5/17/2010

Álbum

Poderia viver só de belo, sentada na cadeira virada para as janelas a contar estrelas em cada vidro, apenas, ensurdecer de música, um copo de água com dedadas minuciosas.
Um dia houve em que os homens cantaram debaixo de lua e sal, garrafa na mão marinheiros, era eu ainda acabada de começar, cabeça desgrenhada de criança cheia de pó, longa viagem o cansaço caído no chão debaixo de lua e sal, vi gente dançar, vi gente dançar, vi gente lançar-se ao mar sem medo de ter corpo, vi gente dançar.
Repito-me. Em frente ao actor lembro quando também eu ardia e transpirava as luzes escuras do palco e a mentira era comovente como uma estória antiga. Quase verdade, não fora a luz demasiado bela, azul, as crianças penteadas em golas de renda, loucos com mãos de cetim, velhos trapezistas, pó de arroz em lufadas brancas nas cortinas... Volto a dizer, há música que não ouso escutar, é outono debaixo dela há risos debaixo dela sem sapatos nas folhas que se partem, quero partir para nunca mais voltar, sou um pássaro estilhaçado.

5/08/2010

Balada de Despedida do V ano Jurídico

Da primeira vez furei a multidão, era tão pequena, tão orgulhosa na minha capa negra. Fechei os olhos e sorri, tanto tempo pela frente ainda...
Hoje traço a capa e sei que em breve partirei. E cada música tem palavras que conheço bem, íntimas, aconchegadas em mim como a minha capa negra. Tu ouves mas não estás aqui, não sabes que não se respira até ao último acorde, medo que seja já a última vez.
Da próxima vez será a minha última serenata.

5/02/2010

faixa um

Esta música é tua, menino.
Quando daqui a muito tempo formos velhos esta música será tua, e a tua casa terá gatos e hortelã como hoje. A tua casa será azul como hoje e eu dentro dela com vinte anos, eu dentro dela adormecida no sofá, pequena num cantinho, a cabeça tombada em paz e o incenso a desfazer-se em rápidos véus, os gatos, a música que é tua. Tranquila casa, tranquila casa de mestre...

4/26/2010

Colégio Vasco da Gama

Na minha escola havia o homem com poucos dentes que cuidava as rosas, botas de borracha, e que nos levava em molhinhos de gente pequena a ver os coelhos e os porcos. Senhor Alexandre.
O senhor Elias era mosqueteiro de livro de espadas, bolsos cheios de trocos para chocolates, estórias de encantar garotos e mãos miúdas de podar galhinhos. Sabia o nome de todas as flores.
Havia um homem do lixo sujo e ridículo, não me lembro de gostar dele, não me lembro de nada na sua cara que não sempre o mesmo pó o mesmo riso a voz alta.
Na escola havia a senhora da sineta, uma sineta de verdade pesada e grande que nos empurrava de uma só vez para dentro da sala, havia pássaros e pinheiros e areia e formigas no chafariz e bichos de conta que escondíamos nos bolsos e tanta gente a quem nunca poderei apertar a mão e pedir desculpa pela minha então magra idade, ainda tão indiferente a tesouros.

4/15/2010

Mas afinal é a minha casa, a minha casa é um circulo de giz com sapatos e bonecas dentro e tem tantas janelas como se não tivesse paredes, só o céu e a chuva que de repente fez uma cortina de pano grosso em frente à mesa onde me sento. A minha casa tem tantas janelas como se fosse rua e não houvesse janela nenhuma, só o tremer do chão com a passagem de um autocarro, a voz do homem do lixo à meia-noite e um bocadinho mais, a trovoada.
Chove sem frio. Desmoronam-se coisas barulhentas no céu. As cidades fazem silêncio nos dias de trovoada...
Vou sentir falta da minha casa, quando daqui a pouco me for embora.

Sonhos





4/12/2010

Deito-me cedo. Nada mais me espera depois de fechar a porta de casa. O pó dos livros. Os cactos sobrevivem no meu alheamento. O pão que como a olhar a rua, a noite a chegar aos vidros dos carros.
O silêncio das coisas que são nossas e que não nos incomodam o adormecer.
Na minha rua alguém toca saxofone e as árvores são velhas e estão em flor.
Um dia partirei e terei de inventar tudo de novo. Erguer a minha casa do pó. Escolho um figurino e todos acreditarão. Dar a mão um estranho. Espero partir, partir...
Amargo na boca... Por isso apago a luz e deito-me cedo.

3/24/2010

Os velhos






são um livro de estórias.
O hospital está cheio de estórias assim.

3/05/2010

Alice in wonderland

Antes do pequeno-almoço acredito em pelo menos seis coisas impossíveis:

A Lua quando cresce é um sorrisinho de gato matreiro
A Lua cheia é um lencinho de renda que voou
Durante a noite as bonecas brincam sem eu ver
O nevoeiro é o sol vestido de tules de noiva
Nos relógios de cuco há alguém pequenino que assusta o pássaro às horas certas
Amanhã passarei o exame de condução.

