4/06/2009


Quando me deito já todos dormem às escuras.

A minha cama é pequena e durmo nela sozinha. Tenho bonecas e almofadas brancas que espiaram muita gente antes de mim, fitas de seda que se desfazem nos arranhões do tempo. Almofadas de muitos mortos, guardo-as comigo agora como um colecionador insaciável, respiro as estórias que escondem e adormeço nelas.

Esta não é a minha casa. A minha casa foram muitos quartos de cores diferentes, laranja, branco, rosas de pano e paus de chuva… Mas não te digo.

Digo-te que hei-de torturar-te mas sabes que não, não sabes? Sabes que estarei lá para apertar as tuas mãos e apertar-te o cabelo num laço e humedecer-te a boca e dormir aos pés da tua cama até respirares tranquila…

Foi o que escolhi. Ser mãos que adormecem.

3/31/2009


Nas minhas mãos guardo memórias de acenos, tecidos, cascas de árvore, alfazema, do teu cabelo que adormeci.

3/30/2009

rituais

O roupão tem flores roxas e outras amarelas. É velho e pálido. Tem um bolso onde ela guarda a esponja depois de bem espremida. Ela aperta o roupão com um laço de lado e abre a porta. No quarto fecha-se. O quarto tem segredos, tem linhos e sapatos vermelhos. Ela aperta o cabelo com uma fita castanha e põe-lhe laca com os olhos fechados, passa os dedos nos fios que ficam soltos, alisa-o para dentro de ganchos pretos finos. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Traça os olhos, só os cantos das pálpebras, só as últimas pestanas, um risco pequeno, quase invisível não fora os olhos parecerem afundados de repente, lápis cinzento, não preto. Dilui a cor com um gesto da ponta do dedo. Vê o perfil no espelho, costas direitas queixo para cima. Veste-se de preto, deixa escorregar o vestido pelas costas até ao fundo das pernas, o vestido tem um botão no pescoço e as costas abertas, as sabrinas são de cetim bem engomado. Vê o perfil no espelho, costas direitas, queixo para cima, vê-se de frente no espelho, os dois olhos alinhavados de escuro como quem não dormiu, os lábios secos mal cuidados, brancos, morde o lábio de baixo até ter um rasgo vermelho. Duas pérolas pequenas ao longo do pescoço. Ela aperta as mãos uma na outra, ouve os dedos estalar, ela tem medo e sai.

Ela cheira a perfume de um homem.
Ela é um palhaço.

3/27/2009

escrevo-te a ti

Às vezes deitas-te e acordas na outra ponta da cidade, perguntas-te que mãos te pousaram em tão maus lençóis. Tens duas caras, lua-cara, Lua-nova-olhos-cegos, somos os da noite os que não dormem os que se afogam os que cantam os que choram o corpo nú, tão desgraçado, brindemos à embriaguez desta primavera saturada de perfume e deixemo-nos cair, na outra ponta da cidade, sem orgulho, sem desamor, toma o meu corpo se queres hoje sou transparente amanhã serei de novo um deus. Tantas asas pousam numa flor... a minha vergonha um pouco poema...

pensatempos

O miúdo do acordeão cresceu comigo. Eu era pequena e ele era pequeno, sentado na calçada com um caozinho cantor. Ele era pequeno e eu, então pequena, pensava que todos os pequenos aprendiam a ler na escola até às cinco da tarde, e tinha-lhe uma pena invejosa pelas tardes soalheiras entre azulejos e frontarias caiadas. Hoje tenho um metro e sessenta e ele é maior que eu, eu deambulo na tarde soalheira de lisboa e ele continua parado no passeio, enche a rua de convites para dançar que imagino aceitar desde criança (desde criança, soa estranho, o que sou agora então?). Mudaram as cores atrás dos vidros que espreito para arranjar o cabelo entre os passos, lisboa continua velha, desmanchada entre árvores retorcidas nas escadarias, varandas cheias de pombos, lisboa continua bonita... o garoto toca acordeão, sempre a mesma música, e eu, garota, fecho os olhos, e lisboa roda, com as suas calçadas e os carrinhos de gelados, como uma caixinha de música cheia de pó. Invejo-lhe as cantigas, bilhete tão fácil para a minha pequenice.

O velho do violino desapareceu. E eu sempre com vergonha de lhe dizer que nunca me vou esquecer da cara dele. Lisboa morreu um bocadinho.

3/17/2009

Aceito o desafio: o que me faz feliz


O sol no inverno, os primeiros dias de sol. Sento-me na beira da estrada do hospital antes de entrar para a aula e deixo o sol amolecer-me a agilidade. Enterro a cabeça nos joelhos e deixo queimar as costas por baixo da roupa de lã, e adormeço numa terça-feira, feira da ladra, qualquer.


Ir ao supermercado, fim de tarde, escolher com minúcia tudo o que gosto: Iogurte natural, bolachas de canela, broa de milho, amêndoas com casca, pimento vermelho, chocolates Regina.

Vestir a roupa de trabalho.

Sentir o cabelo crescer até um dia a franja não precisar mais de gancho.

