12/23/2018

Alice


Faço-te uma vénia,
A dança é tua agora
E para mim só a certeza de os dias terem príncipio e fim.
Aperto a tua mão na minha 
para que sintas
a Mendiga,
a Núvem de tule,
o Anjo de asas quebradiças, chapéu preto,
o calor das lâmpadas nas pálpebras fechadas, azul, vermelho, escuro,
as costas dele, o suspiro dele, o sol na cama de gatos e cotão,
o fugidio recordar da luz na sala, pequenina, quase sombra, a selva de brincar cheia de folhas e elefantes…
A música. A música...
Aperto a tua mão na minha e caminhamos no frio do Natal, ainda não entendes nada mas
para que sintas.

6/12/2017

Escrevi-te. Como sei que escreverei muito tempo, mesmo só ao encostar-me na mesa da cozinha a sorver café quente e a ouvir os pássaros no pátio, a minha pele um ninho redondo de gente, mesmo só ao parar as mãos na roupa engomada e dobrada antes de arrumar, cheia de perfume e vapor.
Apetece-me dedicar-te todo um minuto, porque já foram todos teus e tudo era tão bonito assim.

Gil

Desci, de braço dado contigo, pelo menos um milhão de escadas
e agora que aqui não estás existe o vazio a cada degrau.
Mesmo assim foi breve a nossa longa viagem.
A minha dura ainda, já nem preciso
dos transbordos, dos lugares marcados,
das armadilhas, das humilhações de quem acredita
que a realidade é aquela que se vê.
Desci milhões de escadas de braço dado contigo
não apenas porque talvez com quatro olhos se veja melhor.
Desci-as contigo porque sabia que entre nós os dois
as únicas pupilas verdadeiras, embora tão esfumadas,
eram as tuas.

Eugenio Montale

4/27/2017

Alentejo

As rãs falam na sua língua de rãs, verdes, imóveis como nenúfares de música, o meu cabelo seca no sol e na almofada, deixa uma mancha de fresco e sabonete, alguns jasmins estremecem, algumas laranjas acabam de cair dentro da primavera, burros e grilos passeiam em lugares que não vejo, janelas azuis cheias de calor e telhas à espera de andorinhas.
As árvores com o barulho de passos na areia. Com o barulho de saias a girar.
Abelhas. 

4/26/2017

24 de Abril

Vês os meus pés a boiar na fotografia? 
Estou feliz.
Mas quem me dera ter-te conhecido mais tarde, quase velha, com a certeza de ter-te para sempre, a tua lágrima fácil num cinema de língua estranha, o teu corpo cheio de vapor ao pé do meu nesta água quente de banheira de hotel, apaixonado por mim e pela minha lágrima fácil em cinemas de língua estranha ou ruas com azulejos encardidos e cães mordidos pela solidão, lá fora todo um mundo à espera da nossa salvação, do nosso amor exemplar e mudo de crianças amachucadas de rugas que o tempo sem nós nos deixou, quem me dera ter-te conhecido mais tarde para esta asa insistente de mosquito com o teu cheiro me deixar em paz, sou quase velha e conheci-te há tanto tempo, vai-te embora, vai-te embora, vai-te embora...

4/02/2017

11 anos

Deitada no calor de pinhões e caruma da Caparica a mesma canção sobre cigarros, os olhos fechados. O meu corpo ainda sem nenhum desejo de fumo ou outro vício qualquer. A fingir fome.

3/14/2017



O cão deitado a molhar-me a perna de um bafo quente, cheio de pêlo de verdade, o cão encostado a mim como se eu fosse o mundo todo.
Um silêncio muito grande na casa onde entardecem em perfume os jasmins. 
Chega-se mais a mim o focinho a pingar de sono. Os bigodes que existem só na lâmpada que se espalha nas páginas do livro que não aprendo, não aprendo.
O cão aqui junto a mim como um casaco vestido.

2/07/2016

Bicho

Fintamos os minutos, esperamos ser crianças para sempre 
e um dia iremos à igreja, é certo que sim.
Mas sabes, 
eu tenho quase trinta anos e enquanto tu bebes um refresco em Turim 
eu apago a tua cara da minha com borracha e unhas, 
quando te encontrar hei-de lembrar-me vagamente dos teus olhos azuis, um formigueiro indeciso, 
hei-de passar por ti com o meu filho pequeno ao colo sem dirigir-te palavra.

De onde é que eu conheço aquela cara...

2/06/2016

Neste meu palácio vive o teu cheiro
e um ou outro cabelo perdido no sofá,
na almofada da cama,
um encardido de ires ficando comigo
dia-não
dia-não,
às vezes real e nú a respirar o frio como eu,
outras vezes um bicho maçador que sacudo da minha orelha,
uma cócega imaginária.

10/16/2015

A luz desaparece e leva com ela o azul da casa. Debaixo do candeeiro continua a cor do bule, só a cor do bule, o vapor de perfume do bule.
Ela encheu o copo de vinho, um copo grosso de vidro com uma flor vermelha, e bebe-o agora, nua na cadeira, só a cor do bule no resto da casa apagada, enquanto revê o barulho e o suor do seu corpo ainda um momento antes. A boca cheia de vinho, engole-o devagar, que não se ouça, que ele não ouça. O bule arrefece sem ser visto.
Puta. Disse ele.
Fode-me minha puta.

9/01/2015

Eu quero dizer-te. Que tu me fazes novo. Como quando pisávamos caruma e galhos em calções e botas de lama e costas pesadas, tu eras quase criança e cansavas-te como as tardes encaloradas, eu gostava de ti sem saber dizer como e tu usavas tranças e ainda um resto de infância, eu era um homem e sabia segredos que tu não sonhavas ao procurar o meu braço para descansar os pés do peso do teu corpo, ao deixar na lã do meu casaco o teu cheiro de margarida colhida, quente de sol, ao pedir-me com um risinho umas meias quentes que, eu quero dizer-te, te imaginava a calçar, sentada na beira da minha cama, quase mulher como agora.

