7/18/2009

Song of Childhood

When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.

When the child was a child,
it didn’t know that it was a child,
everything was soulful,
and all souls were one.

When the child was a child,
it had no opinion about anything,
had no habits,
it often sat cross-legged,
took off running,
had a cowlick in its hair,
and made no faces when photographed.

When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?

When the child was a child,
It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
and on steamed cauliflower,
and eats all of those now, and not just because it has to.

When the child was a child,
it awoke once in a strange bed,
and now does so again and again.
Many people, then, seemed beautiful,
and now only a few do, by sheer luck.

It had visualized a clear image of Paradise,
and now can at most guess,
could not conceive of nothingness,
and shudders today at the thought.

When the child was a child,
It played with enthusiasm,
and, now, has just as much excitement as then,
but only when it concerns its work.

When the child was a child,
It was enough for it to eat an apple, … bread,
And so it is even now.

When the child was a child,
Berries filled its hand as only berries do,
and do even now,
Fresh walnuts made its tongue raw,
and do even now,
it had, on every mountaintop,
the longing for a higher mountain yet,
and in every city,
the longing for an even greater city,
and that is still so,
It reached for cherries in topmost branches of trees
with an elation it still has today,
has a shyness in front of strangers,
and has that even now.
It awaited the first snow,
And waits that way even now.

When the child was a child,
It threw a stick like a lance against a tree,
And it quivers there still today.

7/15/2009

A vida é certamente bela.
A vida é certamente muito bela. Vejo-o.
Cada mendigo é belo como aquário abandonado ao musgo e às sementes.
Cada jarro de louça é belo como o silêncio das coisas que existem há muito tempo quietas num armário branco.
Cada pano de renda, ensopa-se de ar, fino como um brinquedo de pó, é belo, tão belo...
A louça suja, abandonada ao sol e ao tremor dos guardanapos amachucados, é bela como uma multidão barulhenta que molha o pés no mar.
A vida é certamente muito bela.
Vejo-o hoje.

7/08/2009

7/07/2009

Ser pequena agarra-se a mim como um laço do vestido, segue-me, espreita-me por cima do ombro. Passos mais pequenos. Mãos mais cheias de rebuçados, um buraquinho nas meias ninguém vê... Eu tenho uma fotografia das minhas costas. As minhas costas ossudas entre botões desapertados. As minhas costas cheias de sombras e sulcos de costelas, encaracoladas numa vergonha de lençóis. Lembro-me... Era assustada como um bambu. Segurava a chávena numa concha de mãos que fervia. E a manhã era o meu dia inteiro.
Eu sabia-me. Sabia-me bem. As minhas costas nunca foram ossudas. Eram naquela fotografia. Eu era ossuda, assustada como um bambu...
Tu brincas com as minhas costas, as minhas costas cheias de sombras, são só papel agora, fotografia transformada em avião de folha que lanças sem medo de perder.

6/26/2009

O meu corpo é um lugar estranho.

Enfeito-me com folhos e flores, pinto-me olhos e bochechas, calço sapatos altos da minha mãe. A minha mãe há-de sempre calçar sapatos maiores que eu e o meu pé há-de escorregar neles até caber só num cantinho de atacadores. A minha mãe há-de ter sempre brincos e anéis numa caixa de madeira para eu encher os meus dedos de brincar, a minha mãe há-de sempre assustar todos os monstros debaixo da cama. Um dia a minha cara será antiga como a da minha mãe mas eu hei-de ser sempre infinitamente pequena e ela há-de infinitamente cuidar de mim e passar-me a mão no cabelo quando eu cair e esfolar os joelhos, um dia juntarei e minha mão à dela, sobre a dela, e serão igualmente carcomidas e manchadas de rascunhar a vida, mas a minha mão caberá sempre dentro da dela, enrolada, da mesma forma que cabia há muito tempo, quando ainda não era eu para mim e era apenas eu para ela.