Deixar a bicicleta descer a estrada sem pedalar, fazer curvas, com medo, deixar a neve cair na língua, chegar a casa com a boina cheiinha de branco. Ou abraçar-te as costas enquanto nos pedalas, aos dois, numa bicicleta só.

Camisas de linho bordadas. Saias que rodam quando danço. Sapatos que deixam sentir o chão.

Um quadradinho de chocolate que não devia comer.

Lembrar-me. Voltar.

O meu jardim e as minhas socas vermelhas. Lavar as flores, aparar-lhes o cabelo...

Quando o meu corpo cabe sem defeito no corpo de alguém.

Dançar. Ou imaginar que danço, quando ouço músicas velhas...

Chegar a uma cidade que nunca vi e imaginar-lhe varandas, azulejos, pedintes, livrarias a cheirar a pó, montras cheias de chapéus.

3/16/2009

Ela disse:

Hoje não falem comigo.
Eu ontem chamava-me Eu e hoje estou enfurecida como um Relâmpago.
Não há nada subtil em Ti. Não há primavera em Ti.
Mas já houve.
E eu quero enlamear-me nos girassóis.

Depois, esvaziou um porto.
E afundou-se no sofá.

E esperou que alguém lhe pagasse um copo.



3/10/2009

O velho

Eu gostava que nunca me incomodasse. Os cantos da boca brancos, secos, a pele de jornal, as mãos apertadas de fios que sabem se respiras, se o teu coração está quente, os olhos amarelos de malmequer murcho. Gostava que não me incomodasse, a cama recebe-te e não há fotografias de ninguém à beira da almofada, nem pastéis de nata que as mães sempre trazem, tu já não tens mãe, pois não? Gostava que não me incomodasse... os passos de algodão de quem entra e não quer acordar-te para não perguntar Então como está hoje? Está melhorzinho?, eu abeiro-me da cama e viro as folhas quase sem dedos, quase sem abanar o ar, gostava que não me incomodasse a rouquidão com que te dói o que tens dentro, a rouquidão com que olhas para mim e me dizes, sem mexer a boca de cortiça, que queres namorar comigo. Porque vais ter para sempre vinte anos, mesmo que a tua pele tenha estórias velhas, que as tuas mãos façam tremer fios que fazem tremer máquinas, que o teu coração já se canse de apanhar borboletas e que os teus olhos se molhem sozinhos. Tens vinte anos, eu também tenho vinte anos, sei que estás cansado de passar o dia de pijama.

A 10 de Março de 2009

Folha branca. 1 hora.
Bata branca. Bata branca. Bata branca. 3 horas.
Folha branca sobre mesmo assunto que a bata branca. 1 hora.

Empadão de atum. 20 minutos.

Bata branca e homem enfezado. 30 minutos.

Bata branca e mulher com um furo. 1 hora.
Bata branca e sorrisinhos para o professor, tentativa de suturar uma esponja. 30 minutos.

Filme. 2 horas. Ahhhhhhhhhhhhhh...

Tomates cherry com parmesão. 5 minutinhos.

Sopa da mãe. O tempo que demorou a soprar a fervura de cada colher.


E o sol lá fora!...

3/07/2009

Mudei de visual!
Que tal?

3/06/2009


HOJE CRESCI O QUE AINDA ME FALTAVA.


(e digo-o com uma tristeza muito grande...)

2/26/2009

walking with the bike














Dois minutos antes estava espalmada no chão e a bicicleta rodava sozinha no ar.

Gosto de andar de bicicleta e de esfolar os joelhos.

2/25/2009

depois de escrever fica um vazio... como se já tivesse dito tudo, para sempre.
CHEGA DE ESCREVER AS ESTÓRIAS FORA DE PRAZO.
sou uma cabrinha, não sou?
sou uma cabrinha fora de prazo.
e as andorinhas partiram com a primavera.

apetece-me um copo de vinho.
mas não se bebe vinho em casa dos meus pais.
nem se fuma às escondidas com a minha boca.

adeus cortina de veludo cheia de luzes penduradas .
olá casaquinho branco.
comprido.
manchado.
deus pequenino de velhas sem cabelo e homens de pantufas.
dobrem-se nas minhas pernas e tragam pequeninos brindes.
não mais vos encantarei com vestidos emprestados
mas um dia ainda poderei ouvir-vos o coração bater...

2/24/2009

Havia sempre silêncio, só um momento, quando o comboio arrancava ou enquanto encaixava a palhinha no furo do copo, rabugenta, então havia um silêncio e tu paravas o meu rosto. Tentava imaginar a minha cara como se pudesse vê-la, a ponta da língua de fora a tricotar, o lábio de baixo mordido, a boca aberta a olhar as caixinhas de música em forma de carroussel, os aviões de madeira, os olhos fechados enquanto lias poemas embriagado de mim, com a voz esfarelada de mim. Havia sempre o teu silêncio de olhar para mim, como se um fio de formigas passasse nas minhas bochechas, paravas e olhavas para mim minucioso, calado, e sempre soube que esse silêncio era meu, era o teu silêncio de inventar-me, era o teu silêncio de conhecer-me outra vez. E depois voltavas ao que quer que fosse que fazias antes de eu te ter distraído sem querer. Mas eu sabia…