3/03/2010

à noitinha




Fechem os olhos...

2/19/2010

"Ana, o que é que eu te posso dizer..."

O meu instrutor.
Eu realmente não sei conduzir.
Exame a 5 de Março.

2/16/2010

a menina no banco de trás

Vejo pelo vidro, o cirurgião demora a lavar as mãos, as suas mãos não tocam nada, nada mais, aguardam no ar, alguém traz as luvas, o cirurgião aguarda a sua entrada em palco e no fim pousa a faca e sai, agradece ao público e sai, o cirurgião não toca em nada. Eu não toco em nada, eu aguardo o acender das luzes, a última música para sair da sala sem tocar em nada, o ar quente repetitivo dentro da máscara. Eu corro eu tropeço eu sento-me e respiro fundo eu erro às vezes não me engano, eu sorrio eu engulo vontade de chorar, eu toco mãos àsperas e ouço o ar encher de folhagem um peito desapertado para mim, eu ouço o sangue correr, eu ouço o coração bater, bater, um tamborzinho longínquo. Eu ouço o primeiro choro de um bebé no frio de estar vivo. Eu chego cedo de livro na mão, sento-me num sofá, lá fora chove, demasiado cedo só os loucos deambulam entre as cadeiras e o miúdo que enche de água a máquina dos cafés. Escondo-me num canto e aqueço as pernas com o casaco, os loucos pedem uma borla no café e arrastam-se de volta ao quarto, no hospital todos os pijamas são iguais, todos os cabelos são iguais, sujos e amachucados, todas as caras são iguais, pequeninas e amachucadas. Terríveis os corpos cheios das suas velhices, cheios dos seus enganos, cheios de vergonha e eu, e nós invasores de todos os segredos bem guardados, as nossas mãos que desnudam tudo, as mãos do cirurgião que não tocam em nada, que despedaçam um corpo inteiro. Os olhos de todos os velhos são passarinhos molhados, eu engulo vontade de chorar e ouço-os respirar, encher o peito de folhagem sibilante, ouço o coração bater, tamborzinho longínquo, longínquo, perdido... E eu quero afundar-me no mais sujo de um homem e encontrar-lhe os olhos suplicantes, e apertar-lhe as mãos, e ouvir-lhe a vida desmoronada, escavar fundo o belo de um corpo apodrecido, senão como seríamos poetas.

1/26/2010

Espelho Meu


Eu!
Eu!
Eu!

Sou eu!

Sou
eu?...

1/22/2010

Eu tenho de estudar.
Eu tenho de sair para jantar numa sala cheia de cigarros.
Demoro-me num copo de cerveja e numa risada sem importância.
Demoro-me mais.
Eu tenho de estudar.
Eu encontrei quem me faz rir e demoro-me mais numa garfada de bolo.
Eu tenho de estudar.
Mas encosto o corpo na cadeira e conto histórias mirabolantes a uma plateia de olhos esquecidos de terem de estudar. Eu tenho de estudar.
Mas a música tão bonita.
Mas o novelo de lã caido junto da cama.
Mas os livros cheiram a estórias.
Mas maçãs na prateleira da cozinha.
Mas vestidos para amanhã no armário, tantos.
Mas homens e gatos em janelas lá fora.
Mas ainda é tão cedo.
Mas o tempo é tão rápido que nem chego a percebê-lo.
Mas eu tenho de estudar.
E agora?

1/21/2010

parabéns

Hoje reencontrei o postal. Dentro da cabine ninguém telefona para Paris, a Dona Marta diz que está farta, Outubrodedoismilequatro.
Hoje toquei o meu velho amigo, cordas roucas velhas. Qualquer coisa remexe-se dentro dos meus olhos, um inverno um ramo seco torcido, um sorriso de velho nú envergonhado, umas bochechas de menina pintadas com um coto de baton.
Hoje reencontrei o postal, às vezes tudo muda e nós ainda distraidos dentro de postais antigos.

12/13/2009

Hypatia

Deixa-me ser como ela, doce mulher de acreditar em estrelas, voz tranquila, pensar irrequieto medroso de cair em armadilhas, deixa-me crer apenas nas estrelas e no seu lento passeio de carrousel, deixa-me duvidar de tudo o resto mas procurar, procurar, acreditar no que ainda não sei!

Hoje o dia acordou assim, cheio de vento e folhas secas a roçar no chão da varanda, e eu soube que ia ser perfeito.