O meu corpo esmigalhar-se-á.
Mas há um lugar onde serei sempre intacta.

mapa

Conheço a minha casa numa linha estreita. A minha casa é um carril que vai de Coimbra até abaixo, até ao mar. Sei como os eucaliptos e as casas pintadas de azulejo se tornam campos de arroz, cheios de nuvens a boiar neles, e como os campos de arroz se tornam ovelhas embrulhadas em lã, quentes debaixo do sol, lentas, e milho alto, verde, não amarelo, e trigo que brinca no vento como um cardume de peixes. E como o campo desaparece em janelas, tantas janelas altas janelas baixas, estradas, candeeiros acesos à noite que enchem as janelas de olhinhos abertos, olhinhos amarelos de gato. E como as janelas se vão abeirando do chão até sobrar só a minha janela do comboio cheia de terra ondulada, seca, onde imagino umbigos… e árvores, corcundas, antigas, a guardar ar mais fresco…

6/20/2009

Deixo caramelizar o choro no cabelo e apanho do chão os destroços de asas, pássaros de seda, a minha voz escorrida ao teu ouvido.
Nele, ela via poucos anos, brincadeiras de berlindes, mãos sujas de areia, urtigas, bichinhos-de-conta. Ela pintou-se para ele. Ela sabia que mascarar-se acabaria assim, o som de uma fivela, uma colher para dois, um botão descosido na blusa.
Antes, quando dançava em pontas de pés... foi há muito tempo. Como se nunca.
Afiar facas na minha pele. Anda. Eu deixo-te.

6/03/2009

À noite é quando fica frio. Fica quieto. Sobra a roupa na cesta e a outra estendida, nariz a pingar, adormecida na corda à espera da manhã. Os livros amontoam-se na mesinha pequena sem olhos a contar as páginas.
À noite fica ela. Ela alinha as chávenas que o dia inteiro foi perdendo na mesa, amacia as unhas com uma lima de cartão, descasca amendoins para uma folha de papel escrita e sobre o escrito riscada. Ela pensa no dia em que a cama ficou pequena para as suas pernas e passaram sorrir-lhe ou a chorar quando falava, a demorar-se à porta de casa quando falava. Ela pensa no dia em que se sentou no comboio e tocou pela primeira vez no chão com a ponta do sapato. Nunca antes tinha chegado com os pés ao fundo do banco... Nesse dia tinha uma roupa feia, uns sapatos de corda e uma camisa branca, e o pé caiu-lhe ao chão distraído. Nessa noite dobrou bem o corpo para caber na cama.
À noite ela deixou de escrever. Ela tem um lápis preto com que há muito tempo pintava os olhos de manhã, e à noite ela escreve-se uma cara antiga, ela lembra-se de quando aprendeu a andar com os pés no chão, as bochechas a testa atiraram-se também, numa paciência de linhas fundas, pele abaixo. À noite ela pinta-se, risca todas as linhas que antes não estavam lá para não se esquecer como era quando os seus olhos assentavam em quase nada. Quase nada.

6/01/2009

casa

Cada momento é um previlégio. Ser um monstro ou um beijo na cara. Arranhar-vos, envelhecer-vos, desdenhar-vos, vocês apanham do chão cacos das vossas mãos acolhedoras eu atiro-vos pedras e pontilho-vos o vidro dos olhos, nem por um momento duvidam da flor dentro de mim, do balão colorido que vos sopra asas quando me agarram os tornozelos, nem por um momento o prato desapareceu da mesa nem por um momento desejaram a noite mais longa para sonharem outra que não eu. Nem por um momento as minhas pedras foram mais rudes que espuma branca e vocês aplaudiram de pé a minha magia, a minha magia de aconchegar-vos com alfinetes o corpo.

