
Há um lugar onde seremos sempre. Eu e tu.
Há uma árvore de mãos onde as nossas nunca vão perder-se, onde as nossas mãos suarão juntas, amarelas, vermelhas, queimando a parede de uma noite de vinho e risos demasiado altos, demasiados cheios de asas, demasiado novos... O teu chapéu castanho está na porta. Pacotinhos de açúcar. Papéis.
Era uma vez, acendeste velas num coração de prata e disseste-me
Abre os olhos...
A primeira vez que nevou foi contigo. A última vez que nevou foi contigo. A primeira vez que morei num sofá azul foi contigo, muitas vezes a minha roupa e a tua pingaram juntas no estendal, a segunda vez que amei amei-te, uma vez saimos juntos do comboio e tivémos medo de dar a mão, a última vez que fiz tudo foi contigo, parece-me, visto daqui... Tu num quadradinho de papel de cordel pendurado no nada, a última vez que me vi foi contigo. Olho agora, eu num quadradinho de papel de cordel pendurado, mais nada.
Tenho uma parede cheia de estórias em que tu querias que eu voasse. E eu era tão pequena e tão certa de conhecer todo o meu tamanho todos os meus cantos toda a força da minha voz e rasguei as nossas asas as nossas pernas os nossos pés os teus olhos o teu choro eu ri-me. Eu ri-me. Eu ri-me.
Os meus dedos deslizaram nos novelos como no teu cabelo e corri nas mãos um chapéu inteiro para ti, Quando nevar vais lembrar-te de mim? Aquece as orelhas com o meu chapéu, deixa-me sentir o teu cabelo, o teu cabelo é fino e loiro, o teu cabelo não cheira a nada, o teu cabelo pica-me as bochechas quando adormeço na tua almofada. O teu cabelo continua nas minhas mãos mesmo depois de teres ido embora. Não faz mal.
Desfio a tua cara na minha cabeça, os teus gestos, as tuas ninharias que não consigo chamar de nome nenhum, vou mais longe, quando éramos só eu e tu e despediamo-nos calados à porta do quarto e os teus braços pareciam ser parte do meu próprio calor, volto atrás, corro para a frente, não me lembro, vejo outra vez, revejo-te, revejo-me em ti e pinto peixinhos nas minhas bochechas molhadas com lápis de cera, é o que fazem as crianças, não é? Pintam estórias de princesas com lápis de cera...
Nós não cabemos aqui... Nós... nós, faz eco no que sobra desta folha em branco, nós não cabemos aqui, só o nosso respirar tinge a mesa como um tinteiro entornado e empapa-me as mãos, a gola da camisa, os olhos turvos como um aquário cheio de musgo e conchinhas pontiagudas. Há uma árvore onde caberemos, alimentada de olhos que lerão as nossas palavras, Uma mimosa, carregada de mãos, não poderemos ver mas crescerá, crescerá, alguém adormecerá na sua sombra...
Caberás numa caixa. Prometo-te.