11/30/2009

Eu era tão feliz, tão feliz que nem sabia que era feliz, não precisava de saber não precisava de pensar, cabia-me no corpo sem folga ou beliscão.
Os dias agora mordem-me, enchem-me o agasalho de nódoas negras.
Quem inventou que não se pode voltar ao que já acabou? Que depois de hoje vem amanhã e que ontem só existe no pó das fotografias?
Será que todos eles, deitados nas suas camas e no seu respirar ofegante, sentem este miúdo que eu sinto dentro, trancado à força num quarto escuro de castigo sem entender porquê, quem inventou que temos de ser grandes, e quem nos ensinou a caber num corpo tão humilde de coisas magníficas, tão envergonhado de sonhos que nos esmagam quem foi que eu levo comigo de mão dada, tapo-lhe os olhos e tiro-lhe as meias, debaixo dos pés ramos aguçados, folhas que crepitam, um riachinho frio uma joaninha esmagada...
Sentes? Sentes?...
Lisboa tem uma luz. Lisboa cheira a cafés apressados e bacalhau empilhado em caixotes, alperces secos, retrosarias de veludos empalidecidos, lisboa tem chão que escorrega de chuva. Lisboa tem os velhos que apregoam lotaria e mulheres que cantam imaginando uma voz que já perderam. Lisboa tem homens que dormem fora das montras, tem negros em longas cores, tem marinheiros com pernas de pau, com acordeãos, com silêncios compridos como ecos. Lisboa tem as pedras ao pé do rio molhadas de lodo, tem poemas velhos ainda cuspidos em algumas sombras. Lisboa... Os últimos sabedores de todas as estórias, engraxadores de sapatos vendedores de castanhas, loucos em mantas mulheres carregadas de ouros de plástico. Lisboa traquina...

11/23/2009

3 quilos e 180 gramas

Hoje vi nascer um bebé. Pela primeira vez...
E não importa o que dizem, não importa que a barriga seja cortada, não importam os sacos de soro pendurados, não importa que à volta todos tenham máscaras e toucas verdes, não importa nada, nada tira a maravilha a um bebé pequenino que sai para o ar frio do dia e grita, nada tira a maravilha do choro da mãe ao ouvir o grito do seu bebé, nada nunca foi tão bonito como ver nascer um bebé.

11/17/2009

A estória dela

Em nova, ela sonhava com os filhos a engordarem-lhe a barriga, sonhava com o marido a pedir o jantar na mesa, um copo de vinho e uma côdea de pão, sonhava com os linhos engomados e pão de ló a cheirar no forno, uma cadeira de baloiço onde embalar os pequenos, sonhava com o cansaço de um dia inteiro no corpo, dorido como uma porta que range. Em nova, ela tinha os cabelos longos numa trança ao fundo das costas, penteava-se antes de todos acordarem, lavava-se numa bacia e vestia a camisa deixada nas costas da cadeira, cortava o pão na cozinha e depois esperava encostada na porta aberta da rua, via a noite amanhecer e o nevoeiro esconder-se nos ninhos e nas ervas, via os filhos lambuzados de doce e bigodes de leite, e despreocupava-se de outros dias que não aquele, tão aconchegado de vozes na casa.
Em velha, ela sentava o neto no colo e tacteava-o no escuro, no seu escuro. E esperando, encostada na porta, ela não via nada.

11/13/2009

simples

Derreter chocolate em banho maria.
Passar o dedo no fundo da panela e ser outra vez um miúdo lambuzado.
Aquecer os pés debaixo do aquecedor de óleo.
Enrolar o xaile no pescoço, apagar a luz e sair.

11/12/2009

Experimento as minhas mil caras. Hoje escolho esta. Todos parecem ter encontrado o seu cubículo, no colchão na mesa do café, eu dobro a roupa com paciência e arrumo-a direita na gaveta, as horas são mais lentas para mim, não duvido, passam como um comboio a vapor embaciam os vidros, o velho aquecedor de óleo é o corpo quente na minha sala. Imagino as vozes e os aplausos, a mão a pentear-me o cabelo junto ao pescoço, mas as olheiras crescem-me ácidas e as mãos impacientes de esbofetear, dobro a roupa lenta, rego os cactos, páro de pé em frente à janela e confirmo que chove na luz riscada do candeeiro, sento-me e espero o cuco do relógio no seu assobio de embalar, peço permissão para acabar o dia, peço por favor. Ninguém me conheceria, corcunda e amarelecida agora, experimento as minhas mil caras e hoje esta escolhe-me, escolheu-me já há muito, recordo agora... e entranha-se podre na minha pele até nada mais restar dos meus vinte anos.

11/08/2009

Ana

Ana foi o que sobrou de mim. Ana foi a nódoa que ficou quando te esfreguei dos meus olhos, quando a última roupa cheirou a primavera na corda, quando os envelopes envelheceram debaixo da porta. Sobrou Ana, em todas as letras que me arranham as mãos. Serei Ana, sabes que sim. Foi o que sobrou de mim, não de ti.