5/24/2009

professores

Sou de lágrima fácil.
Escrevi um abraço apertado a todos os que um dia me ensinaram na escola, bichos letras números, e devagarinho chegam-me as respostas, abraços apertados saídos de um tempo há muito tempo a lembrarem-me coisas que não esqueço. Era uma vez professores que sabiam o nosso nome, o som dos nossos sapatos a nossa letra num monte de folhas. E lá se pendura no meu olho a lágrima fácil...
A noite acaba, os carros acendem-se e aceleram, os olhos não são mais uma pintura minuciosa, agora apenas rascunhos para uma outra vez, amanhã. A noite acaba para mim, o palco ficou só dela e ela é uma caninha em pontas de pés, ela dança em volta da mesa de olhos fechados e parece encontrar as esquinas onde o corpo ficaria negro, foge delas, roda, balouça as mãos cavalo marinho, ri... Eu largo-me numa cadeira vermelha, luzes um bocadinho sombra mas eles encontram-se sempre rodam batem um no outro fundem-se levam-se um no outro para casa, escondidos no bolso, um puxará o outro como um lencinho bordado e junta-lo-à ao rosto, na almofada. A noite acaba para mim, aconchego-me no casaco, as pernas açoitadas de música o vestido molhado de calor, fui louca hoje, abandonei-me à sofreguidão de serpentear nas fitas de luz rosa para me ver quase voar, a água espalha-se o bolo esfarela-se nas tábuas e os pés devoram todos os farrapos e dançam mais, mais, mais e enlouquecem e sapateiam sozinhos, sem corpo, sem a minha cabeça que os sentaria quietos em pantufas de lã, a minha cabeça mãe cansada e impaciente de silêncio e sono sossegado...
Os pássaros cantam. O céu ainda escuro mas eles sabem, eles sabem, em breve será manhã. Os pássaros cantam-me boa noite, boa noite...

5/23/2009

abat-jour

Ponho o chapéu. Um chapéu macio de homem, um chapéu de côco preto, um chapéu descaído sobre o cabelo sujo e fino, tapa-me as sobrancelhas e as pestanas, tapa-me o que vou fazer-te a seguir, não adivinhas... as minhas meias abandonam-me a meio das pernas e a saia está vazia...
Roubo-te o som que fazes quando libertas o perfume dos meus tornozelos, quando descobres o precipício das minhas meias.
Gosto de vestidos que deslizam pelas costas pela cintura pelas mãos, escorregadios, ásperos, pesados, vestidos que caem aos meus pés a correr quando decido sussurrar-te junto ao pescoço o que não adivinhas.

5/09/2009

pirilampos

Às vezes preciso de abrir as gavetas. Tirar tudo para fora, montar o castelo de cartas que no fim hei-de soprar de volta ao chão, e outra vez esquecer. Mas às vezes preciso de abrir as gavetas, calçar sapatilhas de ballet pequeninas e saias de tule com peixes que já foram de verdade e rodar pelo quarto espartilhada numa pele que sufoque o meu corpo crescido e desgracioso. Matar bichos velhos que sobreviveram a todas as vezes que tentei cortar-lhes a cabeça com a maldade de uma criança curiosa armada de mãos sem lembrança. Tiro tudo para fora com a paciência meiga de um embalo, apalpo os envelopes para confirmar que continuam todos lá dentro, a dormir nos vincos do papel, reconheço os ganchos de cabelo e os lenços desengomados, e prometo que os acordarei quando for hora. Mas ainda não... Faço-os prisioneiros das minhas sombras enquanto me tremerem os joelhos com medo do escuro.
Serão os meus pirilampos.

5/06/2009

Hoje não escrevo nada, lanço só palavras como se lançam dados de olhos fechados à espera de sorte, já larguei as pernas e os braços e a cabeça na cama, os sons lembram-me gente diferente noutra ponta do quarto noutra ponta da cidade noutra ponta do mundo.
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.

Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...

5/03/2009

Coimbra, queima das fitas 2009

A capa preta significa que vou encontrá-las à porta, à minha espera de sorriso bem aprumado, impacientes com a minha demora e com a minha gravata torta. É o dia em que as guitarras farão alguém encolher o corpo e fechar os olhos doídos, atrás deles corre a fita de um filme rápido tão rápido, já passou, o primeiro dia em que chegámos com as malas cheias de agasalhos e papéis e migalhas de um tempo que então era o passado, as guitarras não eram mais que uma hora curiosa de pestanas diluidas que nunca chegaria para nós e que ouvíamos distraidas de sorrisos. Quando os meus olhos se apertarem com medo de abrir-se e o último acorde tiver parado de vibrar no chão vê-las-ei à minha porta, de sorriso bem aprumado e impacientes com a minha demora e a minha gravata torta, verei as costas orgulhosas de capa comprida, verei os sapatos altos atirados sem querer contra a parede enquanto cozinhávamos descalças e bebíamos vinho barato, as mãos contidas, medo que o carinho voasse de repente dos dedos, cansado de se esconder sempre nos sorrisos bem aprumados e na impaciencia das gravatas tortas.