5/27/2015

Jantar

Usa de mim o pedaço que quiseres, o que gostares mais, a minha inteligência ou o meu pescoço, usa e deita fora o resto, não deixes nada que me lembre que a minha cama é vazia e o meu coração açoitado, rasga-me em farrapos que não deixem estória nenhuma.

4/27/2015

Sem nos darmos conta acabámos por viver juntos, tu na Pena e eu na Estrela, algumas paragens de autocarro e muitas desculpas entre nós, ou era tarde, ou pesavam-me os olhos, ou então algum rabisco teu a aumentar o caminho entre as nossas portas, mas acabámos por viver juntos porque o teu avô morreu logo com o meu e eu e tu trocámos ser meninos com eles entre meias de leite e croissants e inundações de olhos no Restelo. Acabámos por viver juntos, eu fugia de ti e tu fugias de mim mas matámos a fome de contar estórias no mesmo escuro no mesmo cinema, não entravas na minha casa, não era preciso, fiz-me crescida a beijar-te a boca, sempre, mesmo quando não vivíamos juntos, e assim nunca nos deixámos. Nem que quiséssemos.

9/26/2014

Lá fora, o que era azul ficou sem fundo,
o que era barco e vela adormeceu,
o que era corpo de pé incendiou-se.
A minha janela.

6/08/2014

C.F.

Ontem escrevi-te, no meio do trabalho e da chuva,
Escrevi-te como se te visse ali, talvez
Comovido de ver-me mulher atarefada de pequeninos, talvez
Curioso, talvez
Silêncio....
Trago-te muito nos dias, como se traz tudo o que nunca se esquece e tudo o que se usa para ser gente.
Trago-te como uma mão essencial à sabedoria de mexer no mundo.

1/03/2013

2013

Este sofá mudou, não foi de sítio, foi de jeito. Eu estou aqui e doem-me as costas. O silêncio. 

Imaginei a cozinha cheia de sons e refogados e copos de vinho a escorrer pela garganta. Olho para ti. O sofá. Pareces triste. Eu com certeza estou à beira do rio. Pareces triste e apetece-me desvendar mapas do tesouro e perguntar se te vais embora um dia. Quer-me parecer que sim, ninguém vive assim com a cozinha apagada, a cheirar a mosaicos e limpo. Ninguém, talvez só eu e tu. Talvez... 

Doem-me os olhos de não chorar.

8/18/2012

Passam por mim. Tu dentro. Ela fora. E eu vou duvidando de ser eu.
O meu BI diz que tenho vinte anos. E uns trocos. Não sei...
Tantos anos atrás de uma água assim que se chorasse sem fim sobre o papel. Afinal afogou-me as palavras.

8/05/2012

Ainda não acredito.

5/18/2012

No teu sofá não serei mais. Uma criança, não serei mais. Sentar-me-ei, as nossas cabeças à mesma altura, as nossas mãos trazidas à tona do mesmo lodo. Terei café e mágoas para ti. No teu sofá serei uma mulher, uma mulher no meu canto antigo de criança e gatos curvada de joelhos demasiado grandes. Tenho a certeza que te entenderei menos, eras tão simples nos teus versos, pianos, rosas, na minha distracção sem altura sem anos...

3/09/2012

Esta suave Primavera que começa que se derrama luz no chão, como quando adormecia ao fundo da tua janela entre o gato e a tua roupa. Era simples assim, eu adormecida e tu ali, para sempre. 

12/19/2011

Tristes são os pombos com as patas secas, não sei se de frio se de maldade. O resto sou eu a apagar o cigarro na minha mão, curiosa de feridas. 

12/16/2011

Lembro-me de caírem botões sobre mim... foi o dia mais triste. Nesse dia passaste a ser para sempre meu e então eu fiquei sozinha para sempre.

11/05/2011

uma ousadia

Parece-me que voltei a encontrar-te, que má pontaria, logo agora, estou atrasada e não sei onde deixei a minha bondade, tenho a certeza que te usarei sem dó que te esgotarei de recortes e asperezas. Mas agora que me cruzei contigo agarro-te o pulso antes que vires costas, espera só um segundo, vou pôr um chapéu de homem e uma blusa encalorada para que fiques confuso e sugiras procurar-me, entender-me. Trago na carteira a fotografia de um palhaço velho preto e branco e olhos azuis, triste, vamos olhá-la, anda, eu gosto de palhaços e tu gostas de lágrimas, cruzamos os pés debaixo da mesa e, espera, encontrei-te. Não quero que me pagues o café e corras para o comboio, levas os meus pés ainda na bainha das calças, tu nem te apercebeste estavas com pressa e era só um café, e como é que eu vou sair daqui agora...

9/23/2011

Biblioteca

Um palhaço pintado, botões dourados nas mangas olhos grandes de peixe azul, sinto-me um palhaço pintado quando deixo a porta em roupas de Domingo e tento encenar que tropeço por acaso em ti na rua.

9/15/2011

nós

Eu e tu existimos só no suor de um bar apinhado de gente, no suor doente de demasiados copos de vinho, no suor do teu braço em volta de mim a ensinar-me a dançar. A voz treme-me por isso existes em mim, e a rua quando passas é uma noite embriagada para onde me atraso... Os teus dentes riem quando me descobres do outro lado da porta por isso existo em ti, nem que só por um instante à noite ou na noite que criamos para podermos dançar e depois amanhece e passamos só na rua e é só rua a rua.