11/07/2009

Alongo-me como um bocejo. Não sei o que dizer, era simples antes, lágrima ou riso, meninas imaginadas de cabelo de papel, marinheirinhos na água ensaboada da banheira. Hoje enrugo-me na flanela da cama e penso toda uma vida que não consigo lembrar ou sonhar, hoje sou eu só, incapaz de amanhã. Eu tenho palavras, entendes? Mas montá-las ao acaso? Esperar que não se despenhem de manhã se o vento for demasiado desleixado?... Eu tenho uma máscara de rir que uso quando não sei que cara vestir. Descobrem-me a careca quando procuro as palavras, engasgo-me e coro. Eu não consigo escrever, eu queria ser mais que este nevoeiro de cabelos e rouquidão, queria ser mais que um livro de selos colados tortos, corpo torto que me sirva.

11/06/2009

Cresce-me um sonho dentro da barriga, aperta-me com muitos dedos faz-me cócegas, é muito de noite quero sair, quero nadar quero fugir, quero molhar o papel de uma garrafa quero boiar para a outra ponta do mar quero um papagaio, quero abraçar-te, quero sapatinhos para pés pequenos, quero trancar-me com um estranho quero entornar vinho na blusa e rir-me com dentes lilás, quero sentar-me num banquinho na varanda e esperar, esperar que uma tempestade me encharque e me adormeça de frio, quero rir até me engasgar até chorar, quero pousar a cabeça no mosaico fresco e amainar a febre, quero quero oh eu quero tanto!... Quero um nó na garganta, quero ser descarada, descaradamente cheia de rir!

Na minha cabeça um navio fantasma. Tanto mundo que nunca verei!...

11/05/2009

a sagração da primavera

À saída do cinema apertam-se os botões do casaco. Os cheiros misturam-se, perfume e terra, e brandy. Poderia dormir no cinema, afundada no veludo coçado de uma cadeira, um dedo de êxtase pendurado no lábio, ignoro o cabelo fugido do lenço, os olhos quietos na fita, metros e metros de fita, na tempestade da orquestra. Pertenceria ali, a pérola no lobo da orelha, as rosas brancas, os copos de pé alto, o cetim negro na cintura. As mãos do homem no piano furiosas, na pele furiosas, o cetim vincado, a manhã incolor de chuva... À saida do cinema demoro-me, fecho os olhos e respiro o último guincho do violino, pertenceria ali, a delicadeza de um papel de parede, frascos de vidro no toucador, ser uma mulher cheia de sonhar, uma mulher arrogante, dedos finos de linho que duvidam escondidos. À saida do cinema trago uma estória no corpo e talvez o meu rosto mude talvez o meu corpo se cubra de cetim negro, liso, e um chapéu de côco pequeno.

10/24/2009


DEVAGAR É QUE NÃO SE VAI LONGE.

10/22/2009

navegar é preciso

Quarto frio. Candeeiro de pé alto, abat-jour grande, luz mole na manta de lã. Lá fora anoitece e esfria, as minhas mãos frias e a bossa nova. Hoje não quero escrever, hoje quero contar, tenho um quarto redondo feito de janelas onde o dia se apaga e a cidade se acende debaixo dos meus sapatos, muitas luzes em muitas escadas e janelas, a minha luz de pé alto junto à cabeceira da cama as minhas meias de casa, azuis com riscas vermelhas, o meu xaile que me encontrou e me pediu neve, um dia, há tanto tempo. A minha janela são muitas é um postal. As pernas no quente da manta, a caneca de leite bebido, os óculos o pijama, é quinta-feira quase de noite, silêncio, tanto silencio em casa a cozinha sem tilitar de colheres, conforto da casa só minha, sonhos de tigelas todas diferentes, novelos de lã pelo chão, gatos, choros trapos molas de roupa açúcar e farinha, música baixinho, hoje é quase assim, feliz dia quase-feliz, quieto e morno, um cantinho de janelas a minha casa o meu quente num quarto frio.
Paz que não sei descrever.

10/12/2009

O que se sente


A saudade sente-se por baixo do queixo, naquele pedaço de face que assentava no teu ombro e te cheirava e te sorvia o calor do corpo.



10/01/2009

Se eu fosse uma menina teria um submarino debaixo de uma roseira, um submarino azul feito de rodas de bicicleta e pratinhas de chocolates e um volante um chapéu-de-chuva para os pingos. Teria brincos de cereja e berlindes e terra escondidos no bolso. Quando era menina sentavam-me em cima de uma lista telefónica para jantar, no fim escondia-me debaixo da mesa para os óculos da minha avó não me encontrarem, e espreitava os embrulhos antes do natal chegar. Quando era menina fazia peixinhos de areia e aviões com a palma da mão, a avó tinha um robe verde com botões redondos e caracóis cinzentos e o avô gostava de praia. A minha praia era um alguidar de água fria, a mãe acordava-me no comboio e comprávamos pão numa carrinha à porta da estação, o pai transformava madeirinhas numa casa de bonecas, o chão da cozinha era vermelho... A tia era uma menina de trapos e ria na máquina da costura. O tio era careca. O tio é careca. Eu não tenho berlindes nem um avião.

9/24/2009

como uma mulher pode ser um pássaro...



e o maestro no final, tão encantado!...