4/28/2009

É diferente. Há o que se sente entre a roupa, aninhado entre as lãs e o linho do corpo, junto à pele como um hálito quente e aguçado que arranha as costas, que contorce as pernas e os dedos das mãos e que entreabre os lábios como uma fresta por onde se escuta um segredo só de ar.
E há as listas de compras, os sacos de maçãs, as gavetas, o pão quente, os sapatos novos, o pijama debaixo da almofada, a varanda, os pés frios, as vendedoras de flores, a chuva, os dois bancos do comboio, o cabelo desgrenhado de manhã onde quero que te metas sem pedir permissão.

4/27/2009

O amor, pela Rita

Dás por ti a ter saudades de algo que nunca foi...

"Olhava para as paredes sujas do pátio e não sabia se aquilo era histeria ou amor."

"Your skin is something that i'd stir into my tea"

4/25/2009

Ouço o piano, o vento lá fora não magoa os telhados nem as chaminés, nada mexe, a camisa de noite ficou pendurada, quieta, na cadeira. Apodera-se de mim uma lânguidez, um arrepiar de pele silencioso, talvez agora nenhum pássaro bata asas para voar, flutue apenas...

4/16/2009

Caminha, caminha, caminha sem direcção como se o teu corpo fosse apenas memória de liberdade, liberdade que rebenta as cores do segredo pintado, tanta coisa por dizer, caminhas, caminhas sem direcção, electro, e também petróleo, e até de pé, de pé e caminhas tu, o mistério, o mistério esse, como diz a canção, será que o persegues, há brisa de verão agora e tu? Terás o mistério? Tanto por dizer, por dizer um tanto mais, caminha, caminha, caminha sem direcção, caminha sem direcção, tanto por dizer e tu, e tu caminhas, caminhas sem direcção, a luz mistura-se, é luz ou não-luz, a luz mistura-se e passas, sim, sereno, passas tanto, passas tanto, tu caminhas, caminhas sem direcção, passas tanto, passas tanto, caminha, caminha sem direcção, passas tanto, e tu, tu na gaiola...


Suburbia Playtime, Maio 2005

4/13/2009

valsa de monstros

Quando acendi a luz o teu quarto tinha escurecido e tinha a textura de uma rosa vermelha e tínhamos todos os olhos a ver-nos os dedos das mãos e dos pés.

4/12/2009

a vida devia ser assim!...

páscoa

Terra pequena de rendas e barro, mulheres velhas, de cabelos compridos em ninhos cinzentos e de brincos de ouro, onde tento desenterrar os meus vinte e um anos e as minhas pernas capazes de saltar papoilas e pedras e as minhas bochechas capazes de corar de vergonha, casas escuras cheias de pratos com rosas de esmalte e cheiro de guisado e café com leite e de lume antigo, adormeço tranquila ao colo destes lugares que pouco mais durarão, quando todas as mulheres vestidas de preto desaparecerem e levarem com elas as mezinhas, os cochichos espiatórios, as linhas de bordar, as mãos tortas e coxas capazes de acariciar pétalas.

4/06/2009


Quando me deito já todos dormem às escuras.

A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.

Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.

Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…

Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.

3/31/2009


Nas minhas mãos guardo memórias de acenos, tecidos, cascas de árvore, alfazema, do teu cabelo que adormeci.