7/05/2011

No Verão a terra ardia e as galinhas procuravam bichos de areia. O sol era uma bochecha cheia de vergonha escondida ao entardecer atrás da casa, ao lado da casa. A casa era a pequena das duas, pedra sem candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos e a fazer de todas as paredes uma noite cerrada. A casa cheirava a fumo e restos de almoço num balde, a casa cheirava a ela que depenava uma galinha cheia de bichos de areia, o cabelo branco que foi sempre assim para mim apanhado num rolinho, uns brincos de ouro?... A casa era escura porque não tinha candeeiro ou então era a tarde a encandear-me os olhos ou então era eu ser pequena e os meus olhos não perderem tempo com nenhuma escuridão, eu dormia na casa que era a grande das duas, que tinha escadas, que tinha quartos e camas de ferro, que tinha silêncios de sesta, eu dormia na casa que era branca enquanto as galinhas brincavam sem mim e eu sonhava com elas, com afugentá-las de asas abertas em frente aos meus sapatos, assustadas só o tempo suficiente para um pulo e depois a mesma moleza de penas a bicar o chão vazio. A minha mãe era pequena só um pouco menos que eu e calava-se de calor numa cadeira à porta da casa que era pequena que era de pedra que não tinha luz por dentro que tinha sol por fora. O meu pai... não me lembro. Dizia-me para não arreliar o cão. Os cães, o cão era o grande dos dois. O meu pai guardava-nos a todos para sempre numa cassete. O meu pai talvez voltasse com ele, magro corpo de boina mãos sujas cheias de amendoeiras poços fundos cordeirinhos brancos, sorriso bondoso malandro, eu era pequena não sei se sei o que seria a bondade.
As casas todas tinham portas com fitas de plástico para que não entrassem as moscas. As fitas de plástico também não deixavam entrar o calor...

6/21/2011

Vinte anos

A porta onde fomos engolidos pela lente, assustados como se tivesse dentes, agarrámos-nos as mãos e juntámos as cabeças, não me deixes não me deixes, e sorrimos como se isso nos salvasse da morte certa.

5/14/2011

Acho que. 
Gosto de.

4/26/2011

4/19/2011

Se não posso amar-te encherei então de pão a mesa, de uvas de café de vinho, de copos mais bonitos de nocturnos de Chopin, dobrarei direitas as toalhas, esticarei nas tuas pernas uma manta quente. Serei silenciosa enquanto escreves, bailarina quando me olhares, entre o cheiro do café, da cadeira de baloiço junto à janela. Se não posso amar-te pagarei o jantar e o taxi e tantas diversões quantas queiras até satisfazeres a tua curiosidade do mundo. Se não posso amar-te então esperarei pacientemente que voltes para fazer-te a cama de lavado, um copo de água à cabeceira, as cortinas abertas para que o outono entre sobre ti numa luz que terei planeado, pequeno palco onde te observo da demasiada distância de ser espectadora, nada mais que isso. Se não posso amar-te farei outra coisa qualquer, um interminável trabalho que me ocupe as mãos tão assustadas, se não posso amar-te então amarei o lugar onde és tu, a almofada ou o prato onde descanses.

4/04/2011

João e Maria

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?
                                 Chico Buarque

3/29/2011

Vê lá não acredites em mim, a noite está cheia de vinho e nuns lábios roxos não se confia, uma boca de aguarela canta desvairada e não sabe das palavras que diz, não acredites em mim mãos bonitas, não me apertes os pés com a manta com as meias com a roupa que vai escorregando que eu sou capaz de te segredar uma cantiga e levar-te para o fundo do mar numa concha de mãos, sereia que encanta um barquinho pequeno. Não acredites em mim que a noite quer tirar-me a blusa que a noite toca contrabaixo e entre o fumo dos cigarros que imagino pousados na mesa da cozinha eu danço como se em volta de uma seda e escondo de ti o que não quero que descubras ainda, encosta-te na cadeira e fuma que eu venho já.

1/31/2011

Disse o professor

"Antigamente morria-se em casas grandes com jardins, com criadas e tias solteiras. Agora morre-se voltado para a parede como um cão".

Palavras bonitas onde menos se espera.
Vontade de derrubar as paredes...

1/19/2011

Hoje durmo contigo, o teu tabaco na minha almofada.
Quando acordar só o meu cabelo será o perfume nos lençóis, foste embora.

1/15/2011

Bonito homem na mesa. 
Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver. Bonito homem na mesa, a rir e a derrubar copos de vinho, dentes brancos que não tingem com o passar das horas. Ela pousou o queixo na mão fechada e ficou a olhar para ele como se os gestos fossem mármores trabalhados, macios debaixo do frio de todas as coisas de pedra. Ela tentou sorrir de volta como fazem as mulheres, tentou acreditar nuns lábios vermelhos que não trazia na bolsa. Ela é baixa como as coisas pequenas que enfeitam os sítios pequenos, pequenina e curva, ela caminha nas pontas dos pés para quase não tocar no chão para quase ser como uma coisa que se sopra e se aninha noutro canto qualquer. Mas ontem ela desejou ser enorme, fazer barulho ao andar, rir alto como os demónios e ter uma boca grande e escancarada que engolisse o homem e o guardasse quieto dentro do peito junto às outras coisas preciosas. O bonito homem na mesa nem a viu nem soube que ela dança, às vezes, quando algum homem lhe oferece a mão ou a palavra. Ela ficou a olhar para ele sem olhar muito, não gosta que vejam nela o que ela está a ver e ninguém viu.

1/06/2011

Minha querida, quando o pó sussurrava e mulheres sem tecto guardavam borboletas no cabelo, quando a tua mãe era jovem como as margaridas e no teu chão nos sentávamos todos em volta de um espaço vazio de um fogo imaginado, quando punhas flores no teu cabelo para que a primavera nunca desaparecesse, quando os homens eram peixes que traziam no seu próprio corpo o brilho de todas as lâmpadas de todos os charcos debaixo de lua cheia, lembro a tua casa onde nos escondíamos do passar das horas ouvíamos repetida sempre a mesma música esperando que se tornasse verdade, enfeitávamos os nossos rostos de restos de coisas de restos de viagens de paisagens de cheiros de sujo, minha querida lembro a tua casa como se hoje fosse muito velha e a tua casa qualquer coisa impossível que aconteceu há muito tempo, guardada entre uma pilha de cartas apertadas num laço de cetim. O que é triste é belo, dizia ele, o que é triste é belo e hoje sou com certeza muito bela. E lembro-te, dezanove anos, todos os animais se empilharam muito alto para roubar um pedacinho da lua e o peixe no lago pensou se não a veriam mesmo ali a boiar na água...

