesa, prometi-me os teus olhos sempre cheios de açúcar e cachos de uvas para a sobremesa e agora não gosto do escuro porque me esqueço de ti assim que as luzes se apagam. Minto. Gosto do escuro porque não tenho de viver contigo…