3/30/2009

rituais

O roupão tem flores roxas e outras amarelas. É velho e pálido. Tem um bolso onde ela guarda a esponja depois de bem espremida. Ela aperta o roupão com um laço de lado e abre a porta. No quarto fecha-se. O quarto tem segredos, tem linhos e sapatos vermelhos. Ela aperta o cabelo com uma fita castanha e põe-lhe laca com os olhos fechados, passa os dedos nos fios que ficam soltos, alisa-o para dentro de ganchos pretos finos. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Traça os olhos, só os cantos das pálpebras, só as últimas pestanas, um risco pequeno, quase invisível não fora os olhos parecerem afundados de repente, lápis cinzento, não preto. Dilui a cor com um gesto da ponta do dedo. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Veste-se de preto, deixa escorregar o vestido pelas costas até ao fundo das pernas, o vestido tem um botão no pescoço e as costas abertas, as sabrinas são de cetim bem engomado. Vê o perfil no espelho, costas direitas, queixo para cima, vê-se de frente no espelho, os dois olhos alinhavados de escuro como quem não dormiu, os lábios secos mal cuidados, brancos, morde o lábio de baixo até ter um rasgo vermelho. Duas pérolas pequenas ao longo do pescoço. Ela aperta as mãos uma na outra, ouve os dedos estalar, ela tem medo e sai.

Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.

3/27/2009

escrevo-te a ti

Às vezes deitas-te e acordas na outra ponta da cidade, perguntas-te que mãos te pousaram em tão maus lençóis. Tens duas caras, lua-cara, Lua-nova-olhos-cegos, somos os da noite os que não dormem os que se afogam os que cantam os que choram o corpo nú, tão desgraçado, brindemos à embriaguez desta primavera saturada de perfume e deixemo-nos cair, na outra ponta da cidade, sem orgulho, sem desamor, toma o meu corpo se queres hoje sou transparente amanhã serei de novo um deus. Tantas asas pousam numa flor... a minha vergonha um pouco poema...

pensatempos

O miúdo do acordeão cresceu comigo. Eu era pequena e ele era pequeno, sentado na calçada com um caozinho cantor. Ele era pequeno e eu, então pequena, pensava que todos os pequenos aprendiam a ler na escola até às cinco da tarde, e tinha-lhe uma pena invejosa pelas tardes soalheiras entre azulejos e frontarias caiadas. Hoje tenho um metro e sessenta e ele é maior que eu, eu deambulo na tarde soalheira de lisboa e ele continua parado no passeio, enche a rua de convites para dançar que imagino aceitar desde criança (desde criança, soa estranho, o que sou agora então?). Mudaram as cores atrás dos vidros que espreito para arranjar o cabelo entre os passos, lisboa continua velha, desmanchada entre árvores retorcidas nas escadarias, varandas cheias de pombos, lisboa continua bonita... o garoto toca acordeão, sempre a mesma música, e eu, garota, fecho os olhos, e lisboa roda, com as suas calçadas e os carrinhos de gelados, como uma caixinha de música cheia de pó. Invejo-lhe as cantigas, bilhete tão fácil para a minha pequenice.

O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.

3/17/2009

Aceito o desafio: o que me faz feliz


O sol no inverno, os primeiros dias de sol. Sento-me na beira da estrada do hospital antes de entrar para a aula e deixo o sol amolecer-me a agilidade. Enterro a cabeça nos joelhos e deixo queimar as costas por baixo da roupa de lã, e adormeço numa terça-feira, feira da ladra, qualquer.


Ir ao supermercado, fim de tarde, escolher com minúcia tudo o que gosto: Iogurte natural, bolachas de canela, broa de milho, amêndoas com casca, pimento vermelho, chocolates Regina.

Vestir a roupa de trabalho.

Sentir o cabelo crescer até um dia a franja não precisar mais de gancho.

Deixar a bicicleta descer a estrada sem pedalar, fazer curvas, com medo, deixar a neve cair na língua, chegar a casa com a boina cheiinha de branco. Ou abraçar-te as costas enquanto nos pedalas, aos dois, numa bicicleta só.

Camisas de linho bordadas. Saias que rodam quando danço. Sapatos que deixam sentir o chão.

Um quadradinho de chocolate que não devia comer.

Lembrar-me. Voltar.

O meu jardim e as minhas socas vermelhas. Lavar as flores, aparar-lhes o cabelo...

Quando o meu corpo cabe sem defeito no corpo de alguém.