1/03/2011

1 de Janeiro, 2011

Na casa quieta ouço nos vizinhos de cima o virar das horas, feliz ano novo engulo as passas de um trago. Peço que desapareça a caixa do armário com o seu cotão tão gentil, peço que me perdoem que batam à minha porta com um ano passado nos braços que eu prometo não o esbofetear não chorar no seu corpo magoado.
Homem, há muito tempo que não sou mais que uma diva encarquilhada em fotografias velhas, eu pensei que caberias num cubículo mas fui eu quem minguou até não ser mais que um vestígio de olhos enxaguados. Silêncio, só silêncio... e esta música velha de quando o mundo mudava só por existirmos nele, arrogantes criaturas cheias de versos. Eu não sou arrogante, que lembro eu de como pássaro rima com piano, búzio com papagaio de papel. Eu eu eu que anedota eu que roubo dos outros os risos que sorvo deles o começar de uma nova dança, eu que engulo de um trago as passas sem nada desejar, que desejar, risada seca como um caroço, eu que nunca irei salvar o mundo nem sequer deixar nele um lume que permaneça até o mundo acabar.

12/21/2010


Menino Triste, lembras-te de sermos felizes quando chorávamos? Como se as lágrimas fossem pérolas de usar ao peito, ríamos de cara molhada.
Quando o coração ainda batia...

11/27/2010

Apaixono-me com a facilidade de um cão vadio a quem afagam a cabeça.

11/25/2010

Gonçalo

Estás tão quieto, aí na mesa entre o que te atarefa, eu olho para ti e levo tempo, demoro-me em ti. Partiremos... Partiremos em breve e esta mesa não será mais a nossa casa, colheres e chávenas de onde se desenha fumo e traços de café até à toalha, partiremos tão já a seguir quem nem terei tempo de olhar para ti e, naquele sorriso que se estica apenas no imaginar do meu rosto, saber que houve instantes em que, distraídos, pensámos as tardes iguais, agarrámos o copo com qualquer coisa mais entre os dedos, tivemos saudades nossas sem sequer saber o que isso é.

11/09/2010

intervalo

Gosto de ver-te fumar, pelo vidro do alpendre, a mão esticada no ar o fumo fino como os teus dedos, o teu cabelo sem medo do vento. Encostas as costas no corrimão e fumas e eu fecho os olhos, gosto de ver-te fumar.

10/30/2010

Flash

O velhote vende línguas da sogra nos repuxos das rodas dos carros, entalado entre o alcatrão e o chapéu torto de chuva. Parece que faz sol nos olhos dele.

10/05/2010

O frio

Música com pássaros.
Quando o vento se impacienta lá fora e sacode para os meus ombros a cortina lembro-me das chávenas penduradas na cozinha todos os dias e de como de manhã os pardais se aventuravam nas migalhas do jantar. Fugiam ao ouvir-me, pesada de sapatos, pela janela amarela nunca fechada. 
E a chuva lembra-me os peixes à porta da tua casa.

Lemonade

9/07/2010

feira da ladra

Longe quando caminhávamos juntas, subíamos ruas escorregadias de areia e carris, um pão uma pêra, montras fechadas de sapatos cheios de pó e aranhas adormecidas, os teus cabelos eram tão compridos e havia uma nódoa no meu vestido, o tempo não tinha tamanho nenhum. Longe quando coleccionávamos a vida dos outros, postais e grafonolas, e eu não sabia ser triste ou natural, eu e tu éramos uma extravagância, nada mais que isso.
Sonhamos as estradas nesta manhã parecida, eu sou silenciosa e agradeço as esmolas, tu chegas carregada dos mesmos sacos e de outra igual a ti. Sorrimos. Eu deixei cair uma nódoa na saia. E porque não...

8/25/2010


Em Setembro a tarde sob um abat-jour, o frio primeiro doce. Esta música aconteceu há muito tempo era eu enorme ardia uma chaminha no bolso da minha camisa.
Ao longe, longe, deixo-te ir, que mais...

8/11/2010

Beirut, Sudoeste 2010


A primeira música.
O êxtase total.

7/30/2010


Belo, meu belo, preferia quando tinha saudade, quando as fotografias eram terríveis silêncios muito longe das pontas dos meus dedos, quando cada som tinha de ser calado antes que eu começasse a chover pelo corredor...

7/27/2010


Desprende-se uma doçura no teu corpo depois de o cansaço te domar, silencioso, os dedos finalmente sem perícia de desabotoar-me as costas. Espero de ti o mesmo cuspo o mesmo interesse minucioso e curto que todas as coisas belas de colecionar, mas então a doçura no teu corpo, tão surpresa que ouso descansar a cabeça no calor da tua manga, esconder a cara toda no calor da tua manga, só um pouco, só enquanto é verdade...

7/16/2010

roubado do redondo



Do meu preferido...

7/08/2010


Pouco penso nestes tempos. Atiro-me ao rio como se fosse líquido e não me quebrasse o corpo, atiro-me do parapeito como se tivesse asas emprestadas de beija-flor. Que me importa que amanhã seja o dia em que te mostrarei quem sou sem farsa, passará depois logo a seguir logo um instante e certamente ficarei sozinha. Esbanjo a alma em coisas de nada... Vinho, pêssegos, pedaços de harpa no escuro quente do quarto. É pequeno o meu corpo ao lado de um corpo de homem, caminhamos lado a lado dou-te a mão, quero ser a tua criança, quero caber-te no canto do cotovelo e acreditar em ti como num herói, quero ser a tua criança adormecida nos lençóis tocada com a graça de um amor inexplicável pela minha pequenez de figura.

7/05/2010

a manhã

De manhã perturbo os bichos que dormem nos recantos da casa, criaturinhas silenciosas que partilham o podre das minhas gavetas e que fogem ao meu tactear cego.
Há uma dança de pássaros sobre os telhados, espreguiçam as asas em círculos vertiginosos, ensurdecedores, ocupam o céu todo...