2/10/2009


Imagino hoje as casas dos velhos, carregadas de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. Imagino hoje, o meu xaile seca no aquecedor, também as luvas. O meu xaile estava molhado da neve, a neve não cai, a neve balouça até ao chão e quando passa em frente a uma lâmpada demora mais tempo e improvisa piruetas para se fazer bonita. Antes não tinha xaile, encontrei-o antes de chegar e trouxe-o enrolado no pescoço, e agora a neve cai sempre em mim e na lã do xaile, e no meu cabelo escorrido de água, até sermos uma figura pequena polvilhada de açúcar. Aconchego-me nele, aqueço-o com a minha boca escondida, estendo-o pelas costas quando espreito pela janela para sorrir às galinhas e ao gatinho molhado e frio. E faz um silêncio, um silêncio em que a chuva é branca e boceja antes de cair, em que os pássaros bicam a lama e o vento fica quieto, como nas aguarelas das estórias de adormecer polegarzinhas. E imagino a minha casa de velha, carregada de fotografias numa exaustão de não-esquecer, de ver crescer netos emoldurados em vidros sempre encolhidos. E o meu xaile num banquinho, como outros terão bules ou vestidos de noiva, numa exaustão de não esquecer a neve na língua quando a bicicleta ainda me fugia das mãos, cortando rápida o ar esmigalhado de gelo.

2/05/2009

1/31/2009

A boleia

Se a levares no carro, ela vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja, vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai ajeitar-te o cabelo e depois hesitar os dedos dela nos teus dedos. Vai ficar séria, depois, e olhar sozinha pela janela a pensar em coisas que não sabes. Vai encostar o nariz no vidro e fazer figurinhas de vapor com o dedo e não vais poder ver-lhe a cara, não vais poder ver os pingos a escorrer do queixo. Depois vai brincar com os óculos de sol cor-de-laranja e vai rir-se para ti e ver-se no espelhinho, vai trocar o CD, ela que costumava zangar-se quando pedias para escolher a música, e vai deixar ficar os óculos de sol a disfarçar os olhos vermelhos. Tu vais conduzir o carro e olhar para o relógio para saber quanto tempo falta até que tudo se desfaça como uma estória de jornal na água de um alguidar, ela não precisa do relógio porque a estrada arranha-a como se ela fosse a roda sempre a girar, quando sentir a curva a chegar vai pousar os óculos e esconder as mãos entre as pernas e morder o lábio de baixo para não chorar. Ela conhece-te... Sabe que não voltará a ver-se, no espelhinho, com os óculos de sol cor-de-laranja.
Ela fecha a porta e jura nunca mais te reconhecer na rua, jura nunca mais hesitar os dedos dela nos teus, jura odiar o umbigo dela nas tuas costas. E tu acreditas.

O vento desvairado lá fora.
As camélias são flores cheias de solidão e doçura,as camélias guardam toda a chuva e frio de janeiro mas acordam brancas e macias como bochechas de menina. A minha flor está lá fora sozinha, e ouço o vento troçar dela dizer-lhe que é pequenina que vai arranhar-lhe os olhos fechados que vai arrancar-lhe o perfume dos dedos...

O que fizeste com o meu corpo? O meu corpo serpenteava por entre os peixes e encontrava nenúfares para pousar os pés, o meu corpo serpenteava entre o teu corpo e tínhamos escamas reluzentes e a chuva era bem vinda na nossa janela e deixávamos que ela nos molhasse os cabelos, o teu corpo era um lenço no meu corpo o teu corpo enchia-me de tristeza, era morno e acolhedor como um ninho e eu sabia que um dia o vento chegaria desvairado para levar-te com ele, por isso imagino que o teu corpo se enlaça na minha flor e lhe sussurra cantigas de embalar, a minha flor é doce e só e o teu corpo é feito de linho é feito de terra soalheira, o teu corpo levou-me com ele e a minha flor é nossa, as nossas mãos agarradas há tanto tempo riscaram um ramo verde, e a nossa flor é doce e só...

1/30/2009

o reclame

A televisão fala alto e não consigo encontrar o fio à meada do que me vai pela cabeça. Tenho esta urgência de falar de um assunto que não consigo ouvir qual é, a televisão fala tão alto, homens que se culpam e se desculpam dos pontapés que vão dando uns nos outros pelo caminho, a musiquinha que volta e meia anuncia a estória triste de alguma família que só será contada no fim do telejornal. A televisão fala alto, não consigo escrever.
Ontem de manhã a loja do cidadão abriu às oito e meia. Às nove da manhã a maquina de senhas para levantar o cartão de cidadão tinha uma folha colada: "Por motivo de avaria no sistema informático o serviço encontra-se atrasado". Foi a terceira vez que dei com aquela etiquetazinha atenciosa, mas nunca pensei que lá estivesse logo pela manhã, com o computador acabadinho de acordar... Noutro canto uma velhota tentava pagar a electricidade com um homem que namorava no computador e que a mandava para uma máquina de pagamentos que ela não sabia domar. Estava desejoso de continuar a sorrir para o computador e o raio da velhota que não percebia nada de máquinas sempre a reclamar por ajuda... Entretanto, uma mulher loira de chapéu de cobra chegou acompanhada de um segurança e sentou-se ao balcão para ser atendida, sem tirar senha, sem se sentar primeiro, como todos os outros ensonados, nas cadeiras de espera. Perguntei-me porquê e apeteceu-me morder-lhe a cobra do chapéu enquanto ela se aconchegava de perna cruzada na cadeira ao balcão, cheia de sorrisos que só existem na cara dos que não esperam e não se atrasam para o emprego...
Não era nada disto que eu queria dizer, mas o telejornal só acabou agora e o que eu tinha para dizer era muito mais dificil.