9/07/2009

Se calhar é mesmo assim:
às vezes fazer força para puxar a boca para cima, as costas para cima, as meias para cima e enlaçar os atacadores e sair para a rua. Fazer uma força fingida, um sorriso de palhaço cheio de vermelho, cheio de alfinetes para não cair, bem seguro às bochechas às orelhas para não se mexer do lugar, para nenhuma lágrima conseguir romper. E abrir bem os olhos para o vento entrar e secar os vidros molhados. E abrir bem os olhos, nos carros os meninos põe a mão de fora para brincar aos soldados com o vento, os campos de arroz envelhecem amarelos, a areia da praia tem conchinhas partidas como nós, o mar arredondou-lhes os espinhos, conchinhas macias agora...

9/02/2009

até já


Há um lugar onde seremos sempre. Eu e tu.
Há uma árvore de mãos onde as nossas nunca vão perder-se, onde as nossas mãos suarão juntas, amarelas, vermelhas, queimando a parede de uma noite de vinho e risos demasiado altos, demasiados cheios de asas, demasiado novos... O teu chapéu castanho está na porta. Pacotinhos de açúcar. Papéis.
Era uma vez, acendeste velas num coração de prata e disseste-me
Abre os olhos...
A primeira vez que nevou foi contigo. A última vez que nevou foi contigo. A primeira vez que morei num sofá azul foi contigo, muitas vezes a minha roupa e a tua pingaram juntas no estendal, a segunda vez que amei amei-te, uma vez saimos juntos do comboio e tivémos medo de dar a mão, a última vez que fiz tudo foi contigo, parece-me, visto daqui... Tu num quadradinho de papel de cordel pendurado no nada, a última vez que me vi foi contigo. Olho agora, eu num quadradinho de papel de cordel pendurado, mais nada.
Tenho uma parede cheia de estórias em que tu querias que eu voasse. E eu era tão pequena e tão certa de conhecer todo o meu tamanho todos os meus cantos toda a força da minha voz e rasguei as nossas asas as nossas pernas os nossos pés os teus olhos o teu choro eu ri-me. Eu ri-me. Eu ri-me.
Os meus dedos deslizaram nos novelos como no teu cabelo e corri nas mãos um chapéu inteiro para ti, Quando nevar vais lembrar-te de mim? Aquece as orelhas com o meu chapéu, deixa-me sentir o teu cabelo, o teu cabelo é fino e loiro, o teu cabelo não cheira a nada, o teu cabelo pica-me as bochechas quando adormeço na tua almofada. O teu cabelo continua nas minhas mãos mesmo depois de teres ido embora. Não faz mal.
Desfio a tua cara na minha cabeça, os teus gestos, as tuas ninharias que não consigo chamar de nome nenhum, vou mais longe, quando éramos só eu e tu e despediamo-nos calados à porta do quarto e os teus braços pareciam ser parte do meu próprio calor, volto atrás, corro para a frente, não me lembro, vejo outra vez, revejo-te, revejo-me em ti e pinto peixinhos nas minhas bochechas molhadas com lápis de cera, é o que fazem as crianças, não é? Pintam estórias de princesas com lápis de cera...
Nós não cabemos aqui... Nós... nós, faz eco no que sobra desta folha em branco, nós não cabemos aqui, só o nosso respirar tinge a mesa como um tinteiro entornado e empapa-me as mãos, a gola da camisa, os olhos turvos como um aquário cheio de musgo e conchinhas pontiagudas. Há uma árvore onde caberemos, alimentada de olhos que lerão as nossas palavras, Uma mimosa, carregada de mãos, não poderemos ver mas crescerá, crescerá, alguém adormecerá na sua sombra...

Caberás numa caixa. Prometo-te.

9/01/2009

8/27/2009

adultos

Ela perguntou:
És feliz?
Ela respondeu:
Sim.
Olhava para há muito tempo...

8/24/2009

vinte e um anos

Eu sei que esquecerei. Eu sei...
Enquanto não esqueço cresce-me musgo nos olhos e revejo incessante todos os detalhes que lembro de ti, mulher louca a balouçar numa cadeira ladainhas carcomidas pelos dentes e pelos lábios pendurados de água.

Pequeninos chapéus-de-chuva para as pestanas...

8/23/2009

e morreram felizes para sempre

… imaginar que a morte é um despedir de muitas mãos, uma carícia de lençóis sem um vinco, o sino das chávenas no armário quando a janela se abre de rompante e engoles o último ar ensolarado do quarto. Gostava de imaginar que a morte vem quando as cortinas se abrem, morrer olhada por muitos olhos que me aplaudem e choram e no fim me felicitam por morrer tão bela. Gostava que a morte chegasse naquele fio de cabelo que ficou fora do laço e que cai sobre o pescoço, que nada no meu corpo denunciasse o despedaçar eminente. Gostava que a morte chegasse só depois de fechar os olhos.

Não é.