7/03/2010

Sou uma tábua onde sentes coisas impossíveis, a manhã chega em silêncio para nós, chega sempre em silêncio para nós, tu és um búzio onde sinto coisas proibidas, ponho-te junto ao ouvido e contas-me de mim, cantas-me de marés em mim onde já balouçavas muito antes de eu chegar.
Fica.

6/23/2010

Atrás da porta posso ser um animalzinho só de pele, lânguido pelos cantos pelos bancos pelos tampos das mesas, suave como uma escama como um peixe transparente, um farelo de perfume que deixo colado na fechadura e que espreita silencioso o corredor. As tílias perdem pestanas amarelas pela rua, cheirosas, o som das folhas a passarem nos dedos dos rapazes que estudam no café, o tabaco que desenha sereias brancas, e os pássaros, os pássaros sempre de férias...

à espera...


...
así te amo porque no sé amar de otra manera,
sino así de este modo en que no soy ni eres,
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía,
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.


Pablo Neruda

6/21/2010

Penso, num dia mau

quando eu for muito velha haverão homens que continuarão a ser imortais, e tudo o que sinto hoje será farsa maltrapilha.


6/19/2010

6/14/2010


Deixa-me pôr-te a mão na barriga. Hoje que o escuro cheira a tílias e a lua é um baloicinho amarelo, gigante, empoleirado nas chaminés.

6/08/2010

epifania


As calças sem amaciador ficam de pé sozinhas...


6/06/2010


Deixo escrito: tudo é tão bonito quando eles estão comigo.




6/03/2010

Sei o que fazes quando chegas a casa. Sei como tacteias o escuro, sei como o teu suor se mistura na luz impúdica que vem da rua até ao chão, sei como o chão é silencioso e te apanha o vestido escorregadio, sei como atas a boca para não te descobrirem, para não te ouvirem no teu esconderijo no teu segredo, sei como se ensopa o teu cabelo, como mordes fios de cabelo quando tentas não falar, sei como os teus músculos se encrispam, mulherzinha...

5/31/2010

Há um tempo para ficar quieta. Para recostar o corpo num sofá mole e fechar os olhos e sentir o cheiro dos frutos ainda verdes lentamente adultos debaixo do sol. Para descobrir sardas no nariz, conchas cheias de brincos e pedras verdes na gaveta, saquinhos de pano de ganchos e ervas secas, e as paredes são sempre tão cheias do que não ousamos contar a ninguém. Há um tempo para ficar sentada à mesa ver a luz mudar na rua, distraída, sem ver a luz mudar na rua, distraída, há funis em cordéis debaixo de toldos e cerejas nos becos, engraçado, funis em cordéis e cerejas, como descrevem bem a minha cidade.

5/17/2010

Álbum

Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.

5/08/2010

Balada de Despedida do V ano Jurídico

Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.

5/02/2010

faixa um

Esta música é tua, menino.
Quando daqui a muito tempo formos velhos esta música será tua, e a tua casa terá gatos e hortelã como hoje. A tua casa será azul como hoje e eu dentro dela com vinte anos, eu dentro dela adormecida no sofá, pequena num cantinho, a cabeça tombada em paz e o incenso a desfazer-se em rápidos véus, os gatos, a música que é tua. Tranquila casa, tranquila casa de mestre...

4/26/2010

Colégio Vasco da Gama

Na minha escola havia o homem com poucos dentes que cuidava as rosas, botas de borracha, e que nos levava em molhinhos de gente pequena a ver os coelhos e os porcos. Senhor Alexandre.
O senhor Elias era mosqueteiro de livro de espadas, bolsos cheios de trocos para chocolates, estórias de encantar garotos e mãos miúdas de podar galhinhos. Sabia o nome de todas as flores.
Havia um homem do lixo sujo e ridículo, não me lembro de gostar dele, não me lembro de nada na sua cara que não sempre o mesmo pó o mesmo riso a voz alta.
Na escola havia a senhora da sineta, uma sineta de verdade pesada e grande que nos empurrava de uma só vez para dentro da sala, havia pássaros e pinheiros e areia e formigas no chafariz e bichos de conta que escondíamos nos bolsos e tanta gente a quem nunca poderei apertar a mão e pedir desculpa pela minha então magra idade, ainda tão indiferente a tesouros.

4/15/2010

Mas afinal é a minha casa, a minha casa é um circulo de giz com sapatos e bonecas dentro e tem tantas janelas como se não tivesse paredes, só o céu e a chuva que de repente fez uma cortina de pano grosso em frente à mesa onde me sento. A minha casa tem tantas janelas como se fosse rua e não houvesse janela nenhuma, só o tremer do chão com a passagem de um autocarro, a voz do homem do lixo à meia-noite e um bocadinho mais, a trovoada.
Chove sem frio. Desmoronam-se coisas barulhentas no céu. As cidades fazem silêncio nos dias de trovoada...
Vou sentir falta da minha casa, quando daqui a pouco me for embora.

Sonhos





4/12/2010

Deito-me cedo. Nada mais me espera depois de fechar a porta de casa. O pó dos livros. Os cactos sobrevivem no meu alheamento. O pão que como a olhar a rua, a noite a chegar aos vidros dos carros.
O silêncio das coisas que são nossas e que não nos incomodam o adormecer.
Na minha rua alguém toca saxofone e as árvores são velhas e estão em flor.
Um dia partirei e terei de inventar tudo de novo. Erguer a minha casa do pó. Escolho um figurino e todos acreditarão. Dar a mão um estranho. Espero partir, partir...
Amargo na boca... Por isso apago a luz e deito-me cedo.

3/24/2010

Os velhos






são um livro de estórias.
O hospital está cheio de estórias assim.

3/05/2010

Alice in wonderland

Antes do pequeno-almoço acredito em pelo menos seis coisas impossíveis:

A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.

3/03/2010

à noitinha




Fechem os olhos...

2/19/2010

"Ana, o que é que eu te posso dizer..."

O meu instrutor.
Eu realmente não sei conduzir.
Exame a 5 de Março.