1/27/2009

1/24/2009

dançar...




Cresci com os pés sujos e cortados da madeira. Cresci enrolada em trapos e gaitas de foles, cresci molhada de suor e com a cara escondida em cabelos compridos e envergonhados, cresci debruçada no balcão da comida onde vinhas encontrar-me sempre a cheirar a maçãs e açúcar, cresci a adormecer de madrugada com o coração a bombear danças furiosas nas minhas pernas, a lavar as mãos numa poça de água e a ver estrelas cadentes sob o carvalhal. Cresci entre saias rodadas e sonhos ansiosos de pés mais magoados por danças e caminhadas, e cabelos mais compridos para esconder a minha cara envergonhada e dedos mais cheirosos de maçãs e açucar. Cresci e um dia entrei nua na água gelada e vi duas libelinhas azuis, com o coração a bombear-lhe danças furiosas nas asas, e quis ser como elas...

1/21/2009

Sigur Rós. E estórias antigas a pesarem-me nos olhos.

Luzes nas paredes e nas cadeiras, a rodar, a rodar... O meu corpo nú polvilhado de botões. Eu um alfinete pequenino pendurado num aeroporto, à espera, à espera...

Ponho a ponta da lígua de fora e lambo as estórias que me vão pesando nos olhos.

1/20/2009

Em coimbra...


Amor, as magnólias estão em flor!...

1/15/2009

caril

Como estava sozinha em casa deixei-me ficar a ouvir música alto. Música turca, cheia de ruas estreitas e lenços pendurados. E cozinhei caril. Antes de cozinhar alinho na pedra a manteiga, a carne, o pimento, a tábua de madeira, as duas facas, as natas e os coentros, a cebola, um copo de água. Depois, só depois começo. E a primeira coisa é o cheiro do refogado, doce e quente, e começo a sorrir para a música e sinto nas mãos a carne fria e as sementes do pimento e o áspero da faca na tábua. A panela borbulha e aquece-me as mãos, deixo escorregar o caril entre as pontas dos dedos e o ar cheira de repente a amarelo.
Quando cozinho as minhas mãos cheiram a índias e aipos cortados, e a lume. Quando cozinho as minhas mãos cheiram a vozes em volta da mesa, cheiram a crianças aconchegadas à noite na cama, cheiram a um copo de vinho contigo antes de a manhã chegar. Quando cozinho aproximo as mãos das narinas e inspiro o aconchego da comida, e sei-me velha junto à minha pedra, com a cebola e o azeite alinhados, e aproximo as minhas mãos do teu rosto e tu sabes que sou eu, cheiras o aconchego em mim.

Hoje cozinhei para ti.

1/14/2009

o belo e a monstra

Hei-de conhecer-te quando te deixar. Quando te deixar hás-de chorar-me como se tivesse fechado a porta para nunca mais a abrir. Hás-de pintar-me em cantos de guardanapo, hás-de escrever-me poemas de mim e hei-de saber quem sou nas tuas palavras. Quando te deixar hás-de ver-me, hás-de sentir nas costas o frio do meu corpo desencostado de ti a dormir. Quando te deixar hás-de querer apertar-me e ver-me dançar suada e sem sapatos, de mãos pousadas no ar e sorriso de quem se despe em frente ao espelho, em frente a ti, com vergonha e orgulho de estar nua. Hás-de lembrar-te de mim suada e suja e hei-de ser bela para ti e as minhas costas hão-de ser um tear nas tuas mãos e o meu cabelo há-de encaixar no recanto do teu pescoço, e o meu umbigo há-de ser uma poça de água com flores de lago. E havemos de ser felizes para sempre. Quando eu te deixar.

1/09/2009

Não


Não, nunca nos teus pés encontrei mau feitio.
É preciso deixar o amor chegar . É preciso esperar por ele, tricotá-lo como uma luva quente, o amor demora-se, faz-se difícil, primeiro olho para ti e gosto-te, memorizo-te o macio dos cabelos e os gestos das mãos, entalo-me em ti para dormir, falamos de poemas e rimos na relva junto ao rio. E quando voltas para casa, eu volto para casa.
Mas se esperar, hei-de fazer-te chá quando ficares doente, hei-de sentar-me na cama até que adormeças e hei-de tirar-te as dores do corpo, e hei-de encontrar flores no inverno, para ti. Porque te amo.