8/06/2009

A música tem um arrulhar de bichos em volta de lâmpadas, um copo com uma azeitona a boiar. Mas eu estava muito longe... o meu vestido era um lençol sobre os ombros e a ponta do queixo. Havia duas molduras na parede, vazias, não me decidia quem pôr à cabeceira da cama, alguém que olhe por mim, alguém para eu olhar... Eu imaginava o trote lento do comboio, sozinha tão sozinha uma janela imensa só para mim como um tapete onde afundar-me de cansaço, nomes de cidades em tabuletas pequenos países das maravilhas, a minha cabeça encostada ao vidro a escorregar de sono, desenho um sorriso de outro para mim no molhado da janela.

8/01/2009

Se eu pudesse fotografar dentro da minha cabeça... guardaria todas as palavras belas que me roubam tempo ao sono numa caixinha de arquivos, biombo, botão, azul, jarro, embalar, boneca, pérola, perfume, e um dia escreveria uma estória, um castelo de letras em equilíbrio numa folha de papel.

(uma preguiça de pegar no lápis e escrevê-las...)

7/18/2009

Song of Childhood

When the child was a child
It walked with its arms swinging,
wanted the brook to be a river,
the river to be a torrent,
and this puddle to be the sea.

When the child was a child,
it didn’t know that it was a child,
everything was soulful,
and all souls were one.

When the child was a child,
it had no opinion about anything,
had no habits,
it often sat cross-legged,
took off running,
had a cowlick in its hair,
and made no faces when photographed.

When the child was a child,
It was the time for these questions:
Why am I me, and why not you?
Why am I here, and why not there?
When did time begin, and where does space end?
Is life under the sun not just a dream?
Is what I see and hear and smell
not just an illusion of a world before the world?
Given the facts of evil and people.
does evil really exist?
How can it be that I, who I am,
didn’t exist before I came to be,
and that, someday, I, who I am,
will no longer be who I am?

When the child was a child,
It choked on spinach, on peas, on rice pudding,
and on steamed cauliflower,
and eats all of those now, and not just because it has to.

When the child was a child,
it awoke once in a strange bed,
and now does so again and again.
Many people, then, seemed beautiful,
and now only a few do, by sheer luck.

It had visualized a clear image of Paradise,
and now can at most guess,
could not conceive of nothingness,
and shudders today at the thought.

When the child was a child,
It played with enthusiasm,
and, now, has just as much excitement as then,
but only when it concerns its work.

When the child was a child,
It was enough for it to eat an apple, … bread,
And so it is even now.

When the child was a child,
Berries filled its hand as only berries do,
and do even now,
Fresh walnuts made its tongue raw,
and do even now,
it had, on every mountaintop,
the longing for a higher mountain yet,
and in every city,
the longing for an even greater city,
and that is still so,
It reached for cherries in topmost branches of trees
with an elation it still has today,
has a shyness in front of strangers,
and has that even now.
It awaited the first snow,
And waits that way even now.

When the child was a child,
It threw a stick like a lance against a tree,
And it quivers there still today.

7/15/2009

A vida é certamente bela.
A vida é certamente muito bela. Vejo-o.
Cada mendigo é belo como aquário abandonado ao musgo e às sementes.
Cada jarro de louça é belo como o silêncio das coisas que existem há muito tempo quietas num armário branco.
Cada pano de renda, ensopa-se de ar, fino como um brinquedo de pó, é belo, tão belo...
A louça suja, abandonada ao sol e ao tremor dos guardanapos amachucados, é bela como uma multidão barulhenta que molha o pés no mar.
A vida é certamente muito bela.
Vejo-o hoje.

7/08/2009

7/07/2009

Ser pequena agarra-se a mim como um laço do vestido, segue-me, espreita-me por cima do ombro. Passos mais pequenos. Mãos mais cheias de rebuçados, um buraquinho nas meias ninguém vê... Eu tenho uma fotografia das minhas costas. As minhas costas ossudas entre botões desapertados. As minhas costas cheias de sombras e sulcos de costelas, encaracoladas numa vergonha de lençóis. Lembro-me... Era assustada como um bambu. Segurava a chávena numa concha de mãos que fervia. E a manhã era o meu dia inteiro.
Eu sabia-me. Sabia-me bem. As minhas costas nunca foram ossudas. Eram naquela fotografia. Eu era ossuda, assustada como um bambu...
Tu brincas com as minhas costas, as minhas costas cheias de sombras, são só papel agora, fotografia transformada em avião de folha que lanças sem medo de perder.

6/26/2009

O meu corpo é um lugar estranho.