2/16/2010

a menina no banco de trás

Vejo pelo vidro, o cirurgião demora a lavar as mãos, as suas mãos não tocam nada, nada mais, aguardam no ar, alguém traz as luvas, o cirurgião aguarda a sua entrada em palco e no fim pousa a faca e sai, agradece ao público e sai, o cirurgião não toca em nada. Eu não toco em nada, eu aguardo o acender das luzes, a última música para sair da sala sem tocar em nada, o ar quente repetitivo dentro da máscara. Eu corro eu tropeço eu sento-me e respiro fundo eu erro às vezes não me engano, eu sorrio eu engulo vontade de chorar, eu toco mãos àsperas e ouço o ar encher de folhagem um peito desapertado para mim, eu ouço o sangue correr, eu ouço o coração bater, bater, um tamborzinho longínquo. Eu ouço o primeiro choro de um bebé no frio de estar vivo. Eu chego cedo de livro na mão, sento-me num sofá, lá fora chove, demasiado cedo só os loucos deambulam entre as cadeiras e o miúdo que enche de água a máquina dos cafés. Escondo-me num canto e aqueço as pernas com o casaco, os loucos pedem uma borla no café e arrastam-se de volta ao quarto, no hospital todos os pijamas são iguais, todos os cabelos são iguais, sujos e amachucados, todas as caras são iguais, pequeninas e amachucadas. Terríveis os corpos cheios das suas velhices, cheios dos seus enganos, cheios de vergonha e eu, e nós invasores de todos os segredos bem guardados, as nossas mãos que desnudam tudo, as mãos do cirurgião que não tocam em nada, que despedaçam um corpo inteiro. Os olhos de todos os velhos são passarinhos molhados, eu engulo vontade de chorar e ouço-os respirar, encher o peito de folhagem sibilante, ouço o coração bater, tamborzinho longínquo, longínquo, perdido... E eu quero afundar-me no mais sujo de um homem e encontrar-lhe os olhos suplicantes, e apertar-lhe as mãos, e ouvir-lhe a vida desmoronada, escavar fundo o belo de um corpo apodrecido, senão como seríamos poetas.

1/26/2010

Espelho Meu


Eu!
Eu!
Eu!

Sou eu!

Sou
eu?...

1/22/2010

Eu tenho de estudar.
Eu tenho de sair para jantar numa sala cheia de cigarros.
Demoro-me num copo de cerveja e numa risada sem importância.
Demoro-me mais.
Eu tenho de estudar.
Eu encontrei quem me faz rir e demoro-me mais numa garfada de bolo.
Eu tenho de estudar.
Mas encosto o corpo na cadeira e conto histórias mirabolantes a uma plateia de olhos esquecidos de terem de estudar. Eu tenho de estudar.
Mas a música tão bonita.
Mas o novelo de lã caido junto da cama.
Mas os livros cheiram a estórias.
Mas maçãs na prateleira da cozinha.
Mas vestidos para amanhã no armário, tantos.
Mas homens e gatos em janelas lá fora.
Mas ainda é tão cedo.
Mas o tempo é tão rápido que nem chego a percebê-lo.
Mas eu tenho de estudar.
E agora?

1/21/2010

parabéns

Hoje reencontrei o postal. Dentro da cabine ninguém telefona para Paris, a Dona Marta diz que está farta, Outubrodedoismilequatro.
Hoje toquei o meu velho amigo, cordas roucas velhas. Qualquer coisa remexe-se dentro dos meus olhos, um inverno um ramo seco torcido, um sorriso de velho nú envergonhado, umas bochechas de menina pintadas com um coto de baton.
Hoje reencontrei o postal, às vezes tudo muda e nós ainda distraidos dentro de postais antigos.

12/13/2009

Hypatia

Deixa-me ser como ela, doce mulher de acreditar em estrelas, voz tranquila, pensar irrequieto medroso de cair em armadilhas, deixa-me crer apenas nas estrelas e no seu lento passeio de carrousel, deixa-me duvidar de tudo o resto mas procurar, procurar, acreditar no que ainda não sei!

Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.

11/30/2009

Eu era tão feliz, tão feliz que nem sabia que era feliz, não precisava de saber não precisava de pensar, cabia-me no corpo sem folga ou beliscão.
Os dias agora mordem-me, enchem-me o agasalho de nódoas negras.
Quem inventou que não se pode voltar ao que já acabou? Que depois de hoje vem amanhã e que ontem só existe no pó das fotografias?
Será que todos eles, deitados nas suas camas e no seu respirar ofegante, sentem este miúdo que eu sinto dentro, trancado à força num quarto escuro de castigo sem entender porquê, quem inventou que temos de ser grandes, e quem nos ensinou a caber num corpo tão humilde de coisas magníficas, tão envergonhado de sonhos que nos esmagam quem foi que eu levo comigo de mão dada, tapo-lhe os olhos e tiro-lhe as meias, debaixo dos pés ramos aguçados, folhas que crepitam, um riachinho frio uma joaninha esmagada...
Sentes? Sentes?...
Lisboa tem uma luz. Lisboa cheira a cafés apressados e bacalhau empilhado em caixotes, alperces secos, retrosarias de veludos empalidecidos, lisboa tem chão que escorrega de chuva. Lisboa tem os velhos que apregoam lotaria e mulheres que cantam imaginando uma voz que já perderam. Lisboa tem homens que dormem fora das montras, tem negros em longas cores, tem marinheiros com pernas de pau, com acordeãos, com silêncios compridos como ecos. Lisboa tem as pedras ao pé do rio molhadas de lodo, tem poemas velhos ainda cuspidos em algumas sombras. Lisboa... Os últimos sabedores de todas as estórias, engraxadores de sapatos vendedores de castanhas, loucos em mantas mulheres carregadas de ouros de plástico. Lisboa traquina...