1/08/2009

primeiro envelope


Voas. E depois, será que pousas bem?...

1/07/2009

EXTRAVAGÂNCIAS

Puxo o livro para dentro da mala e preparo-me para sair.
Não saio sem escolher bem os sapatos, têm de ser os sapatos perfeitos, bem vincados e com atacadores, um bocadinho sujos, um bocadinho tortos da idade, um bocadinho idiotas. Não podem ser uns sapatos tirados do cesto ao acaso, não, têm de ser cuidadosamente feios e fora de moda, cuidadosamente fora de prazo para os olhos, cuidadosamente deliciosos, para, quando cruzar a perna no sofá do café com o meu livro aberto e a caneta empinada a riscar página atrás de página, o rapaz barbudo e com óculinhos redondos, que aproveitou das velharias do pai, olhar para mim uns segundos e pensar quem será aquela que lê tão quieta, com uns sapatos tão estudiosamente extravagantes...

1/05/2009

für dich

Eu bati à porta e tu olhaste-me como se eu fosse um trapinho com graça. Eu olhei-te como se fosses um sorriso grande e trocista, como se o teu chepéu fosse um ninho de cotovias e o teu cotovelo pousado ao acaso na mesa ou nas costas da cadeira fosse o braço de um violoncelo. Tu olhaste-me e nem sabias falar comigo e o teu mundo era já grande demais, cheio demais, cheio de gente, mas olhaste-me como se fosse um trapinho com graça e sorriste divertido, e eu vi pássaros no teu chapéu, e tu dobraste-me com cuidado e guardaste-me no bolso do casaco como se no meu corpo houvesse algum perfume que não querias perder, e de vez em quando pegavas em mim e rodavas-me no ar e voltavas a apertar-me com força na mão como se eu fosse voar, como se eu fosse um trapinho num estendal ventoso, sempre quase a fugir-te dos dedos.

1/02/2009

Vou fechar os olhos e deixar o novo ano chegar. Ver como é. Não espero nada. De manhã lavo o cabelo e ponho as botas do costume e a mala às costas e nem me lembro que é janeiro, hei-de continuar a não ter para quem escrever tenho é este buraco dentro, que nem é preto é só um buraco como se este ano não tivesse sido meu, um buraco que quero espalhar por uma pilha de folhas de papel mas não consigo porque este ano não foi meu, não sei o que dizer. Como se tivesse a boca presa com adesivo, chove agora, chove muito mas há sol e os vidros ficam pingados e as casas de lisboa têm jardins na parte de trás e escadas musguentas e se me despir no quarto todos podem ver-me por isso desço a cortina antes de mudar de sapatos, não quero que me vejam os dedos dos pés, são um segredo bem guardado, não quero que saibas por onde andei, não quero que vejas que ontem não dormi em casa, ias agarrar-me nos pés e lamber o resto de chá que bebi em segredo numa rua de casas podres e depois havias de cuspi-lo e deixar-me sozinha na cama e eu não quero dormir sozinha, fica comigo mesmo que não consiga lembrar-me das noites, nem da tua cara, e acordo e passo dias a devorar-te as expressões e o cabelo e o teu cheiro e nunca me lembro, não consigo ver-te e não me lembro do que me disseste ontem antes de fechar os olhos. Não sei como te conheci, sei que me enlouqueceste e que fugi de casa contigo, prometi-me uma varanda cheia de vasos e as tuas mãos a cortar-me o bife à mesa, prometi-me os teus olhos sempre cheios de açúcar e cachos de uvas para a sobremesa e agora não gosto do escuro porque me esqueço de ti assim que as luzes se apagam. Minto. Gosto do escuro porque não tenho de viver contigo…

12/31/2008

feliz ano novo


Bebo o nosso café sozinha, não pude abrir a porta, sabes que não, mas fiquei na cozinha e fervi a água no fogão, não pus a chávena no microondas, isso não, o café no lume sabe diferente, é o que dizem, demora mais tempo, sim, mas eu acendi o gás e esperei, esperei e deixei o cheiro espalhar-se pelo corredor, fechei os olhos e deixei-me aquecer pelo borbulhar da cafeteira, na verdade o fogão foi só uma desculpa para ficares mais tempo, percebes?

Santa Apolónia

Quando o comboio chega há sempre um velho de casaca e chapéu, sério, costas direitas um bocadinho descaídas como todas as costas dos velhos. Arrasta um carrinho ferrugento e vai de porta em porta para carregar as malas de senhoras cheias de pó de arrôz e laca no cabelo.
Restos de tempos em que as malas não tinham rodas...

11/29/2008

antes da estreia...

A mesa é só uma mesa. Até vir o homem da luz. Aí uma mesa pode ser um envelope bem vincado, um coração partido, uma mulher deitada com os braços abertos, com a cara escondida na penumbra do cotovelo.

Ninguém mexeu em nada, garanto-lhe, a mesa está onde sempre esteve, sim, foi o homem da luz que veio, sim, fica logo tudo diferente, não é?