Enfeito-me com folhos e flores, pinto-me olhos e bochechas, calço sapatos altos da minha mãe. A minha mãe há-de sempre calçar sapatos maiores que eu e o meu pé há-de escorregar neles até caber só num cantinho de atacadores. A minha mãe há-de ter sempre brincos e anéis numa caixa de madeira para eu encher os meus dedos de brincar, a minha mãe há-de sempre assustar todos os monstros debaixo da cama. Um dia a minha cara será antiga como a da minha mãe mas eu hei-de ser sempre infinitamente pequena e ela há-de infinitamente cuidar de mim e passar-me a mão no cabelo quando eu cair e esfolar os joelhos, um dia juntarei e minha mão à dela, sobre a dela, e serão igualmente carcomidas e manchadas de rascunhar a vida, mas a minha mão caberá sempre dentro da dela, enrolada, da mesma forma que cabia há muito tempo, quando ainda não era eu para mim e era apenas eu para ela.

O meu corpo esmigalhar-se-á.
Mas há um lugar onde serei sempre intacta.

mapa

Conheço a minha casa numa linha estreita. A minha casa é um carril que vai de Coimbra até abaixo, até ao mar. Sei como os eucaliptos e as casas pintadas de azulejo se tornam campos de arroz, cheios de nuvens a boiar neles, e como os campos de arroz se tornam ovelhas embrulhadas em lã, quentes debaixo do sol, lentas, e milho alto, verde, não amarelo, e trigo que brinca no vento como um cardume de peixes. E como o campo desaparece em janelas, tantas janelas altas janelas baixas, estradas, candeeiros acesos à noite que enchem as janelas de olhinhos abertos, olhinhos amarelos de gato. E como as janelas se vão abeirando do chão até sobrar só a minha janela do comboio cheia de terra ondulada, seca, onde imagino umbigos… e árvores, corcundas, antigas, a guardar ar mais fresco…

6/20/2009

Deixo caramelizar o choro no cabelo e apanho do chão os destroços de asas, pássaros de seda, a minha voz escorrida ao teu ouvido.
Nele, ela via poucos anos, brincadeiras de berlindes, mãos sujas de areia, urtigas, bichinhos-de-conta. Ela pintou-se para ele. Ela sabia que mascarar-se acabaria assim, o som de uma fivela, uma colher para dois, um botão descosido na blusa.
Antes, quando dançava em pontas de pés... foi há muito tempo. Como se nunca.
Afiar facas na minha pele. Anda. Eu deixo-te.

6/03/2009

À noite é quando fica frio. Fica quieto. Sobra a roupa na cesta e a outra estendida, nariz a pingar, adormecida na corda à espera da manhã. Os livros amontoam-se na mesinha pequena sem olhos a contar as páginas.
À noite fica ela. Ela alinha as chávenas que o dia inteiro foi perdendo na mesa, amacia as unhas com uma lima de cartão, descasca amendoins para uma folha de papel escrita e sobre o escrito riscada. Ela pensa no dia em que a cama ficou pequena para as suas pernas e passaram sorrir-lhe ou a chorar quando falava, a demorar-se à porta de casa quando falava. Ela pensa no dia em que se sentou no comboio e tocou pela primeira vez no chão com a ponta do sapato. Nunca antes tinha chegado com os pés ao fundo do banco... Nesse dia tinha uma roupa feia, uns sapatos de corda e uma camisa branca, e o pé caiu-lhe ao chão distraído. Nessa noite dobrou bem o corpo para caber na cama.
À noite ela deixou de escrever. Ela tem um lápis preto com que há muito tempo pintava os olhos de manhã, e à noite ela escreve-se uma cara antiga, ela lembra-se de quando aprendeu a andar com os pés no chão, as bochechas a testa atiraram-se também, numa paciência de linhas fundas, pele abaixo. À noite ela pinta-se, risca todas as linhas que antes não estavam lá para não se esquecer como era quando os seus olhos assentavam em quase nada. Quase nada.

6/01/2009

casa

Cada momento é um previlégio. Ser um monstro ou um beijo na cara. Arranhar-vos, envelhecer-vos, desdenhar-vos, vocês apanham do chão cacos das vossas mãos acolhedoras eu atiro-vos pedras e pontilho-vos o vidro dos olhos, nem por um momento duvidam da flor dentro de mim, do balão colorido que vos sopra asas quando me agarram os tornozelos, nem por um momento o prato desapareceu da mesa nem por um momento desejaram a noite mais longa para sonharem outra que não eu. Nem por um momento as minhas pedras foram mais rudes que espuma branca e vocês aplaudiram de pé a minha magia, a minha magia de aconchegar-vos com alfinetes o corpo.