11/23/2009

3 quilos e 180 gramas

Hoje vi nascer um bebé. Pela primeira vez...
E não importa o que dizem, não importa que a barriga seja cortada, não importam os sacos de soro pendurados, não importa que à volta todos tenham máscaras e toucas verdes, não importa nada, nada tira a maravilha a um bebé pequenino que sai para o ar frio do dia e grita, nada tira a maravilha do choro da mãe ao ouvir o grito do seu bebé, nada nunca foi tão bonito como ver nascer um bebé.

11/17/2009

A estória dela

Em nova, ela sonhava com os filhos a engordarem-lhe a barriga, sonhava com o marido a pedir o jantar na mesa, um copo de vinho e uma côdea de pão, sonhava com os linhos engomados e pão de ló a cheirar no forno, uma cadeira de baloiço onde embalar os pequenos, sonhava com o cansaço de um dia inteiro no corpo, dorido como uma porta que range. Em nova, ela tinha os cabelos longos numa trança ao fundo das costas, penteava-se antes de todos acordarem, lavava-se numa bacia e vestia a camisa deixada nas costas da cadeira, cortava o pão na cozinha e depois esperava encostada na porta aberta da rua, via a noite amanhecer e o nevoeiro esconder-se nos ninhos e nas ervas, via os filhos lambuzados de doce e bigodes de leite, e despreocupava-se de outros dias que não aquele, tão aconchegado de vozes na casa.
Em velha, ela sentava o neto no colo e tacteava-o no escuro, no seu escuro. E esperando, encostada na porta, ela não via nada.

11/13/2009

simples

Derreter chocolate em banho maria.
Passar o dedo no fundo da panela e ser outra vez um miúdo lambuzado.
Aquecer os pés debaixo do aquecedor de óleo.
Enrolar o xaile no pescoço, apagar a luz e sair.

11/12/2009

Experimento as minhas mil caras. Hoje escolho esta. Todos parecem ter encontrado o seu cubículo, no colchão na mesa do café, eu dobro a roupa com paciência e arrumo-a direita na gaveta, as horas são mais lentas para mim, não duvido, passam como um comboio a vapor embaciam os vidros, o velho aquecedor de óleo é o corpo quente na minha sala. Imagino as vozes e os aplausos, a mão a pentear-me o cabelo junto ao pescoço, mas as olheiras crescem-me ácidas e as mãos impacientes de esbofetear, dobro a roupa lenta, rego os cactos, páro de pé em frente à janela e confirmo que chove na luz riscada do candeeiro, sento-me e espero o cuco do relógio no seu assobio de embalar, peço permissão para acabar o dia, peço por favor. Ninguém me conheceria, corcunda e amarelecida agora, experimento as minhas mil caras e hoje esta escolhe-me, escolheu-me já há muito, recordo agora... e entranha-se podre na minha pele até nada mais restar dos meus vinte anos.

11/08/2009

Ana

Ana foi o que sobrou de mim. Ana foi a nódoa que ficou quando te esfreguei dos meus olhos, quando a última roupa cheirou a primavera na corda, quando os envelopes envelheceram debaixo da porta. Sobrou Ana, em todas as letras que me arranham as mãos. Serei Ana, sabes que sim. Foi o que sobrou de mim, não de ti.

11/07/2009

Alongo-me como um bocejo. Não sei o que dizer, era simples antes, lágrima ou riso, meninas imaginadas de cabelo de papel, marinheirinhos na água ensaboada da banheira. Hoje enrugo-me na flanela da cama e penso toda uma vida que não consigo lembrar ou sonhar, hoje sou eu só, incapaz de amanhã. Eu tenho palavras, entendes? Mas montá-las ao acaso? Esperar que não se despenhem de manhã se o vento for demasiado desleixado?... Eu tenho uma máscara de rir que uso quando não sei que cara vestir. Descobrem-me a careca quando procuro as palavras, engasgo-me e coro. Eu não consigo escrever, eu queria ser mais que este nevoeiro de cabelos e rouquidão, queria ser mais que um livro de selos colados tortos, corpo torto que me sirva.

11/06/2009

Cresce-me um sonho dentro da barriga, aperta-me com muitos dedos faz-me cócegas, é muito de noite quero sair, quero nadar quero fugir, quero molhar o papel de uma garrafa quero boiar para a outra ponta do mar quero um papagaio, quero abraçar-te, quero sapatinhos para pés pequenos, quero trancar-me com um estranho quero entornar vinho na blusa e rir-me com dentes lilás, quero sentar-me num banquinho na varanda e esperar, esperar que uma tempestade me encharque e me adormeça de frio, quero rir até me engasgar até chorar, quero pousar a cabeça no mosaico fresco e amainar a febre, quero quero oh eu quero tanto!... Quero um nó na garganta, quero ser descarada, descaradamente cheia de rir!

Na minha cabeça um navio fantasma. Tanto mundo que nunca verei!...

11/05/2009

a sagração da primavera

À saída do cinema apertam-se os botões do casaco. Os cheiros misturam-se, perfume e terra, e brandy. Poderia dormir no cinema, afundada no veludo coçado de uma cadeira, um dedo de êxtase pendurado no lábio, ignoro o cabelo fugido do lenço, os olhos quietos na fita, metros e metros de fita, na tempestade da orquestra. Pertenceria ali, a pérola no lobo da orelha, as rosas brancas, os copos de pé alto, o cetim negro na cintura. As mãos do homem no piano furiosas, na pele furiosas, o cetim vincado, a manhã incolor de chuva... À saida do cinema demoro-me, fecho os olhos e respiro o último guincho do violino, pertenceria ali, a delicadeza de um papel de parede, frascos de vidro no toucador, ser uma mulher cheia de sonhar, uma mulher arrogante, dedos finos de linho que duvidam escondidos. À saida do cinema trago uma estória no corpo e talvez o meu rosto mude talvez o meu corpo se cubra de cetim negro, liso, e um chapéu de côco pequeno.

10/24/2009


DEVAGAR É QUE NÃO SE VAI LONGE.