11/28/2008

Coimbra, 27 de Novembro de 2008

Chegámos tarde.
Três batas brancas a correr pelos corredores pelas escadas pelo quarto, chegámos tarde.
Ele já dormia, num repouso sem ar de máscara quente, e eu olhava sempre para a luzinha que tentava acordar-lhe os olhos, nunca para os olhos, nem para a boca seca, nem para as memórias que lhe imaginei. Não lhe quis guardar a cara.
E o filho tinha uma súbita água a escorrer pelos lábios e pelo pescoço, e começou a andar mais devagar. É que tinha acabado de chegar e também chegou tarde.



(e guardei-lhe a cara, claro que sim...)

11/12/2008

Falamos de coisas banais.



Equanto isso, aproximo-me sorrateira por trás de ti, sem me veres, e enquanto falas
aspiro o perfume do teu pescoço.

Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida

Ela andava às compras. Um carrinho emperrado e os olhos perdidos na prateleira dos fiambres. E outras mãos.
Telefonaram a dizer. Coimbra.
Ela riu a chorar. As outras mãos riram-se nos ombros dela.
Dois dias antes de não haver mãos.

11/11/2008

Lembro-me das outras vezes em fiquei à porta, os olhos amachucados como duas folhinhas de papel molhado.

(podia ser um cão preto ou uma menina...)

10/21/2008

Estranha sensação dentro, quando chove aos pedaços, vento, e o frio me aperta o pescoço.
Como se usasse sapatos grandes demais.

10/13/2008




Sacode esse pássaro de mim.




apagar a luz e apagar o resto


Tenho de pintar a janela, penso.

O cão encosta-se no tapete muito sujo, consigo ver-lhe a boiar nos olhos uma lagrimita de saudade da mulher que partiu e que costumava mimar-lhe o corpo com mãos ternas. Eu sento-me direita na cadeira. Aperta-me a garganta uma maldade que não me conhecia. Quero livrar-me de tudo. Desejo-vos longe, a todos. A todos. Quero não vos conhecer nunca mais. Quero não vos ver a dançar quando apago a lâmpada do tecto, dançam nas sombras dos chapéus e das chávenas deixadas abandonadas na mesa e cada colher caída é uma mão vossa, uma mão pequenina vossa, cheia de pássaros de papel. Não vos quero ver, nunca mais. Não vos quero ver nunca mais, assim em peúgas e cabelos suados, sentados na cabeceira da minha cama enquanto adormeço. Não vos quero ver caminhar, não vos quero ver sapatear nas calçadas molhadas, devagar, a rir para mim, Carolina despacha-te, o comboio, não tires bilhete corre.
Arranco-vos da parede. Outros cabelos. As mãos pequeninas. Outras asas. Arranco as asas, e as rochas junto ao mar, os teus braços à minha volta dentro de água, o teu queixo metido com vergonha no meu pescoço, só mar à nossa volta, já nem te lembras e eu também não quero lembrar-me. Não quero lembrar-me de nada. Quero arrancar este pedaço como se arranca uma crosta do joelho, fica um buraco, um buraquinho, um sangue. Um botão vermelho. Um botão por cada dia. Acabaram-se-nos os dias, tu sabes não sabes?, desabotoo-vos da parede, digo-te até logo, até logo tu-tantos-nomes, consigo ver-me boiar nos olhos uma lagrimita de saudade do homem que partiu e que costumava mimar-me o corpo com mãos ternas, despreocupadas, vagabundas. És tu, sim, tu sabes... tu-tantos-nomes. Tu e os outros todos que eu sento como figurinhas de pau no meu parapeito, a vossa figura rígida que eu moldo, viro o vosso olhar para o meu corpo amolecido nesta cadeira, olhem para mim. Uma garrafa de vinho à minha frente. Uma não, duas. Não bebo, espero alguém para brindar comigo num copo gorduroso da cozinha, bebemos ao que vem aí e, com uma fisga, atiramos as figurinhas janela abaixo e eu desfaço-me numa gargalhada, uma gargalhada colossal! Desaparecem todos, ninguém saberá o que faço às escuras com a cara enterrada no colchão que se encharca. É que eu saber que estão aí é como um espinho de rosa encravado num qualquer lugar incómodo do corpo, vai furando mais a carne até ser parte dela, até não ser possível voltar a descobri-lo e arrancá-lo para sempre. É que eu saber que não estão aí encrava-se-me na garganta e faz-me engolir uma desilusão, um desamor...

Quando vos atirar lá para baixo pinto a janela. Para não encontrar, por acaso, nalguma manhã mais tranquila, alguma pegada vossa, empoada, bailarina, trocista.
(é que gosto tanto de vocês, é que estou em guerra só com as minhas memórias)

9/23/2008

tréguas ao teatro...

Aventurem-se. Subam ao palco com grandes laços de seda, sapatinhos de tule.