5/24/2009

professores

Sou de lágrima fácil.
Escrevi um abraço apertado a todos os que um dia me ensinaram na escola, bichos letras números, e devagarinho chegam-me as respostas, abraços apertados saídos de um tempo há muito tempo a lembrarem-me coisas que não esqueço. Era uma vez professores que sabiam o nosso nome, o som dos nossos sapatos a nossa letra num monte de folhas. E lá se pendura no meu olho a lágrima fácil...
A noite acaba, os carros acendem-se e aceleram, os olhos não são mais uma pintura minuciosa, agora apenas rascunhos para uma outra vez, amanhã. A noite acaba para mim, o palco ficou só dela e ela é uma caninha em pontas de pés, ela dança em volta da mesa de olhos fechados e parece encontrar as esquinas onde o corpo ficaria negro, foge delas, roda, balouça as mãos cavalo marinho, ri... Eu largo-me numa cadeira vermelha, luzes um bocadinho sombra mas eles encontram-se sempre rodam batem um no outro fundem-se levam-se um no outro para casa, escondidos no bolso, um puxará o outro como um lencinho bordado e junta-lo-à ao rosto, na almofada. A noite acaba para mim, aconchego-me no casaco, as pernas açoitadas de música o vestido molhado de calor, fui louca hoje, abandonei-me à sofreguidão de serpentear nas fitas de luz rosa para me ver quase voar, a água espalha-se o bolo esfarela-se nas tábuas e os pés devoram todos os farrapos e dançam mais, mais, mais e enlouquecem e sapateiam sozinhos, sem corpo, sem a minha cabeça que os sentaria quietos em pantufas de lã, a minha cabeça mãe cansada e impaciente de silêncio e sono sossegado...
Os pássaros cantam. O céu ainda escuro mas eles sabem, eles sabem, em breve será manhã. Os pássaros cantam-me boa noite, boa noite...

5/23/2009

abat-jour

Ponho o chapéu. Um chapéu macio de homem, um chapéu de côco preto, um chapéu descaído sobre o cabelo sujo e fino, tapa-me as sobrancelhas e as pestanas, tapa-me o que vou fazer-te a seguir, não adivinhas... as minhas meias abandonam-me a meio das pernas e a saia está vazia...
Roubo-te o som que fazes quando libertas o perfume dos meus tornozelos, quando descobres o precipício das minhas meias.
Gosto de vestidos que deslizam pelas costas pela cintura pelas mãos, escorregadios, ásperos, pesados, vestidos que caem aos meus pés a correr quando decido sussurrar-te junto ao pescoço o que não adivinhas.

5/09/2009

pirilampos

Às vezes preciso de abrir as gavetas. Tirar tudo para fora, montar o castelo de cartas que no fim hei-de soprar de volta ao chão, e outra vez esquecer. Mas às vezes preciso de abrir as gavetas, calçar sapatilhas de ballet pequeninas e saias de tule com peixes que já foram de verdade e rodar pelo quarto espartilhada numa pele que sufoque o meu corpo crescido e desgracioso. Matar bichos velhos que sobreviveram a todas as vezes que tentei cortar-lhes a cabeça com a maldade de uma criança curiosa armada de mãos sem lembrança. Tiro tudo para fora com a paciência meiga de um embalo, apalpo os envelopes para confirmar que continuam todos lá dentro, a dormir nos vincos do papel, reconheço os ganchos de cabelo e os lenços desengomados, e prometo que os acordarei quando for hora. Mas ainda não... Faço-os prisioneiros das minhas sombras enquanto me tremerem os joelhos com medo do escuro.
Serão os meus pirilampos.

5/06/2009

Hoje não escrevo nada, lanço só palavras como se lançam dados de olhos fechados à espera de sorte, já larguei as pernas e os braços e a cabeça na cama, os sons lembram-me gente diferente noutra ponta do quarto noutra ponta da cidade noutra ponta do mundo.
Pedalo mais rápido e o vento passa-me as mãos debaixo do vestido. Poeticamente, digo-o.

Era um barzinho de embriaguez, casa de banho ao xadrez. Chamavam-lhe amor.
A mulher da praça tinha os olhos cor de folhas verdes vistas dentro de lentes de ambar e poucas palavras a rir, como as crianças em frente a adultos de salto alto curvados sobre as suas cabecinhas entrançadas.
Quando a menina corre o vestido fica para trás, pendurado no ar.
Dormir custa como um calo. Amanhã, amanhã, amanhã, aperta, aperta...

5/03/2009

Coimbra, queima das fitas 2009

A capa preta significa que vou encontrá-las à porta, à minha espera de sorriso bem aprumado, impacientes com a minha demora e com a minha gravata torta. É o dia em que as guitarras farão alguém encolher o corpo e fechar os olhos doídos, atrás deles corre a fita de um filme rápido tão rápido, já passou, o primeiro dia em que chegámos com as malas cheias de agasalhos e papéis e migalhas de um tempo que então era o passado, as guitarras não eram mais que uma hora curiosa de pestanas diluidas que nunca chegaria para nós e que ouvíamos distraidas de sorrisos. Quando os meus olhos se apertarem com medo de abrir-se e o último acorde tiver parado de vibrar no chão vê-las-ei à minha porta, de sorriso bem aprumado e impacientes com a minha demora e a minha gravata torta, verei as costas orgulhosas de capa comprida, verei os sapatos altos atirados sem querer contra a parede enquanto cozinhávamos descalças e bebíamos vinho barato, as mãos contidas, medo que o carinho voasse de repente dos dedos, cansado de se esconder sempre nos sorrisos bem aprumados e na impaciencia das gravatas tortas.