10/22/2009

navegar é preciso

Quarto frio. Candeeiro de pé alto, abat-jour grande, luz mole na manta de lã. Lá fora anoitece e esfria, as minhas mãos frias e a bossa nova. Hoje não quero escrever, hoje quero contar, tenho um quarto redondo feito de janelas onde o dia se apaga e a cidade se acende debaixo dos meus sapatos, muitas luzes em muitas escadas e janelas, a minha luz de pé alto junto à cabeceira da cama as minhas meias de casa, azuis com riscas vermelhas, o meu xaile que me encontrou e me pediu neve, um dia, há tanto tempo. A minha janela são muitas é um postal. As pernas no quente da manta, a caneca de leite bebido, os óculos o pijama, é quinta-feira quase de noite, silêncio, tanto silencio em casa a cozinha sem tilitar de colheres, conforto da casa só minha, sonhos de tigelas todas diferentes, novelos de lã pelo chão, gatos, choros trapos molas de roupa açúcar e farinha, música baixinho, hoje é quase assim, feliz dia quase-feliz, quieto e morno, um cantinho de janelas a minha casa o meu quente num quarto frio.
Paz que não sei descrever.

10/12/2009

O que se sente


A saudade sente-se por baixo do queixo, naquele pedaço de face que assentava no teu ombro e te cheirava e te sorvia o calor do corpo.



10/01/2009

Se eu fosse uma menina teria um submarino debaixo de uma roseira, um submarino azul feito de rodas de bicicleta e pratinhas de chocolates e um volante um chapéu-de-chuva para os pingos. Teria brincos de cereja e berlindes e terra escondidos no bolso. Quando era menina sentavam-me em cima de uma lista telefónica para jantar, no fim escondia-me debaixo da mesa para os óculos da minha avó não me encontrarem, e espreitava os embrulhos antes do natal chegar. Quando era menina fazia peixinhos de areia e aviões com a palma da mão, a avó tinha um robe verde com botões redondos e caracóis cinzentos e o avô gostava de praia. A minha praia era um alguidar de água fria, a mãe acordava-me no comboio e comprávamos pão numa carrinha à porta da estação, o pai transformava madeirinhas numa casa de bonecas, o chão da cozinha era vermelho... A tia era uma menina de trapos e ria na máquina da costura. O tio era careca. O tio é careca. Eu não tenho berlindes nem um avião.

9/24/2009

como uma mulher pode ser um pássaro...



e o maestro no final, tão encantado!...

9/07/2009

Se calhar é mesmo assim:
às vezes fazer força para puxar a boca para cima, as costas para cima, as meias para cima e enlaçar os atacadores e sair para a rua. Fazer uma força fingida, um sorriso de palhaço cheio de vermelho, cheio de alfinetes para não cair, bem seguro às bochechas às orelhas para não se mexer do lugar, para nenhuma lágrima conseguir romper. E abrir bem os olhos para o vento entrar e secar os vidros molhados. E abrir bem os olhos, nos carros os meninos põe a mão de fora para brincar aos soldados com o vento, os campos de arroz envelhecem amarelos, a areia da praia tem conchinhas partidas como nós, o mar arredondou-lhes os espinhos, conchinhas macias agora...

9/02/2009

até já


Há um lugar onde seremos sempre. Eu e tu.
Há uma árvore de mãos onde as nossas nunca vão perder-se, onde as nossas mãos suarão juntas, amarelas, vermelhas, queimando a parede de uma noite de vinho e risos demasiado altos, demasiados cheios de asas, demasiado novos... O teu chapéu castanho está na porta. Pacotinhos de açúcar. Papéis.
Era uma vez, acendeste velas num coração de prata e disseste-me
Abre os olhos...
A primeira vez que nevou foi contigo. A última vez que nevou foi contigo. A primeira vez que morei num sofá azul foi contigo, muitas vezes a minha roupa e a tua pingaram juntas no estendal, a segunda vez que amei amei-te, uma vez saimos juntos do comboio e tivémos medo de dar a mão, a última vez que fiz tudo foi contigo, parece-me, visto daqui... Tu num quadradinho de papel de cordel pendurado no nada, a última vez que me vi foi contigo. Olho agora, eu num quadradinho de papel de cordel pendurado, mais nada.
Tenho uma parede cheia de estórias em que tu querias que eu voasse. E eu era tão pequena e tão certa de conhecer todo o meu tamanho todos os meus cantos toda a força da minha voz e rasguei as nossas asas as nossas pernas os nossos pés os teus olhos o teu choro eu ri-me. Eu ri-me. Eu ri-me.
Os meus dedos deslizaram nos novelos como no teu cabelo e corri nas mãos um chapéu inteiro para ti, Quando nevar vais lembrar-te de mim? Aquece as orelhas com o meu chapéu, deixa-me sentir o teu cabelo, o teu cabelo é fino e loiro, o teu cabelo não cheira a nada, o teu cabelo pica-me as bochechas quando adormeço na tua almofada. O teu cabelo continua nas minhas mãos mesmo depois de teres ido embora. Não faz mal.
Desfio a tua cara na minha cabeça, os teus gestos, as tuas ninharias que não consigo chamar de nome nenhum, vou mais longe, quando éramos só eu e tu e despediamo-nos calados à porta do quarto e os teus braços pareciam ser parte do meu próprio calor, volto atrás, corro para a frente, não me lembro, vejo outra vez, revejo-te, revejo-me em ti e pinto peixinhos nas minhas bochechas molhadas com lápis de cera, é o que fazem as crianças, não é? Pintam estórias de princesas com lápis de cera...
Nós não cabemos aqui... Nós... nós, faz eco no que sobra desta folha em branco, nós não cabemos aqui, só o nosso respirar tinge a mesa como um tinteiro entornado e empapa-me as mãos, a gola da camisa, os olhos turvos como um aquário cheio de musgo e conchinhas pontiagudas. Há uma árvore onde caberemos, alimentada de olhos que lerão as nossas palavras, Uma mimosa, carregada de mãos, não poderemos ver mas crescerá, crescerá, alguém adormecerá na sua sombra...

Caberás numa caixa. Prometo-te.

9/01/2009