Aventurem-se, sejam a puta, o pedinte o nazi que espanca o preto. Sejam a puta, todos querem ser a puta, esse desalinho de rendas esburacadas e horas passadas no espelho do camarim, horas a acertar o traço negro, uma asa de corvo a cortar as pálpebras, o olhar tão perfeito, todos querem ser a puta, ensaiar a puta até cair, até ela cair até ela gemer ou até ela rir, uma gargalhada de saltos altos. Nunca a puta das pernas navalhadas, nunca a puta sem chuva onde ensaboar o cabelo, nunca a puta sem os lábios pintados, só mordidos por um homem filho da puta, tão cheio de amor, amor, ah o amor dos homens com moedas no bolso, com doces no bolso... Espanquem o preto, eu também sei a voz de tragédia que é precisa para espancar o preto, espanquem o preto mas tenham razão. Não espanquem o preto como se espanca um preto. Estão em palco, seja perfeito, seja perfeito! Nunca um homem a sério, antes homens camuflados de texto batido, homens remendados, homens mijados, homens com cheiro a sopa e hospício, onde? Ahh, não aqui, este mundo é de madeira, lava-se encera-se puxa-se o lustro, abrem-se as cortinas, veludo engomado cheio de pó de arroz, homens arrastados pela rua, velhos cheios de vinho caem batem com a cabeça no corrimão ao pé da igreja dos Anjos, queres vestir-te como eles não te esqueças do risco ao lado. Mundo de madeira, lava-se encera-se penteia-se. Não me venham entrar em palco armados em gente a sério, mijada, suada, ansiosa de mãos, ora essa, aqui é tudo a fingir.

Tragam figurino.

6/18/2008

Brinco às bonecas. Bonecas de papel, recorto vestidos e chapéus, sapatos de botão e meias de rede. Brinco às bonecas com moedas de lata e compro doçuras e papel crepe, pinto a cara de aguarelas, pestanas falsas, encaracolo o cabelo no dedo e poso. Poso. Um flash. Dois. Três homens. Tu, ele, os outros.
Pedem-me que chore para a última fotografia e desfaz-se a blusa recortada em cartolina azul, um lago de tinta no meio do lençol.

1/16/2008

há cinco anos

Aos 15 anos quis ser grande. E ser grande eram umas calças aos quadrados e uns sapatos de camurça com atacadores… e andar sozinha quando chovia, e acabar a tarde numa casinha de chá, mesa para duas pessoas na varanda pequenina, chá de jasmim com flores a boiar e vapor.
Aos 15 anos era grande. Acordava num parapeito ao pé do mar e ouvia os pardais, ouvia as ondas, ouvia a panela cheia de aveia e maçã, ouvia a viola dela, ouvia Jorge Palma e Bach, ouvia folhas de papel de poemas grandes de poetas grandes. Acordava e a casa não era minha, era dela e do mar, portanto eu era grande, 15 anos que não interessavam mas só aquele dia, só aquela manhã, só aquela manhã eram os outros anos todos que eu precisava...

1/13/2008

teatro

Shakespeare chegou e eu estava de pijama.
Não faz mal. Ele vinha em papel...
Era uma vez um lugar com chão de madeira e pó em pedaços, cadeiras vazias, paredes pretas com circulos de lâmpadas, e não fazia mal se eu estivesse de pijama, Shakespeare chegava sempre e para ele eu tinha o cabelo ondulado a cair nos ombros, pestanas compridas e lábios vermelhos. E saltos altos, e gravata, podia ser mulher ou podia ser principe de uma ilha com deuses de flores e sal. Podia tentar...
Ele senta-se à minha frente e ri-se de mim. Eu sei, eu sei que não era sobre mim, nenhuma letra era sobre mim... Naquele tempo não haviam mulheres, haviam corpos de vestidos longos onde o vento se perdia a fazer saias de balão, corpos de cabelos longos onde o vento se amainava a romper flores amarelas, corpos de pés pequenos onde o vento se enterrava para florir em jasmins. Corpos que dormiam só com a pele, com as unhas, com um respirar baixinho... Ele ri-se da minha voz que não sabe cantar, o que ele escreveu era sobre uma criança de quinze anos e ela nunca teria a minha voz se alguma vez lesse como ele a desenhou no papel...
Shakespeare chegou e riu-se e eu gaguejei, atrapalhada.

1/04/2008

Bicho

Aí está frio.
Eu não percebo nada de frio.
Só percebo de quente, porque durmo aninhada em ti...

12/18/2007

pedaços

A roupa saída do estendal em Coimbra cheira a frio e detergente. Cheira mais a frio. Acho que cheira a frio que fica nas minhas mãos frias quando apertam a roupa na corda. Fica a agitar ao vento, às estrelas, ao frio...


Um homem do campo vem à cidade. Vê-se que é do campo, tem terra nas unhas e muita roupa para assustar o frio, roupa pequena tricotada pela mulher. Um homem do campo vem à cidade e anda de autocarro. Olha pela janela e repara: nêsperas num quintal, um bom portão, pinhas grandes para o fogo.


Beijar uns lábios novos. Explica-me como é. Vou ter frio nas costas?...