Dançar. Ou imaginar que danço, quando ouço músicas velhas...

Chegar a uma cidade que nunca vi e imaginar-lhe varandas, azulejos, pedintes, livrarias a cheirar a pó, montras cheias de chapéus.

3/16/2009

Ela disse:

Hoje não falem comigo.
Eu ontem chamava-me Eu e hoje estou enfurecida como um Relâmpago.
Não há nada subtil em Ti. Não há primavera em Ti.
Mas já houve.
E eu quero enlamear-me nos girassóis.

Depois, esvaziou um porto.
E afundou-se no sofá.

E esperou que alguém lhe pagasse um copo.



3/10/2009

O velho

Eu gostava que nunca me incomodasse. Os cantos da boca brancos, secos, a pele de jornal, as mãos apertadas de fios que sabem se respiras, se o teu coração está quente, os olhos amarelos de malmequer murcho. Gostava que não me incomodasse, a cama recebe-te e não há fotografias de ninguém à beira da almofada, nem pastéis de nata que as mães sempre trazem, tu já não tens mãe, pois não? Gostava que não me incomodasse... os passos de algodão de quem entra e não quer acordar-te para não perguntar Então como está hoje? Está melhorzinho?, eu abeiro-me da cama e viro as folhas quase sem dedos, quase sem abanar o ar, gostava que não me incomodasse a rouquidão com que te dói o que tens dentro, a rouquidão com que olhas para mim e me dizes, sem mexer a boca de cortiça, que queres namorar comigo. Porque vais ter para sempre vinte anos, mesmo que a tua pele tenha estórias velhas, que as tuas mãos façam tremer fios que fazem tremer máquinas, que o teu coração já se canse de apanhar borboletas e que os teus olhos se molhem sozinhos. Tens vinte anos, eu também tenho vinte anos, sei que estás cansado de passar o dia de pijama.

A 10 de Março de 2009

Folha branca. 1 hora.
Bata branca. Bata branca. Bata branca. 3 horas.
Folha branca sobre mesmo assunto que a bata branca. 1 hora.

Empadão de atum. 20 minutos.

Bata branca e homem enfezado. 30 minutos.

Bata branca e mulher com um furo. 1 hora.
Bata branca e sorrisinhos para o professor, tentativa de suturar uma esponja. 30 minutos.

Filme. 2 horas. Ahhhhhhhhhhhhhh...

Tomates cherry com parmesão. 5 minutinhos.

Sopa da mãe. O tempo que demorou a soprar a fervura de cada colher.


E o sol lá fora!...

3/07/2009

Mudei de visual!
Que tal?

3/06/2009


HOJE CRESCI O QUE AINDA ME FALTAVA.


(e digo-o com uma tristeza muito grande...)

2/26/2009

walking with the bike














Dois minutos antes estava espalmada no chão e a bicicleta rodava sozinha no ar.

Gosto de andar de bicicleta e de esfolar os joelhos.

2/25/2009

depois de escrever fica um vazio... como se já tivesse dito tudo, para sempre.
CHEGA DE ESCREVER AS ESTÓRIAS FORA DE PRAZO.
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.

apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.

adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...

2/24/2009

Havia sempre silêncio, só um momento, quando o comboio arrancava ou enquanto encaixava a palhinha no furo do copo, rabugenta, então havia um silêncio e tu paravas o meu rosto. Tentava imaginar a minha cara como se pudesse vê-la, a ponta da língua de fora a tricotar, o lábio de baixo mordido, a boca aberta a olhar as caixinhas de música em forma de carroussel, os aviões de madeira, os olhos fechados enquanto lias poemas embriagado de mim, com a voz esfarelada de mim. Havia sempre o teu silêncio de olhar para mim, como se um fio de formigas passasse nas minhas bochechas, paravas e olhavas para mim minucioso, calado, e sempre soube que esse silêncio era meu, era o teu silêncio de inventar-me, era o teu silêncio de conhecer-me outra vez. E depois voltavas ao que quer que fosse que fazias antes de eu te ter distraído sem querer. Mas eu sabia…

2/10/2009


Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.

2/05/2009