11/09/2007

segunda porta à direita

Quando tinhas o cabelo grande eu tinha um casaco vermelho a perder a cor ao pé das costuras. Tinha uns sapatinhos vermelhos para dançar na praia, com uma mancha de alcatrão esfarelado. Tinha o cabelo cheio de terra e olhos pequeninos de sono, e os lábios tão sem dizer nada de quem via nascer o sol pela primeira vez, com as núvens a engolirem-me vindas do mar. Tinha os dedos apertados por outros dedos que não tinha apertado nunca, tinha todo o corpo caído no chão enquanto falavas de gente que se levanta e sabe voar, voar e cortar as sombras como luvas brancas, pés como gatos pequenos entre chávenas de colecção.
Quando tens o cabelo rasteiro como caruma eu tenho um sofá azul, um sofá azul e uma garrafa verde numa mesa, falamos baixo e às vezes rimos, vamos pintando os lábios sem espelho até serem quase doentes, até serem quase azuis e o sol nascer neles, nascer neles e um de nós se levantar para ir sacudir a luz das mangas e poder ir para a cama às escuras, levantamo-nos e cortamos as sombras, como luvas brancas, até se ouvir a porta a fechar e a porcelana das chávenas tilitar de frio...

10/29/2007

noobai

Ainda falta para o teatro. Olho para ti pelo vidro do copo. Estás distraido a ver os candeeiros na água, a pensar quantos homens irão cair ao rio com as próprias mãos a empurrar-lhes as costas. Num buraquinho do chão está um girassol de pano que estremece como um candeeiro no rio, um candeeiro na água a bater os dentes de frio.
Queria colar-te no olho da máquina, girá-la devagarinho nas pontas dos dedos, esperar até a luz do candeeiro se voltar para acender palhinhas nas tuas mãos e aí carregar no botão, deixar-te ficar preso, preso assim distraído a escrever mais ou menos poemas dentro da cabeça, poemas sobre a água irrequieta, sobre os telhados cheios de musgo, sobre as janelas que se acendem ainda que já se faça tarde...

Nesse dia voltámos para casa já era dia, num taxi molengão...

10/25/2007

Hei-de embrenhar-me na noite, já daqui a pouco, embrenhar-me até não saber mais de mim, até ser uma garrafa verde ou um cão preto que abre portas com um uivo, a andar sozinho a ver as pessoas passar, a olhar para elas com o focinho torto para a direita, a continuar a andar com o rabo entre as pernas, não saber de nada não saber de mim, encolher os ombros e esquecer como tudo é tão lindamente triste. Um homem de jardineiras vermelhas e careca no topo da cabeça anda no meio das mesas do café e oferece caricaturas... Quero ser um cão preto de nariz torto para a direita e passar com o rabo entre as pernas, não saber de dizer que não, não saber falar lígua de homens, ser um cão preto que abre portas com um uivo e adormece enroscado no tapete a sonhar com ossos, não sentir rios embrutecidos a querer romper-me as pálpebras, não ter de embrenhar-me na noite, a noite acaba sempre com o céu a azular-se, sempre, e eu aguento os olhos para ver tudo e então deixo sair os rios e os peixes e os seixinhos polidos por tanta água e adormeço enroscada no tapete...

10/04/2007

La Phare

A música aperta-me o pescoço com cinco dedos bem esticados, grita aos meus ouvidos, só aos meus ouvidos, o resto da casa dorme ou ainda não chegou a casa, é uma valsa em bicos de pés e eu danço num quadradinho de chão com um domador de leões, sinto-lhe o veludo vermelho do casaco a descoser-se, o cheiro do cabelo sinto a areia a entrar nos sapatos para dentro das meias para entre os dedos, danço com um palhaço já sem tinta, danço com uma mala cheia de penas que me vestem de pomba quando numa roda se abre ao meio e se derrama no chão, é uma valsa em bicos de pés dançada com outra mulher, só outra mulher saberia rodar assim abraçada a mim, uma mulher com braços de homem com força para me segurar as costas, para me fechar os olhos, uma mulher com cabelo a cheirar a domador e leões com ombros de veludo largos para cravar as unhas para enterrar o queixo enquanto a música se põe mais em bicos de pés, tenho a cara pintada de branco como um mimo não preciso de pés para dançar, não preciso de música, invento tudo e alguém me aperta contra os botões do casaco e rodo rodo rodo o meu corpo pede dançar, pede desfazer-se em água, água cheia de música de regar jacintos e poças onde pássaros de papel vão beber...

8/25/2007

Ele sabia assobiar como todos os pássaros. Um jeitinho dos lábios para ser cotovia, outro jeitinho e voava-lhe um pintassilgo. Depois ria-se. Um riso cheio de rugas, cheio de vergonha de ter aquelas roupas de velho no seu riso de miúdo, há tanto tempo com aquelas pernas que não se podia esperar que não tivessem já uns buraquinhos comidos pelas traças, não é?...
Hoje, com um jeitinho de lábios deve ser vento a bater nas asas de passarinhos a sério. Como os outros todos, naquele lugar onde os homens vão caindo aos poucos, achamo-los velhos mas é só o casaco, só o casaco demasiado cheio de nódoas negras, nós não conseguimos ver-lhes o corpo mas eles sabem que, com um jeitinho de lábios, se assobiarem ainda podem ser pássaros...